Metafísica - Livro X 7

Livro X (Iota): a unidade, a identidade, a diferença e os contrários

O que fica entre dois contrários (como o cinza entre branco e preto)

Como os contrários admitem algo entre eles, e em alguns casos têm de fato esse meio-termo, os intermediários têm que ser feitos a partir dos próprios contrários. Vou mostrar três coisas sobre eles. A primeira: todo intermediário está no mesmo gênero das coisas entre as quais ele fica.
Chamamos de intermediário aquilo para onde uma coisa em mudança tem que passar primeiro, antes de chegar ao extremo. Por exemplo, se passássemos da nota mais aguda para a mais grave de um instrumento por intervalos mínimos, chegaríamos antes às notas do meio. E nas cores, se passássemos do branco para o preto, chegaríamos antes ao vermelho e ao cinza do que ao preto. O mesmo vale para todos os outros casos.
Mas mudar de um gênero para outro gênero é possível de modo acidental, como passar da cor para a figura. Por isso os intermediários têm que estar no mesmo gênero, tanto entre si quanto em relação às coisas entre as quais ficam.
A segunda coisa: todo intermediário fica entre opostos de algum tipo. entre opostos pode haver mudança por natureza própria. Por isso não pode haver intermediário entre coisas que não são opostas, pois nesse caso a mudança não iria de um oposto rumo ao outro.
Entre os opostos, no entanto, nem todos admitem meio-termo. Os contraditórios não admitem nenhum: é exatamente isso que é uma contradição, uma oposição em que um dos dois lados tem que valer para qualquer coisa que seja, sem nenhum intermediário possível.
Os outros opostos se dividem em três tipos: alguns são relativos, outros são privativos, outros são contrários. Entre os termos relativos, os que não são contrários não têm intermediário, e a razão é que eles não estão no mesmo gênero. Que intermediário poderia haver entre o conhecimento e aquilo que é conhecido? entre o grande e o pequeno, que são contrários, existe um meio-termo.
A terceira coisa, que é o ponto central: se os intermediários estão no mesmo gênero, como foi mostrado, e ficam entre contrários, então eles têm que ser feitos desses contrários. Para provar isso, duas possibilidades a considerar. Ou existe um gênero que abrange os contrários, ou não existe nenhum.
Suponha que exista esse gênero, e que ele seja algo anterior aos contrários. Nesse caso, as diferenças que formaram as espécies contrárias dentro do gênero serão contrários anteriores às próprias espécies, pois toda espécie é feita do gênero mais as diferenças. Por exemplo, se branco e preto são contrários, e um é uma cor que penetra e o outro é uma cor que comprime, essas diferenças, penetrar e comprimir, são anteriores. Logo, são contrários anteriores um ao outro.
De todo modo, as espécies que diferem por serem contrárias são as espécies mais verdadeiramente contrárias. E as demais espécies, isto é, os intermediários, têm que ser feitos do seu gênero mais as suas diferenças. Por exemplo, todas as cores entre o branco e o preto devem ser ditas feitas do gênero (a cor) mais certas diferenças.
Mas essas diferenças dos intermediários não serão os contrários primários, senão toda cor seria ou branca ou preta. Elas são, portanto, diferentes dos contrários primários, e por isso ficarão entre os contrários primários. As diferenças primárias são penetrar e comprimir.
Agora a outra possibilidade: o caso dos contrários que não caem dentro de um gênero. É deles que precisamos perguntar primeiro de que são feitos os seus intermediários. As coisas que estão no mesmo gênero têm que ser feitas de elementos nos quais o gênero não entra, ou então elas próprias não têm composição alguma.
Ora, os contrários não entram um na composição do outro, e por isso são princípios primeiros. os intermediários ou são todos sem composição, ou nenhum deles é. Mas existe algo que é composto a partir dos contrários, pois é possível mudar de um contrário até esse algo antes de chegar ao outro contrário. Esse algo tem menos da qualidade em questão do que um dos contrários, e mais do que o outro. Por isso ele também fica entre os contrários.
E todos os demais intermediários também são compostos, pois aquilo que tem mais de uma qualidade do que uma coisa e menos do que outra é, de algum modo, composto justamente das coisas das quais se diz ter mais e menos daquela qualidade. Como não nada anterior aos contrários que seja do mesmo tipo que os intermediários, todos os intermediários têm que ser compostos a partir dos contrários.
Disso resulta que todas as classes inferiores, tanto os contrários quanto os seus intermediários, serão compostas a partir dos contrários primários. Fica claro, então, que os intermediários estão todos no mesmo gênero, ficam entre contrários e são todos compostos a partir dos contrários.