Capítulos

Metafísica - Livro I

O Livro I na Obra

O Livro I, designado Alfa maior na ordem grega, é a abertura da Metafísica. Começa com a frase mais célebre da obra: todos os homens, por natureza, desejam conhecer. A partir daí, Aristóteles sobe da sensação à experiência, da experiência à arte e da arte à sabedoria, definindo a sabedoria como o conhecimento das primeiras causas e dos princípios. Esse esquema das quatro causas, a material, a formal, a eficiente e a final, é a grade que organiza todo o livro.

Fixado o que se procura, Aristóteles percorre os filósofos anteriores para mostrar como cada um tateou alguma dessas causas sem chegar ao quadro completo. Passa pelos primeiros físicos que buscaram um princípio material, por Empédocles e Anaxágoras, que introduziram causas do movimento, pelos pitagóricos e seus números, e enfim por Platão e a teoria das Ideias. A última parte do livro é uma crítica direta às Formas platônicas, que Aristóteles considera uma duplicação inútil do mundo sensível, incapaz de explicar como as coisas vêm a ser e se movem.

Conteúdo do Livro

A Primeira História da Filosofia

Os capítulos doxográficos do Livro I, em que Aristóteles resume e avalia as opiniões dos pensadores anteriores, são uma das fontes mais antigas e influentes para a história da filosofia grega antes de Platão. Boa parte do que se sabe sobre os pré-socráticos, dos primeiros físicos jônios aos pitagóricos, chega filtrada por essas páginas. Convém ler com cautela: Aristóteles não relata de modo neutro, ele reorganiza os predecessores segundo o seu próprio esquema das quatro causas e tende a apresentá-los como etapas imperfeitas que conduzem à sua posição. Mesmo assim, o livro inaugura o gênero da história crítica das ideias no Ocidente.

Influência no Pensamento Cristão

A ideia que abre o Livro I, a de que o conhecimento das primeiras causas é uma busca racional e ordenada, foi herdada pela tradição cristã como modelo de como a razão investiga. Ao apresentar a filosofia como percurso que sobe da sensação à sabedoria e ao reler criticamente todos os pensadores anteriores, Aristóteles fixou um modo de pensar que a escolástica adotou: examinar o que os outros disseram, avaliar onde acertaram e onde falharam, e só então propor. Tomás de Aquino, que chamava Aristóteles de "o Filósofo", comentou este livro e tomou dele o esquema das quatro causas como ferramenta corrente da teologia natural. A história doxográfica do Livro I tornou-se, pela mediação medieval, parte do repertório com que a cultura cristã pensou a própria razão.

“Todos os homens, por natureza, desejam conhecer.”

Aristóteles, Metafísica, Livro I, primeira frase

Relevância para o Cristão de Hoje

A frase de abertura, "todos os homens, por natureza, desejam conhecer", é o ponto onde este livro mais toca a sensibilidade cristã. Ela afirma que a mente humana tende espontaneamente à verdade, e essa intuição ressoa no lema atribuído a Agostinho e a Anselmo, a fé que busca o entendimento. Para um leitor cristão, o desejo natural de saber pode ser lido como sinal de que a pessoa foi feita para conhecer, sem que isso esteja no texto de Aristóteles. Convém manter a distância crítica: Aristóteles fala de uma sabedoria que culmina na contemplação das causas e de um princípio divino impessoal, não de um Deus pessoal que se revela. O Livro I oferece ao cristão o vocabulário das causas e o exemplo de uma razão que investiga com rigor, não uma doutrina de Deus já cristã.