Metafísica - Livro I 9

Livro I (Alpha): a sabedoria como conhecimento das causas, e o que os primeiros filósofos descobriram

Crítica de Aristóteles à teoria das Formas de Platão

Deixemos os pitagóricos de lado por enquanto, pois basta o quanto falamos deles. Passemos agora aos que apresentam as Ideias como causas. Em primeiro lugar, ao tentar entender as causas das coisas ao nosso redor, eles introduziram outras tantas coisas, em número igual ao das primeiras. É como se alguém quisesse contar objetos e, achando que não conseguiria fazê-lo enquanto fossem poucos, tentasse contá-los depois de aumentar a quantidade deles. As Formas são praticamente tão numerosas quanto as coisas (ou pelo menos não são menos), e foi a partir dessas coisas que esses pensadores avançaram em direção às Formas para tentar explicá-las.
Para cada coisa existe uma entidade que tem o mesmo nome e existe separada das substâncias. O mesmo vale para todos os outros grupos: sempre um único acima de muitos, quer esses muitos estejam neste mundo, quer sejam eternos.
Além disso, nenhum dos modos pelos quais provamos que as Formas existem é convincente. De alguns deles não se segue necessariamente nenhuma conclusão, e de outros resultam Formas até de coisas das quais achamos que não Formas.
Pelos argumentos que partem da existência das ciências, haverá Formas de todas as coisas das quais ciência. Pelo argumento do "um acima de muitos", haverá Formas até de negações. E pelo argumento de que um objeto para o pensamento mesmo quando a coisa pereceu, haverá Formas de coisas perecíveis, pois temos uma imagem delas.
Ainda mais: dentre os argumentos mais rigorosos, alguns levam a Ideias de relações, das quais dizemos que não formam uma classe independente, e outros introduzem o "terceiro homem".
E, de modo geral, os argumentos a favor das Formas destroem coisas cuja existência nos é mais cara do que a existência das próprias Ideias. Pois deles se segue que não a díade, mas o número, é o primeiro, ou seja, que o relativo é anterior ao absoluto. ainda todos os outros pontos em que certas pessoas, ao desenvolver as opiniões sustentadas sobre as Ideias, entraram em conflito com os princípios da própria teoria.
Além disso, segundo a suposição em que se apoia nossa crença nas Ideias, haverá Formas não de substâncias, mas também de muitas outras coisas. Afinal, o conceito é único não apenas no caso das substâncias, mas também nos demais casos, e ciências não da substância, mas também de outras coisas, e mil outras dificuldades do gênero os confrontam.
Mas, pela natureza do problema e pelas opiniões sustentadas sobre as Formas, se as Formas podem ser compartilhadas, então deve haver Ideias de substâncias. Pois elas não são compartilhadas por acidente: uma coisa deve compartilhar sua Forma como algo que não é atribuído a um sujeito. (Por "ser compartilhado por acidente" quero dizer o seguinte: se uma coisa compartilha do "duplo em si", ela compartilha também do "eterno", mas por acidente, pois ocorre que o "eterno" pode ser atribuído ao "duplo".)
Portanto, as Formas serão substância. Mas os mesmos termos indicam substância tanto neste mundo quanto no mundo das Ideias. (Caso contrário, qual seria o sentido de dizer que algo separado das coisas particulares, o um acima de muitos?)
E, se as Ideias e as coisas particulares que delas compartilham têm a mesma forma, haverá algo comum entre elas. Pois por que o "2" seria um e o mesmo nos pares perecíveis ou nos que são muitos mas eternos, e não seria o mesmo no "2" em si e no 2 particular? Mas, se não têm a mesma forma, então têm apenas o nome em comum, como se alguém chamasse de "homem" tanto Cálias quanto uma imagem de madeira, sem notar nenhuma comunidade entre eles.
Acima de tudo, poderíamos discutir esta questão: afinal, o que é que as Formas acrescentam às coisas sensíveis, sejam elas eternas, sejam as que vêm a ser e deixam de ser? Pois as Formas não causam nelas nem movimento nem qualquer mudança.
E mais: as Formas também não ajudam em nada no conhecimento das outras coisas (pois nem sequer são a substância delas, senão estariam dentro delas), nem ajudam no ser delas, se não estão nas coisas particulares que delas compartilham. É verdade que, se estivessem, poderiam ser consideradas causas, do mesmo modo que o branco causa a brancura num objeto branco por entrar em sua composição. Mas esse argumento, usado primeiro por Anaxágoras e depois por Eudoxo e alguns outros, é muito fácil de derrubar, pois não é difícil reunir muitas objeções insuperáveis contra tal visão.
Além disso, todas as outras coisas não podem vir das Formas em nenhum dos sentidos habituais da palavra "de". E dizer que as Formas são modelos e que as outras coisas as compartilham é usar palavras vazias e metáforas poéticas. Pois o que é que age tendo as Ideias como referência?
Qualquer coisa pode ser ou se tornar semelhante a outra sem ter sido copiada dela. Assim, quer Sócrates exista, quer não, poderia surgir um homem semelhante a Sócrates. E é evidente que isso poderia acontecer mesmo que Sócrates fosse eterno.
Além disso, haverá vários modelos da mesma coisa e, portanto, várias Formas. Por exemplo, "animal", "bípede" e também "o homem em si" serão Formas do homem. E mais: as Formas são modelos não das coisas sensíveis, mas das próprias Formas também. Ou seja, o gênero, enquanto gênero de várias espécies, será modelo delas. Portanto, a mesma coisa será modelo e cópia ao mesmo tempo.
Além disso, pareceria impossível que a substância e aquilo de que ela é a substância existissem separadas. Como, então, as Ideias, sendo as substâncias das coisas, poderiam existir separadas?
No Fédon, o caso é exposto deste modo: as Formas são causas tanto do ser quanto do vir a ser. Contudo, mesmo quando as Formas existem, as coisas que delas compartilham não vêm a ser, a menos que haja algo que origem ao movimento. E muitas outras coisas vêm a ser (uma casa ou um anel, por exemplo) das quais dizemos que não Formas. Fica claro, portanto, que mesmo as outras coisas podem ser e vir a ser graças a causas semelhantes às que produzem as coisas que acabamos de mencionar.
Além disso, se as Formas são números, como podem ser causas? Será porque as coisas existentes são outros números, sendo um número o homem, outro Sócrates, outro Cálias? Por que, então, um conjunto de números seria causa do outro conjunto? Não faria nenhuma diferença mesmo que os primeiros fossem eternos e os segundos não.
Mas, se é porque as coisas neste mundo sensível (a harmonia, por exemplo) são proporções de números, então é evidente que as coisas entre as quais existe a proporção formam alguma classe determinada de coisas. Se, então, isso (a matéria) é algo definido, é evidente que os próprios números também serão proporções de uma coisa para outra. Por exemplo, se Cálias é uma proporção numérica entre fogo, terra, água e ar, sua Ideia também será um número de certas outras coisas subjacentes. E o homem em si, seja ele em algum sentido um número ou não, será ainda assim uma proporção numérica de certas coisas, e não um número propriamente dito, nem será um número por ser uma proporção numérica.
Além disso, de muitos números se produz um número. Mas como pode uma Forma vir de muitas Formas? E, se o número não vem dos muitos números em si, mas das unidades dentro deles (como em 10.000), o que dizer dessas unidades? Se elas são especificamente iguais, seguem-se numerosos absurdos. E também se não são iguais (nem as unidades de um mesmo número sendo iguais entre si, nem as de números diferentes sendo todas iguais a todas), pois em que iriam diferir, que não têm qualidade alguma? Essa visão não é plausível, nem condiz com o que pensamos sobre o assunto.
Além disso, eles precisam estabelecer um segundo tipo de número (aquele de que trata a aritmética), e todos os objetos que alguns pensadores chamam de "intermediários". E como existem esses objetos, ou de quais princípios procedem? Ou por que devem ser intermediários entre as coisas deste mundo sensível e as coisas em si?
Além disso, cada uma das unidades deve vir de uma anterior, mas isso é impossível.
Além disso, por que um número, tomado em conjunto, é uma coisa?
E mais: além do que foi dito, se as unidades são diversas, os platônicos deveriam ter falado como aqueles que afirmam haver quatro ou dois elementos. Pois cada um desses pensadores o nome de elemento não ao que é comum (ao corpo, por exemplo), mas ao fogo e à terra, exista ou não algo comum a eles, a saber, o corpo. Mas, de fato, os platônicos falam como se o Uno fosse homogêneo, como o fogo ou a água. E, se assim é, os números não serão substâncias. É evidente que, se existe um Uno em si e este é um primeiro princípio, então "um" está sendo usado em mais de um sentido, pois do contrário a teoria é impossível.
Quando queremos reduzir as substâncias a seus princípios, dizemos que as linhas vêm do curto e do longo (isto é, de uma espécie de pequeno e grande), o plano vem do largo e do estreito, e o corpo vem do profundo e do raso. Mas, então, como pode o plano conter uma linha, ou o sólido conter uma linha ou um plano? Pois o largo e o estreito são uma classe diferente do profundo e do raso.
Portanto, assim como o número não está presente nessas coisas, porque o muitos e o poucos são diferentes delas, é evidente que nenhuma das classes superiores estará presente nas inferiores. Mas, por outro lado, o largo não é um gênero que inclui o profundo, pois então o sólido seria uma espécie de plano.
Além disso, de que princípio se derivará a presença dos pontos na linha? Platão chegava a rejeitar essa classe de coisas como uma ficção geométrica. Ele dava o nome de princípio da linha (algo que afirmava com frequência) às linhas indivisíveis. Contudo, estas precisam ter um limite. Portanto, o mesmo argumento do qual se conclui a existência da linha prova também a existência do ponto.
De modo geral, embora a filosofia busque a causa das coisas perceptíveis, nós abandonamos essa busca (pois nada dizemos sobre a causa de onde parte a mudança). E, enquanto imaginamos estar expondo a substância das coisas perceptíveis, afirmamos a existência de uma segunda classe de substâncias, ao passo que nossa explicação de como elas são as substâncias das coisas perceptíveis não passa de conversa vazia. Pois "compartilhar", como dissemos antes, não significa nada.
As Formas também não têm nenhuma ligação com aquilo que vemos ser a causa no caso das artes, aquela causa em vista da qual operam tanto toda a mente quanto a natureza inteira, essa causa que afirmamos ser um dos primeiros princípios. Mas, para os pensadores modernos, a matemática acabou se tornando idêntica à filosofia, embora eles digam que ela deveria ser estudada em vista de outras coisas.
Além disso, poderíamos supor que a substância que, segundo eles, está na base como matéria é matemática demais, e que é antes um predicado e uma diferença da substância (isto é, da matéria) do que a matéria em si. Por exemplo, o grande e o pequeno são como o raro e o denso de que falam os filósofos da natureza, que os chamam de diferenças primárias do substrato, pois são uma espécie de excesso e falta.
E, quanto ao movimento, se o grande e o pequeno são movimento, então é evidente que as Formas se moverão. Mas, se não são movimento, de onde veio o movimento? Todo o estudo da natureza fica assim aniquilado.
E aquilo que parece fácil, mostrar que todas as coisas são uma só, não é alcançado. Pois o que se prova pelo método de apresentar exemplos não é que todas as coisas são uma só, mas que existe um Uno em si, supondo que aceitemos todas as suposições. E nem mesmo isso se segue, se não admitirmos que o universal é um gênero, o que em alguns casos ele não pode ser.
Tampouco se pode explicar como existem, ou como poderiam existir, as linhas, os planos e os sólidos que vêm depois dos números, nem qual seu significado. Pois essas coisas não podem ser Formas (já que não são números), nem os intermediários (já que estes são os objetos da matemática), nem coisas perecíveis. Trata-se, evidentemente, de uma quarta classe distinta.
De modo geral, se buscarmos os elementos das coisas existentes sem distinguir os muitos sentidos em que se diz que as coisas existem, não conseguiremos encontrá-los, sobretudo se a busca dos elementos de que as coisas são feitas for conduzida dessa maneira. Pois é certamente impossível descobrir de que é feito o "agir", o "sofrer a ação" ou o "reto". Se elementos a serem descobertos, são apenas os elementos das substâncias. Portanto, buscar os elementos de todas as coisas existentes, ou achar que se os possui, é incorreto.
E como poderíamos aprender os elementos de todas as coisas? É evidente que não podemos começar conhecendo algo de antemão. Pois, assim como quem aprende geometria, embora possa saber outras coisas antes, não conhece nenhuma das coisas de que trata essa ciência e sobre as quais vai aprender, o mesmo vale para todos os outros casos. Portanto, se uma ciência de todas as coisas, como alguns afirmam existir, quem a aprende nada saberá de antemão.
Contudo, todo aprendizado se por meio de premissas que são conhecidas antes (todas ou algumas delas), seja o aprendizado por demonstração, seja por definições. Pois os elementos da definição precisam ser conhecidos antes e ser familiares. E o aprendizado por indução procede de modo semelhante. Mas, por outro lado, se a ciência fosse de fato inata, seria estranho que não percebêssemos possuir a maior das ciências.
Além disso, como alguém chegaria a saber de que são feitas todas as coisas, e como isso ficaria evidente? Isso também apresenta uma dificuldade, pois poderia haver conflito de opinião, como a respeito de certas sílabas. Alguns dizem que "za" é feito de s, d e a, enquanto outros dizem que é um som distinto e nenhum dos que são familiares.
Além disso, como poderíamos conhecer os objetos dos sentidos sem possuir o sentido em questão? E, no entanto, deveríamos poder, se os elementos de que todas as coisas consistem fossem os mesmos, assim como os sons complexos consistem dos elementos próprios do som.