Metafísica - Livro I 2

Livro I (Alpha): a sabedoria como conhecimento das causas, e o que os primeiros filósofos descobriram

O que é a sabedoria e como reconhecer o sábio

Como estamos em busca desse conhecimento, precisamos investigar de que tipo são as causas e os princípios cujo conhecimento é a sabedoria. Para deixar a resposta mais clara, talvez ajude examinar as ideias que temos a respeito do homem sábio. Primeiro, supomos que o sábio conhece todas as coisas, na medida do possível, mesmo sem ter conhecimento detalhado de cada uma delas. Segundo, supomos que é sábio aquele capaz de aprender coisas difíceis, que não são fáceis de o ser humano conhecer (já que perceber pelos sentidos é comum a todos e, por isso, é fácil e não marca a sabedoria). Além disso, em todo ramo do conhecimento consideramos mais sábio quem é mais preciso e mais capaz de ensinar as causas.
E entre as ciências, aquela que buscamos por si mesma, pelo desejo de conhecer, tem mais da natureza da sabedoria do que aquela buscada pelos seus resultados. A ciência superior também tem mais da natureza da sabedoria do que a ciência que apenas serve a outra: pois o sábio não deve receber ordens, mas dar ordens, e não deve obedecer a outro, mas ser obedecido por quem é menos sábio.
Essas são, então, as ideias que temos sobre a sabedoria e sobre os sábios, e são esse tanto.
Dentre essas características, conhecer todas as coisas pertence a quem tem, no mais alto grau, o conhecimento universal, pois esse homem conhece, de certo modo, todos os casos que caem sob o universal. E essas coisas, as mais universais, são em geral as mais difíceis de o ser humano conhecer, porque estão o mais distante possível dos sentidos.
As ciências mais precisas são aquelas que mais lidam com os princípios primeiros, pois as que envolvem menos princípios são mais precisas do que as que envolvem princípios adicionais. A aritmética, por exemplo, é mais precisa que a geometria.
A ciência que investiga as causas também é mais capaz de instruir, pois quem nos instrui é justamente quem nos diz as causas de cada coisa. E o entender e o conhecer buscados por si mesmos se encontram acima de tudo no conhecimento daquilo que é mais conhecível: quem escolhe conhecer pelo simples conhecer escolherá, de preferência, o que é mais verdadeiramente conhecimento, e tal é o conhecimento do que é mais conhecível. Ora, os princípios primeiros e as causas são o mais conhecível, pois é por meio deles, e a partir deles, que todas as outras coisas passam a ser conhecidas, e não eles por meio das coisas que lhes são subordinadas.
A ciência que sabe com que finalidade cada coisa deve ser feita é a mais autoritativa das ciências, mais do que qualquer ciência que apenas serve a outra. E essa finalidade é o bem de cada coisa e, de modo geral, o bem supremo em toda a natureza. Julgada por todos os critérios que mencionamos, então, a sabedoria recai sobre essa mesma ciência: ela deve ser uma ciência que investiga os princípios primeiros e as causas, pois o bem, ou seja, a finalidade, é uma das causas.
Que ela não é uma ciência voltada à produção fica claro até pela história dos primeiros filósofos. Foi por causa do espanto que os seres humanos começaram a filosofar, tanto agora quanto no início. Espantaram-se primeiro com as dificuldades mais óbvias e, pouco a pouco, avançaram e levantaram dúvidas sobre questões maiores, como os fenômenos da lua, do sol e das estrelas, e a origem do universo.
Quem fica intrigado e se espanta reconhece-se ignorante (por isso até quem ama os mitos é, de certo modo, um amante da sabedoria, pois o mito é feito de coisas que causam espanto). Portanto, se filosofaram para escapar da ignorância, é claro que buscavam o conhecimento para conhecer, e não com qualquer fim prático. Os próprios fatos confirmam isso: foi quando quase todas as necessidades da vida e as coisas que trazem conforto e lazer estavam garantidas que tal conhecimento começou a ser buscado.
É claro, então, que não a buscamos por nenhuma outra vantagem. Assim como dizemos que é livre o homem que existe para si mesmo e não para outro, também buscamos essa ciência como a única ciência livre, pois ela existe para si mesma.
Por isso, também se poderia, com justiça, considerar que possuí-la está além da capacidade humana, pois de muitas formas a natureza humana vive presa. Como diz Simônides, Deus pode ter esse privilégio, e não convém que o ser humano deixe de se contentar em buscar o conhecimento que lhe é adequado. Se algo de verdade no que dizem os poetas, e o poder divino é naturalmente ciumento, esse ciúme apareceria provavelmente sobretudo neste caso, e todos os que se destacassem nesse conhecimento seriam infelizes.
Mas o poder divino não pode ser ciumento (aliás, como diz o provérbio, os poetas mentem muito), nem se deve considerar nenhuma outra ciência mais honrosa do que esta. A ciência mais divina é também a mais honrosa, e esta ciência é a mais divina de duas maneiras. A ciência que mais conviria a Deus possuir é uma ciência divina, e o mesmo vale para qualquer ciência que trate de objetos divinos; e esta ciência tem as duas qualidades. Pois, primeiro, Deus é tido como uma das causas de todas as coisas e como um princípio primeiro; e, segundo, tal ciência ou Deus pode tê-la, ou Deus a tem acima de todos os outros. Todas as outras ciências, é verdade, são mais necessárias do que esta, mas nenhuma é melhor.
Ainda assim, alcançá-la deve, de certo modo, terminar em algo oposto ao ponto de partida das nossas investigações. Todos começam, como dissemos, espantados de que as coisas sejam como são, do mesmo jeito que diante de marionetes que se movem sozinhas, ou diante dos solstícios, ou da impossibilidade de medir a diagonal de um quadrado com o lado. Parece espantoso a todos que ainda não viram a razão disso que exista algo que não pode ser medido nem pela menor unidade.
Mas devemos terminar no estado contrário e, segundo o provérbio, melhor, como acontece também nesses casos quando as pessoas aprendem a causa. Pois nada espantaria tanto um geômetra quanto descobrir que a diagonal afinal pode ser medida pelo lado.
Dissemos, então, qual é a natureza da ciência que procuramos e qual é a meta que nossa busca e toda a nossa investigação devem alcançar.