Metafísica - Livro I 6
Livro I (Alpha): a sabedoria como conhecimento das causas, e o que os primeiros filósofos descobriram
Platão: as Ideias, a herança de Sócrates e dos pitagóricos, o Uno e a díade
Depois dos sistemas que mencionamos, veio a filosofia de Platão, que na maior parte dos pontos seguiu esses pensadores, mas tinha traços próprios que a distinguiam da filosofia dos italianos.
Na juventude, Platão familiarizou-se primeiro com Crátilo e com as doutrinas de Heráclito, segundo as quais todas as coisas sensíveis estão sempre em fluxo contínuo e não há conhecimento a respeito delas. Essas ideias ele manteve mesmo na vida adulta.
Sócrates, por sua vez, ocupava-se das questões morais e deixava de lado a natureza como um todo. Ele buscava o universal nessas questões morais e foi o primeiro a fixar o pensamento nas definições.
Platão acolheu esse ensinamento, mas sustentou que o problema não se aplicava às coisas sensíveis, e sim a entidades de outra ordem. A razão era esta: a definição comum não podia ser definição de nenhuma coisa sensível, pois as coisas sensíveis estão sempre mudando.
A essas coisas de outra ordem, então, ele chamou de Ideias. As coisas sensíveis, dizia ele, recebem todas o nome a partir das Ideias e existem em virtude de uma relação com elas. De fato, as muitas coisas existem por participação nas Ideias que têm o mesmo nome que elas.
Apenas o nome "participação" era novo. Os pitagóricos diziam que as coisas existem por "imitação" dos números, e Platão diz que existem por participação, mudando apenas o nome. Mas o que seria essa participação ou imitação das Formas, eles deixaram como questão em aberto.
Além disso, ao lado das coisas sensíveis e das Formas, Platão afirma que existem os objetos da matemática, que ocupam uma posição intermediária. Eles se distinguem das coisas sensíveis por serem eternos e imutáveis, e se distinguem das Formas porque há muitos do mesmo tipo, enquanto cada Forma em si é única.
Como as Formas eram as causas de todas as demais coisas, Platão julgou que os elementos das Formas eram os elementos de todas as coisas. Como matéria, o grande e o pequeno eram princípios. Como realidade essencial, o princípio era o Uno, pois do grande e do pequeno, por participação no Uno, surgem os Números.
Mas Platão concordava com os pitagóricos ao dizer que o Uno é substância e não predicado de outra coisa. Concordava também ao dizer que os Números são as causas da realidade das demais coisas.
O que é próprio dele, no entanto, é supor uma díade e construir o infinito a partir do grande e do pequeno, em vez de tratar o infinito como algo uno. Próprio dele também é a tese de que os Números existem separados das coisas sensíveis, ao passo que os pitagóricos dizem que as próprias coisas são Números e não colocam os objetos da matemática entre as Formas e as coisas sensíveis.
Platão se afastou dos pitagóricos ao tornar o Uno e os Números separados das coisas, e ao introduzir as Formas. Isso se deveu às suas investigações no campo das definições, pois os pensadores anteriores não tinham qualquer traço de dialética. E o fato de ele fazer da segunda entidade, ao lado do Uno, uma díade, deveu-se à crença de que os números, exceto os primos, podiam ser produzidos de forma simples a partir da díade, como a partir de um material moldável.
No entanto, ocorre o contrário: a teoria não é razoável. Pois eles fazem muitas coisas a partir da matéria, mas a forma gera apenas uma vez. O que observamos é que uma mesa se faz de uma porção de matéria, enquanto o homem que aplica a forma, embora seja um só, faz muitas mesas.
A relação entre o macho e a fêmea é semelhante: a fêmea é fecundada por uma única união, mas o macho fecunda muitas fêmeas. E esses casos são análogos àqueles primeiros princípios.
Platão, então, declarou-se assim sobre os pontos em questão. Pelo que foi dito, fica evidente que ele usou apenas duas causas: a da essência e a causa material. As Formas são as causas da essência de todas as demais coisas, e o Uno é a causa da essência das Formas.
Fica evidente também qual é a matéria subjacente da qual se predicam as Formas, no caso das coisas sensíveis, e o Uno, no caso das Formas: essa matéria é uma díade, o grande e o pequeno.
Além disso, Platão atribuiu a causa do bem e a causa do mal aos elementos, uma a cada um dos dois, como dizemos que alguns de seus predecessores procuraram fazer, por exemplo Empédocles e Anaxágoras.