Metafísica - Livro I 7

Livro I (Alpha): a sabedoria como conhecimento das causas, e o que os primeiros filósofos descobriram

Os predecessores e as quatro causas: nenhum foi além

Nossa revisão dos que falaram sobre os primeiros princípios e sobre a realidade, e do modo como falaram, foi breve e resumida. Mesmo assim, aprendemos algo importante com eles: entre os que tratam de princípio e de causa, ninguém mencionou nenhum princípio além dos que distinguimos em nosso estudo sobre a natureza. Todos, na verdade, parecem ter alguma noção dessas causas, embora apenas de forma vaga.
Alguns falam do primeiro princípio como matéria, quer suponham um único princípio quer vários, e quer o tomem por corpo quer por algo incorpóreo. Platão, por exemplo, falou do grande e do pequeno; os italianos, do infinito; Empédocles, do fogo, da terra, da água e do ar; Anaxágoras, da infinidade de coisas compostas de partes semelhantes.
Todos esses, portanto, tiveram uma noção desse tipo de causa, assim como todos os que falam do ar, do fogo, da água, ou de algo mais denso que o fogo e mais sutil que o ar. Alguns disseram que o elemento primordial é desse tipo.
Esses pensadores apreenderam apenas essa causa (a material). Mas certos outros mencionaram a origem do movimento, como aqueles que tomam como princípio a amizade e a discórdia, ou a razão, ou o amor.
Quanto à essência, isto é, a realidade substancial, ninguém a expressou com clareza. Ela é insinuada principalmente pelos que acreditam nas Formas. Pois eles não supõem que as Formas sejam a matéria das coisas sensíveis, nem que o Uno seja a matéria das Formas, nem que elas sejam a origem do movimento (eles dizem, aliás, que as Formas são antes causas de imobilidade e de repouso). O que eles fazem é apresentar as Formas como a essência de cada uma das outras coisas, e o Uno como a essência das Formas.
Aquilo em vista do qual ocorrem as ações, as mudanças e os movimentos, eles afirmam ser uma causa de certo modo, mas não desse modo, ou seja, não no sentido em que, por sua natureza, ela é causa (a causa final). Pois os que falam da razão ou da amizade classificam essas causas como bens, mas não dizem que algo exista ou venha a existir em vista delas; dizem apenas que os movimentos partem delas.
Da mesma forma, os que dizem que o Uno ou o existente é o Bem afirmam que ele é a causa da substância, mas não que a substância exista ou venha a ser em vista dele. Acontece, então, que num sentido eles dizem, e noutro não dizem, que o Bem é uma causa. Pois não o chamam de causa enquanto é bom, mas apenas de modo acidental.
Todos esses pensadores, então, por não conseguirem apontar nenhuma outra causa, parecem confirmar que determinamos corretamente quantas são as causas e de que tipo elas são. Além disso, fica claro que, quando se busca as causas, ou devem ser buscadas todas as quatro desse modo, ou devem ser buscadas segundo um desses quatro modos.
A seguir, vamos discutir as dificuldades que surgem quanto ao modo como cada um desses pensadores falou e quanto à sua posição diante dos primeiros princípios.