Metafísica - Livro I 8

Livro I (Alpha): a sabedoria como conhecimento das causas, e o que os primeiros filósofos descobriram

Crítica aos monistas, a Empédocles, a Anaxágoras e aos pitagóricos

Quem afirma que o universo é uno e coloca um único tipo de coisa como matéria, isto é, matéria corpórea dotada de extensão no espaço, claramente se engana de várias maneiras. Esses pensadores propõem apenas os elementos dos corpos, e não os das coisas incorpóreas, embora também existam coisas incorpóreas.
Além disso, ao tentar explicar as causas da geração e da destruição, e ao dar uma descrição física de todas as coisas, eles eliminam a causa do movimento.
Erram também por não colocarem a substância, ou seja, a essência, como causa de coisa alguma. E erram ainda por chamarem levianamente de princípio primeiro qualquer um dos corpos simples (com exceção da terra), sem investigar como esses corpos se produzem uns a partir dos outros. Refiro-me ao fogo, à água, à terra e ao ar.
Algumas coisas se produzem umas das outras por combinação, outras por separação, e isso faz toda a diferença para saber qual vem antes e qual vem depois.
De um lado, a propriedade de ser o mais elementar de todos pareceria pertencer àquilo a partir do qual as demais coisas se produzem por combinação, e essa propriedade caberia ao mais fino e sutil dos corpos. Por isso, quem faz do fogo o princípio estaria mais de acordo com esse raciocínio.
Mas cada um dos outros pensadores concorda que o elemento das coisas corpóreas é desse tipo. Pelo menos nenhum dos que nomearam um único elemento afirmou que a terra fosse o elemento, evidentemente por causa da grossura de sua textura.
Dos outros três elementos, cada um encontrou alguém que o defendesse: alguns sustentam que o elemento é o fogo, outros que é a água, outros que é o ar. Mas por que, afinal, eles não nomeiam também a terra, como faz a maioria das pessoas? Pois as pessoas dizem que todas as coisas são terra. Hesíodo afirma que a terra foi a primeira das coisas corpóreas a ser produzida: tão antiga e popular tem sido essa opinião.
Segundo esse raciocínio, então, estaria errado quem dissesse que o princípio primeiro é qualquer um dos elementos diferentes do fogo, ou quem o supusesse mais denso que o ar mas mais rarefeito que a água.
Por outro lado, se aquilo que vem depois na geração é anterior por natureza, e se aquilo que é cozido e composto vem depois na geração, então o contrário do que dissemos deve ser verdadeiro: a água deve ser anterior ao ar, e a terra anterior à água.
É o bastante, então, sobre os que colocam uma única causa do tipo que mencionamos. Mas o mesmo vale se alguém supuser mais de uma dessas causas, como faz Empédocles, que diz que a matéria das coisas são quatro corpos. Pois ele também enfrenta consequências, algumas das quais são as mesmas mencionadas, enquanto outras são próprias dele.
Vemos esses corpos se produzirem uns dos outros, o que implica que o mesmo corpo nem sempre permanece fogo ou terra (falamos disso em nossos escritos sobre a natureza). E quanto à causa do movimento, e à questão de se devemos supor uma ou duas, deve-se considerar que ele não falou nem corretamente nem de modo totalmente plausível.
De modo geral, a mudança de qualidade fica necessariamente eliminada para quem fala assim, pois, segundo essa visão, o frio não virá do quente nem o quente do frio. Pois, se viesse, haveria algo que recebesse os próprios contrários, e existiria uma única entidade que se tornasse fogo e água, o que Empédocles nega.
Quanto a Anaxágoras, se alguém supusesse que ele afirmava existirem dois elementos, essa suposição se encaixaria perfeitamente num raciocínio que o próprio Anaxágoras não enunciou de forma articulada, mas que ele teria aceitado se alguém o conduzisse até ele.
É verdade que dizer que no início todas as coisas estavam misturadas é absurdo, por vários motivos: porque daí se segue que elas deviam ter existido antes em forma não misturada; porque a natureza não permite que qualquer coisa se misture com qualquer outra; e também porque, segundo essa visão, modificações e acidentes poderiam ser separados das substâncias (já que as mesmas coisas que se misturam podem ser separadas).
Ainda assim, se alguém o acompanhasse, reunindo o que ele quer dizer, talvez se visse que suas ideias são um tanto modernas. Pois, quando nada havia sido separado, claramente nada se poderia afirmar com verdade da substância que então existia.
Quero dizer, por exemplo, que ela não era nem branca nem preta, nem cinza nem de qualquer outra cor, mas necessariamente sem cor. Pois, se tivesse cor, teria uma dessas cores. Do mesmo modo, por esse mesmo raciocínio, ela era sem sabor, e não tinha nenhum atributo semelhante. Pois não podia ter nenhuma qualidade, nem nenhum tamanho, nem ser qualquer tipo definido de coisa.
Pois, se fosse, uma das formas particulares lhe pertenceria, e isso é impossível, que todas as coisas estavam misturadas. A forma particular teria necessariamente sido separada, mas, segundo ele, tudo estava misturado, exceto a razão (nous), e essa estava sem mistura e pura.
Disso se segue, então, que ele deve dizer que os princípios são o Uno (pois este é simples e sem mistura) e o Outro, que tem a natureza que atribuímos ao indefinido antes de ser definido e de participar de alguma forma. Portanto, embora se expresse de modo nem correto nem claro, ele quer dizer algo parecido com o que dizem os pensadores posteriores, e com o que hoje se mais claramente ser o caso.
Mas esses pensadores, afinal, estão à vontade em discussões sobre geração, destruição e movimento. Pois é praticamente desse tipo de substância que eles buscam os princípios e as causas.
aqueles que estendem o olhar para todas as coisas que existem, e que, dentre as coisas existentes, supõem que algumas são perceptíveis e outras não, claramente estudam as duas classes. Razão a mais para dedicarmos algum tempo a examinar o que de bom e de ruim em suas ideias, do ponto de vista da investigação que temos agora diante de nós.
Os pitagóricos tratam de princípios e elementos mais estranhos que os dos filósofos da natureza. A razão é que eles tiraram os princípios de coisas não sensíveis, pois os objetos da matemática (com exceção dos da astronomia) pertencem à classe das coisas sem movimento.
Ainda assim, suas discussões e investigações giram todas em torno da natureza. Pois eles geram o céu e, quanto às partes, atributos e funções dele, observam os fenômenos e gastam os princípios e as causas explicando-os. Isso implica que concordam com os outros, os filósofos da natureza, em que o real é exatamente tudo aquilo que é perceptível e contido pelo chamado céu.
Mas as causas e os princípios que eles mencionam são, como dissemos, suficientes para servir de degraus até os domínios mais altos da realidade, e se adéquam mais a esses domínios do que a teorias sobre a natureza.
Eles não nos dizem, de modo algum, como pode haver movimento se a única coisa pressuposta é o limite e o ilimitado, o ímpar e o par, nem como, sem movimento e mudança, pode haver geração e destruição, ou como os corpos que se movem pelo céu podem fazer o que fazem.
Além disso, mesmo que se concedesse a eles que a extensão no espaço é feita desses elementos, ou que isso fosse provado, ainda assim, como é que alguns corpos seriam leves e outros teriam peso? A julgar pelo que supõem e sustentam, eles não falam mais dos corpos matemáticos do que dos perceptíveis. Por isso, nada disseram sobre o fogo, a terra ou os outros corpos desse tipo, suponho que por não terem nada a dizer que se aplique de modo próprio às coisas perceptíveis.
Além disso, como havemos de conciliar duas crenças: a de que os atributos do número, e o próprio número, são causas do que existe e do que acontece no céu, tanto no início quanto agora, e a de que não outro número além desse número de que o mundo é composto?
Quando, numa certa região, eles colocam a opinião e a oportunidade, e, um pouco acima ou abaixo, a injustiça e a decisão ou a mistura, e alegam como prova que cada uma dessas coisas é um número, e que justamente nesse lugar uma pluralidade dos corpos extensos compostos de números, porque esses atributos do número se prendem aos vários lugares, sendo assim, esse número, que devemos supor que cada uma dessas abstrações seja, é o mesmo número exibido no universo material, ou é outro diferente dele?
Platão diz que é diferente. Mesmo assim, ele também pensa que tanto esses corpos quanto suas causas são números, mas que os números inteligíveis são causas, enquanto os outros são sensíveis.