O que são os Evangelhos da Infância de Jesus

O silêncio dos evangelhos sobre a infância

Os quatro evangelhos canônicos quase nada dizem sobre a infância de Jesus. Marcos e João começam com Jesus adulto. Mateus narra o nascimento, a visita dos magos e a fuga para o Egito, e Lucas acrescenta a anunciação, o nascimento em Belém e um único episódio do menino aos doze anos no templo. Fora isso, há silêncio: nada sobre os pais de Maria, sobre a infância dela, sobre os anos de Jesus em Nazaré.

Esse silêncio incomodava a devoção das primeiras gerações cristãs, que queriam saber mais. A partir do século II, começaram a circular obras que preenchiam as lacunas, contando o nascimento de Maria, os prodígios do menino Jesus e os episódios da fuga ao Egito. São os chamados evangelhos apócrifos da infância. Apócrifo quer dizer que ficaram fora do cânon, da lista de livros reconhecidos pela Igreja como Escritura.

Quais são as obras

Esta é a coleção dos principais relatos da infância, todos disponíveis para leitura aqui. O mais antigo e influente é o Protoevangelho de Tiago, do século II, que conta o nascimento e a infância de Maria.

1 Nos registros das doze tribos de Israel havia Joaquim, um homem extremamente rico; e ele trazia suas ofertas em dobro, dizendo: Do meu excedente haverá para todo o povo, e haverá a oferta pelo meu perdão ao Senhor, como propiciação por mim.

2 Pois o grande dia do Senhor estava próximo, e os filhos de Israel traziam suas ofertas. E pôs-se diante dele Rubim, dizendo: Não é certo que tu sejas o primeiro a trazer tuas ofertas, porque não geraste descendência em Israel.

3 E Joaquim ficou extremamente aflito, e foi até os registros das doze tribos do povo, dizendo: Verei os registros das doze tribos de Israel, para saber se eu não gerei descendência em Israel. E ele buscou, e descobriu que todos os justos haviam levantado descendência em Israel.

4 E lembrou-se do patriarca Abraão, a quem, no último dia, Deus deu um filho, Isaque. E Joaquim ficou extremamente aflito, e não foi à presença de sua esposa; mas retirou-se para o deserto, e ali armou sua tenda, e jejuou quarenta dias e quarenta noites, dizendo consigo mesmo: Não descerei nem para comer nem para beber até que o Senhor meu Deus olhe para mim, e a oração será meu alimento e minha bebida.

A Infância de Tomé, também do século II, é dedicada aos milagres do menino Jesus entre os cinco e os doze anos. Não confundir com o Evangelho de Tomé gnóstico, que é uma coleção de ditos.

1 Este menino Jesus, quando tinha cinco anos, brincava no vau de um riacho da montanha; e juntava as águas correntes em poças, deixando-as logo límpidas, e com uma palavra fazia com que lhe obedecessem.

2 Tendo feito um pouco de barro mole, modelou com ele doze pardais. E era sábado quando fez essas coisas. Havia também muitas outras crianças brincando com ele.

3 Um certo judeu, vendo o que Jesus fazia, brincando no sábado, foi imediatamente e disse a José, seu pai: Olha, teu filho está junto ao riacho, pegou barro e fez dele doze pássaros, e profanou o sábado.

4 E José, chegando ao lugar e vendo, gritou-lhe, dizendo: Por que fazes no sábado o que não é lícito fazer? E Jesus bateu as mãos e gritou aos pardais, dizendo-lhes: Vão embora!

5 E os pardais voaram e se foram piando. E os judeus, vendo isso, ficaram maravilhados, e se retiraram e relataram aos seus principais o que tinham visto Jesus fazer.

O Pseudo-Mateus é uma compilação latina que reúne os dois anteriores e acrescenta cenas próprias, e o Evangelho Árabe da Infância expande o ciclo da fuga ao Egito. A Natividade de Maria é uma reescrita sóbria sobre Maria, e a História de José, o Carpinteiro, narra a morte de José. A mais longa de todas é o Evangelho Armênio da Infância, que reúne dezenas de episódios a partir de um original siríaco perdido.

1 E aconteceu, pouco tempo depois, que se fez um recenseamento conforme o edito de César Augusto, segundo o qual todo o mundo devia ser recenseado, cada homem em sua terra natal. Esse recenseamento foi feito por Cirino, governador da Síria.

2 Era necessário, portanto, que José se recenseasse com a bem-aventurada Maria em Belém, porque a ela pertenciam, sendo da tribo de Judá e da casa e família de Davi.

3 Quando, então, José e a bem-aventurada Maria iam pelo caminho que leva a Belém, Maria disse a José: Vejo diante de mim dois povos, um que chora e outro que se alegra. E José respondeu: Fica quieta sobre o teu animal e não fales palavras supérfluas.

4 Então apareceu diante deles um belo menino, vestido de roupas brancas, que disse a José: Por que disseste que eram supérfluas as palavras que Maria falou acerca dos dois povos? Pois ela viu o povo dos judeus chorando, porque se afastaram do seu Deus, e o povo dos gentios se alegrando, porque agora foram acrescentados e aproximados do Senhor, segundo aquilo que ele prometeu aos nossos pais Abraão, Isaque e Jacó. Pois está próximo o tempo em que, na semente de Abraão, todas as nações serão abençoadas.

5 E quando ele assim falou, o anjo ordenou que o animal parasse, pois estava próximo o tempo em que ela daria à luz. E ordenou à bem-aventurada Maria que descesse do animal e entrasse num recanto sob uma caverna, em que nunca havia luz, mas sempre trevas, porque a luz do dia não podia alcançá-lo.

6 E quando a bem-aventurada Maria entrou nele, começou a brilhar com tanto resplendor como se fosse a hora sexta do dia. A luz vinda de Deus de tal modo brilhava na caverna que nem de dia nem de noite faltava luz, enquanto a bem-aventurada Maria ali esteve.

7 E ali ela deu à luz um filho, e os anjos o rodearam quando ele nascia. E logo que nasceu, ele se pôs de pé, e os anjos o adoraram, dizendo: Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens de boa vontade.

8 Ora, quando estava próximo o nascimento do Senhor, José tinha ido buscar parteiras. E quando as encontrou, voltou à caverna e achou com Maria a criança que ela dera à luz.

9 E José disse à bem-aventurada Maria: Trouxe-te duas parteiras, Zelomi e Salomé, e elas estão do lado de fora, diante da entrada da caverna, sem ousar entrar aqui, por causa do resplendor excessivo. E quando a bem-aventurada Maria ouviu isso, sorriu.

10 E José lhe disse: Não sorrias, mas prudentemente permite que elas te visitem, caso precises delas para o teu cuidado. Então ela ordenou que entrassem.

11 E quando Zelomi entrou, tendo Salomé ficado de fora, Zelomi disse a Maria: Permite-me tocar-te. E quando ela lhe permitiu fazer um exame, a parteira clamou em alta voz, e disse: Senhor, Senhor Todo-Poderoso, tem misericórdia de nós!

12 Nunca se ouviu nem se pensou que alguém tivesse os seios cheios de leite e que o nascimento de um filho mostrasse que a mãe era virgem. Mas não houve derramamento de sangue no nascimento dele, nem dor ao dá-lo à luz. Uma virgem concebeu, uma virgem deu à luz, e virgem ela permanece.

13 E ouvindo essas palavras, Salomé disse: Permite-me examinar-te e comprovar se Zelomi falou a verdade. E a bem-aventurada Maria permitiu que ela a examinasse.

14 E quando ela retirou a mão de examiná-la, esta se ressecou; e, por causa da dor excessiva, ela começou a chorar amargamente e a ficar em grande aflição, clamando e dizendo: Ó Senhor Deus, tu sabes que sempre te temi e que, sem recompensa, cuidei de todos os pobres. Nada tomei da viúva e do órfão, e ao necessitado não despedi de mãos vazias.

15 E eis que me tornei miserável por causa da minha incredulidade, pois sem motivo quis pôr à prova a tua virgem. E enquanto ela assim falava, pôs-se junto a ela um jovem em vestes resplandecentes, dizendo: Vai até a criança, adora-a e toca-a com a tua mão, e ela te curará, porque é o Salvador do mundo e de todos os que nele esperam.

16 E ela foi apressadamente até a criança, adorou-a e tocou a orla dos panos em que estava envolta, e instantaneamente a sua mão foi curada. E saindo, ela começou a clamar em alta voz e a contar as coisas maravilhosas que vira, e o que sofrera, e como fora curada, de modo que muitos, por causa de suas declarações, creram.

17 E alguns pastores também afirmaram ter visto anjos cantando um hino à meia-noite, louvando e bendizendo o Deus do céu, e dizendo: Nasceu o Salvador de todos, que é Cristo, o Senhor, em quem a salvação será trazida de volta a Israel.

18 Além disso, uma grande estrela, maior do que qualquer outra que se tivesse visto desde o princípio do mundo, brilhou sobre a caverna desde a tarde até a manhã. E os profetas que estavam em Jerusalém disseram que essa estrela apontava o nascimento de Cristo, que haveria de restaurar a promessa não a Israel, mas a todas as nações.

1 Encontramos o que se segue no livro de José, o sumo sacerdote, que viveu no tempo de Cristo. Alguns dizem que ele é Caifás.

2 Ele afirmou que Jesus falou e que, de fato, quando estava deitado em seu berço, disse a Maria, sua mãe: Eu sou Jesus, o Filho de Deus, o Logos, a quem tu deste à luz, como o anjo Gabriel te anunciou; e meu Pai me enviou para a salvação do mundo.

1 A bem-aventurada e gloriosa sempre virgem Maria, descendente da linhagem real e da família de Davi, nascida na cidade de Nazaré, foi criada em Jerusalém, no templo do Senhor.

2 Seu pai chamava-se Joaquim, e sua mãe, Ana. A casa de seu pai era da Galileia e da cidade de Nazaré, mas a família de sua mãe era de Belém.

3 A vida deles era sincera e reta diante do Senhor, e irrepreensível e piedosa diante dos homens. Pois dividiam todos os seus bens em três partes.

4 Uma parte gastavam com o templo e com os servos do templo; outra distribuíam aos estrangeiros e aos pobres; a terceira reservavam para si mesmos e para as necessidades de sua família.

5 Assim, queridos por Deus e bondosos para com os homens, viveram por cerca de vinte anos em sua própria casa, levando uma vida conjugal casta, sem ter nenhum filho.

6 No entanto, fizeram o voto de que, caso o Senhor viesse a lhes dar descendência, a entregariam ao serviço do Senhor; e por isso costumavam visitar o templo do Senhor em cada uma das festas durante o ano.

1 Aconteceu, depois dessas coisas, que a morte daquele velho, o piedoso José, e sua partida deste mundo se aproximavam, como acontece com os outros homens que devem sua origem a esta terra.

2 E, como seu corpo estava à beira da dissolução, um anjo do Senhor o avisou de que sua morte estava próxima. Por isso, o medo e grande perplexidade se apoderaram dele.

3 Então ele se levantou e foi a Jerusalém; e, entrando no templo do Senhor, derramou ali suas orações diante do santuário, e disse:

1 José e Maria tinham ficado com o menino na caverna, escondidos e sem se mostrar, para que ninguém soubesse de nada. Mas, depois de três dias, isto é, no dia 23 de tebet, ou 9 de janeiro, eis que os magos do Oriente, que tinham partido de seu país e seguido com um exército numeroso, chegaram à cidade de Jerusalém depois de nove meses. Esses três reis dos magos eram também três irmãos. O primeiro era Melcon, rei dos persas. O segundo era Gaspar, rei dos hindus; o terceiro era Baltasar, rei dos árabes. Os chefes de seu exército, investidos do comando geral, eram doze. As tropas de cavalaria que os acompanhavam somavam doze mil homens, quatro mil de cada reino. Todos tinham vindo, por ordem de Deus, da terra dos magos, das regiões do Oriente, sua pátria. Pois, quando o anjo do Senhor anunciou à Virgem Maria a notícia que a tornava mãe, como relatamos, no mesmo instante ele foi, pelo Espírito Santo, avisá-los de que fossem adorar o menino recém-nascido. Eles, então, tomada a decisão, reuniram-se num mesmo lugar; e a estrela que os precedia os conduziu, com suas tropas, à cidade de Jerusalém, depois de nove meses de viagem.

2 Eles acamparam ao redor da cidade e ali permaneceram três dias, eles e os príncipes de seus respectivos reinos. Embora fossem todos irmãos, filhos de um mesmo rei, exércitos de línguas muito diversas marchavam atrás deles. Melcon, o primeiro rei, é aquele que tinha trazido mirra, aloés, musselina, púrpura e fitas de linho, e também os livros escritos e selados pelo dedo de Deus. O segundo, o rei dos hindus, Gaspar, é aquele que tinha trazido como presentes, em honra do menino, nardo precioso, mirra, canela, cinamomo, incenso e outros perfumes. O terceiro, o rei dos árabes, Baltasar, é aquele que trazia consigo ouro, prata, pedras preciosas, safiras de grande valor e pérolas finas.

3 E quando todos chegaram à cidade de Jerusalém, o astro que os precedia escondeu por um momento a sua luz. Eles então pararam e fizeram alto. As numerosas tropas de cavaleiros e os reis disseram uns aos outros: "Que fazer agora e em que direção marchar? Não sabemos, pois a estrela nos precedeu até hoje, e agora eis que ela desapareceu e nos deixou em aflição." Os magos disseram uns aos outros: "Vamos nos informar a respeito do menino, e procuremos com exatidão onde ele está; depois prosseguiremos nosso caminho." Todos disseram unanimemente: "Sim, vocês têm razão."

4 Quando o rei Herodes viu a numerosa cavalaria que acampava ameaçadora ao redor da cidade, sentiu grande medo; e, pondo-se a refletir, disse consigo: "Quem são essas pessoas que acampam ali com um exército numeroso e que dispõem de uma força enorme, de tesouros, de vastas riquezas e de objetos de luxo? Nenhum deles veio se apresentar a nós, e seus chefes são tão grandes e vitoriosos que não nos fizeram nenhuma demonstração de boa vontade." Então o rei ordenou que chamassem os príncipes e seus mais altos dignitários, e, reunindo conselho, disseram uns aos outros: "Como agiremos com essa gente, que têm um exército às suas ordens e são chefes experimentados?"

5 Os príncipes lhe disseram: rei, ordene que se faça boa guarda nesta cidade, para que eles não a surpreendam clandestinamente, não a tomem à força e não levem os habitantes em cativeiro." O rei disse: "Vocês têm razão; mas tentemos primeiro meios amistosos; veremos depois." Os príncipes disseram: rei, ordene a todo o exército que se reúna, que mostre vigilante energia e que se mantenha atento e em guarda. Depois envie a essa gente homens hábeis, que irão parlamentar com eles e lhes perguntarão exatamente e em detalhe de onde vêm e para onde vão."

6 Então três príncipes se levantaram e foram encontrá-los da parte do rei, e, depois de se prostrarem diante deles, deram-se mutuamente o abraço e se sentaram. Os príncipes disseram: "Homens veneráveis e reis poderosos, digam-nos a causa de sua chegada." Os magos disseram: "Por que nos questionam, nós que viemos para interrogar vocês? Viemos da Pérsia, país distante, e temos pressa de prosseguir nosso caminho." Os príncipes disseram: "Escutem-nos, pelo amor de Deus, e prestem-nos atenção. Nosso rei está na cidade e, quando os viu se estabelecer aqui em observação, esperou que vocês se apresentassem a ele. Ele desejava vê-los, falar com vocês, conversar com vocês e ouvi-los. Vocês mostraram pouca disposição e não quiseram ir encontrá-lo. Por isso ele enviou mensageiros à procura de vocês, para convidá-los a ir até ele em seu palácio, a fim de se informar de suas intenções, com todo o respeito, para saber o que vocês desejam."

7 Os magos disseram: "E o que quer de nós o seu rei? Se tem alguma pergunta a nos fazer, nós, de nossa parte, não temos nada a dizer a ninguém, nada a ouvir, nada a ver." Os príncipes disseram: "Digam-nos: vocês vieram aqui como amigos, ou com intenções violentas?" Os magos disseram: "Viemos do nosso país até aqui livremente; ninguém nos submeteu a tal interrogatório, e agora vocês vêm para nos sondar!" Os príncipes disseram: "Viemos por ordem do rei para vê-los, falar com vocês e ouvi-los. Desde que vocês acampam aqui, um cheiro de essências perfumadas se espalha de onde estão e enche a nossa cidade inteira. Seriam vocês mercadores que fazem grande comércio? Ou poderosos senhores familiares dos reis, que têm em abundância perfumes refinados de todas as flores preciosas, que pretendem trocar em algum país rico?" Os magos disseram: "Não é como vocês pensam. Não temos nada a vender e pedimos apenas o nosso caminho."

8 Os príncipes disseram: "Que caminho?" Os magos disseram: "Aquele por onde o Senhor nos conduzirá, na justiça, para a terra do bem. Quanto a nós, é por ordem de Deus que, de comum acordo, viemos aqui. Como faz nove meses que estamos a caminho, poderíamos, ainda hoje, chegar a tempo ao nosso destino. A estrela que nos guiava fazia caminho conosco e, ao chegarmos às etapas, nós a víamos parar acima de nossas cabeças. Quando, apressando-nos no caminho, acelerávamos a marcha, a estrela, que ficara para trás, retomava a dianteira; e assim foi até este lugar. Agora a sua luz se ocultou de nossos olhos e nós, lançados na incerteza, não sabemos o que fazer."

9 E os príncipes foram contar a Herodes tudo o que tinham ouvido dos magos. Herodes então se levantou, veio encontrar os magos e lhes disse: "Com que finalidade fizeram tão grande viagem para vir a este país, com este numeroso exército e estes presentes?" Os magos disseram: "Eis por que viemos e o que queremos pedir a você. Ouvimos em nosso país que o filho de um rei vai nascer na terra da Judeia, e viemos para vê-lo e adorá-lo."

10 Quando ouviu isso, Herodes ficou vivamente abalado e se assustou com a palavra que tinham dito. Disse-lhes: "De quem ouviram o que dizem, ou quem lhes relatou isso?" Os magos disseram: "Recebemos de nossos antepassados o testemunho escrito, que foi guardado sob lacre selado. E durante longos anos, de geração em geração, nossos pais e os filhos de seus filhos permaneceram na expectativa, até o momento em que essa palavra veio a se realizar diante de nós. Ela nos foi, por ordem de Deus, manifestada numa visão, pelo ministério de um anjo. E viemos a este lugar que o Senhor nos indicou." Herodes disse: "De onde vocês têm esse testemunho conhecido de vocês?"

11 Os magos disseram: "O testemunho que possuímos não vem nem do homem, nem de ninguém. É uma ordem divina a respeito de um desígnio que o Senhor prometeu cumprir em favor dos filhos dos homens, ordem que se conservou entre nós até este dia." Herodes disse: "Onde está esse livro que o seu povo possui, com exclusão de todos os outros?" Os magos disseram: "Nenhum outro povo conhece isto, nem por ouvir falar nem por sua própria inteligência. o nosso povo possui o testemunho escrito. Pois, quando Adão deixou o Paraíso e Caim fez perecer Abel, o Senhor Deus deu a Adão Set, o filho de consolação, e com ele esta carta escrita, fechada e selada pelo dedo de Deus. Set a recebeu de seu pai e a deu a seus filhos. Seus filhos a deram a seus filhos, de geração em geração. E até Noé, transmitiram a ordem de guardar cuidadosamente esta carta. Noé a deu a Sem, seu filho, e os filhos de Sem a deram a seus filhos. Depois estes, tendo-a recebido, a deram a Abraão. Abraão a deu ao sumo sacerdote Melquisedec, e por essa via nosso povo a recebeu, no tempo de Ciro, rei da Pérsia. E nossos pais, tendo-a recebido, a depositaram com grande honra numa sala. Por fim a carta chegou até nós. E nós, tendo recebido esse escrito, conhecemos de antemão o novo monarca, filho do rei de Israel."

12 Quando Herodes ouviu isso, a raiva tomou-lhe o coração e ele disse: "Não os deixarei ir até enquanto não me mostrarem tudo o que têm com vocês." Então ele ordenou que os prendessem à força. E de repente o palácio, onde estava estabelecida uma multidão de pessoas, foi abalado. Dos quatro lados as colunas desabaram e todo o edifício do palácio se desmoronou. Uma multidão numerosa que se encontrava do lado de fora fugiu dali. Os que estavam no interior do edifício ficaram estendidos mortos, em número de setenta e dois indivíduos, grandes e pequenos. Diante disso, todos os que ali tinham vindo, caindo aos pés de Herodes, suplicaram, dizendo: "Deixe-os prosseguir tranquilamente seu caminho." Seu filho Arquelau também se lançou aos pés do pai e o suplicou.

13 O ímpio Herodes cedeu ao desejo de seu filho e os dispensou. Mandou então chamar os magos amistosamente e lhes disse: "Digam-me, o que desejam que eu faça por vocês?" Os magos disseram de comum acordo: "Não temos nenhum pedido a lhe expressar senão este: diga-nos, na sua lei o que escrito? O que vocês leem?" Herodes disse: "O que querem nos fazer dizer?" Os magos disseram: "Onde nascerá o Cristo, rei dos judeus?" Ao ouvir isso, Herodes ficou vivamente perturbado, e toda a cidade de Jerusalém com ele. E, depois de convocar todos os sacerdotes e os escribas do povo, perguntou-lhes: "Onde deve nascer o Cristo?" Eles lhe disseram: "Em Belém da Judeia, na cidade do rei Davi." Herodes disse aos magos: "Vão, informem-se exatamente sobre este menino, e quando o tiverem encontrado, enviem-me um aviso nesta cidade, para que eu mesmo adorá-lo." O tirano ímpio falava assim para fazer passar o menino ao fio da espada, por meio dessa informação perfidamente obtida.

14 E os magos, tendo-se levantado imediatamente, prostraram-se diante de Herodes e de toda a cidade de Jerusalém, e prosseguiram seu caminho. E eis que a estrela que tinham visto os precedeu, até o momento em que foi parar acima do lugar onde estava o menino Jesus. Chegando todos contentes à cidade de Belém, desceram cada um de sua montaria e, de repente, fizeram ressoar suas trombetas, seus címbalos, suas cítaras, suas harpas e seus outros instrumentos de música, em honra do menino recém-nascido, filho do rei de Israel. Reis, príncipes e toda a multidão do exército, entoando um canto, puseram-se a dançar e, em alta voz, com alegria e gratidão, de coração contente, bendiziam a Deus e agradeciam ao Senhor por terem sido tornados dignos de chegar a tempo e de ver a glória do grande dia, ilustrado pelo mistério que se mostrava a eles.

15 Ao ver tudo isso, José e Maria sentiram medo dos reis e de todo aquele exército. Voltaram apavorados para dentro da caverna, e José se sentou na manjedoura dos animais. Ao vê-lo, todos os príncipes e os grandes senhores disseram a José: "Ancião, por que você está tomado de temor e por que foge de nós? Pois, em verdade, somos homens como você." José disse: "De onde vocês chegam a esta hora, e o que querem de nós, vindo aqui com um exército tão numeroso?" Os magos disseram: "Chegamos aqui de uma terra distante, da Pérsia, nossa pátria, com numerosos presentes e oferendas. Queremos ver o menino recém-nascido, o rei dos judeus, e adorá-lo. Se por acaso você o conhece com certeza, indique-nos exatamente o lugar onde ele está, para que vamos vê-lo." Ao ouvir isso, Maria entrou com alegria na caverna e, tomando o menino nos braços, sentiu o coração cheio de júbilo. Bendizia e glorificava a Deus, dando-lhe graças, e depois permaneceu sentada em silêncio.

16 Uma segunda vez, os magos interrogaram José: venerável ancião, informe-nos com exatidão: você saberia talvez onde veremos o menino recém-nascido?" Com o dedo, José lhes mostrou de longe a caverna. Os magos chegaram bem contentes à entrada da caverna; perceberam o menino na manjedoura dos animais e se prostraram diante dele, com o rosto contra a terra, reis, príncipes, grandes senhores e todo o resto do povo que compunha seu numeroso exército; e cada um, por sua vez, trazia seus presentes e os oferecia a ele.

17 Em primeiro lugar veio Gaspar, rei da Índia. Ele expôs nardo precioso, mirra, canela, cinamomo, incenso e outros aromas e essências odoríferas. E imediatamente um perfume de imortalidade se espalhou pela gruta onde estavam estabelecidos. Depois Baltasar, o rei dos árabes, abrindo seus opulentos tesouros, tirou deles para oferecer ao menino ouro, prata, pedras preciosas, pérolas magníficas e safiras de grande valor. Por sua vez, Melcon, rei dos persas, trouxe mirra, aloés, musselina, púrpura e também fitas de linho.

18 E depois que cada um ofereceu seus presentes em honra do menino real de Israel, os reis se levantaram e saíram da gruta, cada um dos três por seu lado; depois os três, reunindo-se, sentaram-se e consultaram-se mutuamente. Disseram: "Que verdadeiro motivo de espanto vimos com nossos olhos! Um abrigo tão pobre, desprovido de todas as coisas! Nem casa, nem teto, nem habitação, mas uma caverna deserta e desabitada, onde essa gente não tem o necessário nem com que se abrigar. De que nos serve termos vindo de tão longe para vê-los e travar conhecimento com eles? Digam-nos a verdade: que sinal maravilhoso percebemos aqui? Venham, contemos uns aos outros o que nos apareceu." Os magos disseram: "Irmãos, vocês têm razão. Cada um contará sua visão."

19 O rei Gaspar disse: "Quando trouxe e apresentei o incenso a este menino, vi nele o Filho de Deus encarnado, sentado num trono de glória, e o exército dos anjos incorpóreos formava a sua corte." Baltasar disse: "Enquanto me aproximava, vi-o sentado num trono sublime e, diante dele, um exército inumerável o adorava prostrado." Melcon disse: "E eu, vi que, depois de morrer corporalmente em meio aos suplícios, ele se levantava, voltando à vida." Ao ouvir essas coisas uns dos outros, os reis, tomados de estupor, disseram com espanto: "Que novo prodígio é este que se mostra a nós: nossos testemunhos não concordam. Precisamos, contudo, crer num fato que vemos com nossos olhos."

20 E pela manhã, os reis se levantaram e disseram uns aos outros: "Venham, vamos juntos à gruta; veremos se algum outro sinal se mostrará a nós." Baltasar foi e não viu mais a visão que tivera antes; mas foi o filho de um homem, de um rei terrestre, que lhe apareceu. Gaspar viu o menino sentado na manjedoura dos animais e teve a segunda visão. Fez disso o relato aos outros, nestes termos: "Não é mais a minha primeira visão que tive; é a sua, Baltasar, aquela que você nos relatou." Melcon entrou então e viu Jesus sentado em seu trono. Não tornou a ver sua visão anterior, que lho mostrara morto e voltado à vida; mas viu nele, como vira Gaspar, Deus feito homem nascido da Virgem. Cheio de alegria, Melcon foi com pressa avisar seus irmãos.

21 Depois de terem visto essas coisas e de se terem retirado cada um à parte, todos os reis se reuniram e tomaram assento. Começaram a contar uns aos outros a visão que cada um percebera e compreendera. Disseram mutuamente: "Venham, irmãos, voltemos ao nosso pouso. Amanhã, bem cedo, iremos de novo à caverna, e nos certificaremos positivamente se é mesmo aquele que o Senhor nos mostrou." Tendo então voltado à sua habitação, permaneceram na alegria e no júbilo até a manhã. E bem cedo, levantando-se, foram até a abertura da caverna. Depois de entrarem um a um, os reis olharam e reconheceram o menino. Sentiram no coração um mesmo arrebatamento de júbilo; alegraram-se e, cheios de alegria e de amor, foram anunciar a todo o seu exército nestes termos: "Este é verdadeiramente Deus e Filho de Deus, que se mostrou a cada um de nós sob uma aparência exterior em relação à nossa oferenda; ele recebeu de nós com bondade e doçura a nossa saudação e as nossas homenagens." E todos tiveram nele: os reis, os príncipes, toda a multidão do exército e o povo que ali se encontrava.

22 E novamente o rei Melcon, tendo tomado o livro do Testamento, que guardava em sua casa como herança dos primeiros ancestrais, como dissemos, trouxe-o e o apresentou ao menino e disse: "Eis o escrito em forma de carta, que você deu para guardar, depois de tê-lo selado e fechado. Tome e leia o documento autêntico que você escreveu." Esse documento era aquele cujo texto escrito permanecia guardado sob lacre fechado, e que os magos não tinham ousado abrir nem dar a ler a nenhum dos sacerdotes, nem deixar entender pelo povo, porque eles não eram dignos de se tornarem filhos do Reino de Deus, estando destinados a renegar e a crucificar o Salvador.

23 Ora, depois que Adão deixou o Paraíso e que Caim matou Abel, como Adão estava aflito com a morte de seu filho, mais ainda do que por ter tido de deixar o Paraíso, o Senhor Deus fez nascer a Adão Set, o filho da consolação. E porque Adão tinha primeiro querido tornar-se deus, Deus resolvera tornar-se homem, no excesso de sua misericórdia e de seu amor para com o gênero humano. Ele jurou ao nosso primeiro pai que, segundo a sua prece, escreveria e selaria com o próprio dedo um pergaminho em letras de ouro, contendo o seguinte: "No ano seis mil, no sexto dia, enviarei meu filho único, o Filho do homem, e ele te restabelecerá de novo na tua dignidade original. Então tu, Adão, estando unido a Deus, na tua carne tornada imortal, terás te tornado Deus, podendo, como um de nós, discernir o bem e o mal."

24 É esse documento escrito, selado e fechado pelo dedo de Deus, que os magos apresentaram a Jesus. Desde então os reis, os príncipes e todo o seu exército tinham cumprido seus votos e suas preces. Permaneceram na gruta durante três dias. E, depois de terem deliberado, os reis disseram: "Venham! Vamos juntos adorá-lo e confessar que ele é Deus. Depois retomaremos em paz a nossa viagem." E, de comum acordo, todos se levantaram, dirigiram-se à caverna, adoraram Jesus e lhe deram este testemunho: "Vós sois Deus e Filho de Deus." E, saindo da gruta, louvavam a Deus com alegria e júbilo.

25 Na manhã seguinte, ao romper da aurora, no momento em que ia despontar o primeiro dia da semana, no dia 25 de tebet e 12 de janeiro, eles se dispuseram a partir para o seu país. E, como deliberavam ir até Herodes, na cidade de Jerusalém, nesse mesmo instante uma voz lhes falou, dizendo: "Não vão à casa de Herodes, o tirano ímpio, pois ele procura matar este menino." Ao ouvir isso, os magos e todo o seu exército renunciaram a essa iniciativa. E, glorificando o Cristo, Deus do universo, partiram cheios de alegria para o seu país, seguindo o caminho por onde o Senhor os conduzia.

Por que isso importa

A maior parte das imagens que associamos ao Natal e à infância de Jesus não vem da Bíblia, e sim destas obras: os nomes Joaquim e Ana para os pais de Maria, o boi e o jumento na manjedoura, a idade avançada de José. Conhecer a origem desses elementos ajuda a distinguir o que está nos evangelhos canônicos do que foi acrescentado pela tradição posterior. As páginas seguintes percorrem cada bloco dessa história.

Perspectivas sobre este tema

Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.

Crítico Histórico

Os relatos de infância de Jesus e Maria que conhecemos são tradição devocional tardia e literariamente construída, não memória histórica, e isso inviabiliza tratá-los como registro inerrante.

A primeira coisa que a crítica textual nota aqui é uma assimetria brutal de distância temporal. Mateus e Lucas, nossas únicas fontes canônicas sobre o nascimento, foram escritos cerca de 80 a 90 da era comum, oito ou nove décadas após os fatos que narram, e mesmo eles divergem entre si em pontos estruturais: a genealogia, o itinerário da família, a cronologia do recenseamento. Os apócrifos da infância estão ainda mais longe. O Protoevangelho de Tiago é datado por consenso em torno de 150, conhecido por Orígenes no início do século III, e o Pseudo-Mateus é compilação bem mais tardia. Quando uma narrativa sobre a infância de alguém aparece pela primeira vez um século e meio ou mais depois, o ônus probatório recai sobre quem afirma sua historicidade. Não há aqui testemunha, nem cadeia de transmissão verificável, nem fonte primária: há devoção preenchendo um silêncio.

O caso é exemplar para distinguir tradição de história, porque dá para flagrar a manufatura dos detalhes. Os nomes Joaquim e Ana, hoje firmados no calendário litúrgico, surgem precisamente no Protoevangelho de Tiago, não no Novo Testamento, e o enredo dos pais idosos e estéreis que concebem após oração é decalque do padrão de Ana, mãe de Samuel, e de Sara: um topos narrativo, não uma certidão de nascimento. O boi e o jumento na manjedoura são ainda mais reveladores. Não estão em Lucas, não estão em parte alguma do cânon, e o próprio Pseudo-Mateus confessa a origem deles ao citar Isaías: o boi conhece o seu dono, e o jumento a manjedoura. Isso é uma lenda etiológica, um detalhe criado para cumprir um versículo lido retrospectivamente como profecia.

Vale conceder o que a evidência não permite afirmar: nada disso prova que Jesus não teve infância, nem que Maria não teve pais com algum nome real. O argumento crítico é mais modesto e mais firme do que isso. Ele diz que essas narrativas específicas não têm valor documental sobre os eventos que pretendem relatar, porque carregam todas as marcas da composição secundária: distância temporal enorme, dependência literária de modelos do Antigo Testamento, expansão das lacunas do cânon e detalhes derivados de exegese profética em vez de testemunho. São fascinantes como literatura devocional e como janela para a cristologia e a mariologia em formação no século II, e é por isso que merecem leitura séria. O que não se pode é ler uma camada tardia de tradição como se fosse a base.

Para a afirmação de inerrância, a conclusão é direta e não depende de hostilidade. Mesmo dentro do cânon, os dois relatos de infância já divergem, o que torna problemática a tese de uma narrativa única ditada sem erro. Fora do cânon, a montanha de detalhes que a piedade popular absorveu, os nomes dos avós, os animais, a parteira, é demonstravelmente posterior e demonstravelmente derivada. Quem quiser sustentar a historicidade desses episódios precisa explicar por que a notícia mais antiga deles aparece tão tarde, e por que cada detalhe coincide com um versículo a cumprir ou um molde a repetir. A devoção pode conviver com isso. A pretensão de inerrância histórica, não.

Apologista Evidencial

A datação tardia e o caráter lendário dos apócrifos da infância são reais e admitidos, mas confirmam, em vez de minar, a distinção qualitativa entre o núcleo canônico transmitido e a piedade que veio depois preencher seu silêncio.

Comecemos pela concessão que importa: os evangelhos apócrifos da infância são tardios, e isso não é tese cética, é datação consensual. O Protoevangelho de Tiago é da segunda metade do século II; a Infância de Tomé, do mesmo período ou pouco depois; Pseudo-Mateus, o Árabe da Infância e a Natividade de Maria são reelaborações ainda posteriores, alguns já medievais na forma que chegou até nós. Nenhum deles tem pretensão realista de testemunho ocular, e a própria atribuição a Tiago ou a Tomé é pseudoepígrafa. Quem leu Lucas e depois lê o menino Jesus fulminando colegas de brincadeira ou modelando pardais de argila que ganham vida percebe a diferença de gênero antes mesmo de discutir data: muda o tom, muda a teologia, muda a economia narrativa. Isso é dado, não retórica.

O ponto que a crítica às vezes embaralha é tratar apócrifo e canônico como dois graus do mesmo material, quando a distinção que a própria Igreja antiga operou era qualitativa. Mateus e Lucas, qualquer que seja o juízo sobre sua historicidade pontual, pertencem a uma camada de meio século após os fatos, ancorada em tradições com nomes, lugares e contornos verificáveis, Belém, o censo, Nazaré, o Templo, e foram recebidos por comunidades que ainda tinham contato com a primeira geração. Os apócrifos nascem de outra necessidade: preencher o silêncio. O Novo Testamento cala sobre quase toda a infância de Jesus, e esse silêncio é desconfortável para a devoção popular. A Igreja distinguiu canônico de apócrifo não por capricho, mas porque percebia essa diferença de proveniência.

Daí decorre o que os nomes tradicionais de fato significam. Joaquim e Ana, o boi e o jumento na manjedoura, a idade de Maria, tudo vem do Protoevangelho e de seus descendentes, não de Mateus ou Lucas. Negar isso seria desonesto, e a tradição cristã madura nunca precisou negar: distinguiu sempre o que se crê como revelado do que se venera como piedade. O boi e o jumento entram lendo Isaías dentro da cena, uma catequese visual, não uma informação de estábulo. Reconhecer que esses elementos são tardios não esvazia o presépio; apenas o lê como o que é, devoção construída sobre o texto canônico. O valor histórico dos apócrifos é real, mas de outra ordem: documentam o que os cristãos do século II amavam e queriam saber sobre a infância de seu Senhor. São testemunho de recepção, não de eventos.

O que fica genuinamente em aberto, e seria propaganda fingir o contrário, é a historicidade fina dos próprios relatos canônicos: o censo de Quirino em Lucas continua um problema cronológico, a estrela e os magos em Mateus carregam função teológica evidente, e os dois evangelhos divergem em detalhes do itinerário. A apologia honesta não resolve isso apelando ao apócrifo nem ao milagre; insiste apenas que a fragilidade desses pontos é de outra natureza, e de outra magnitude, que a ficção devocional do menino que mata e ressuscita colegas. Distinguir o núcleo canônico do acréscimo lendário tardio não é mover a trave: é o que a Igreja fez ao formar o cânon, e o que a crítica literária, quando honesta, confirma.