Capítulos
História Eclesiástica - Livro I
Autor e Data de Composição
Eusébio de Cesareia nasceu por volta de 260 e morreu por volta de 339 ou 340. Foi bispo de Cesareia, na Palestina, discípulo do erudito Pânfilo e figura central no Concílio de Niceia em 325. É chamado de pai da história eclesiástica porque a sua História Eclesiástica é a primeira tentativa de narrar de forma contínua os três primeiros séculos do cristianismo. A obra tem dez livros e foi composta em etapas: a maior parte tomou forma entre cerca de 311 e 325, com revisões que acompanharam o fim das perseguições e a ascensão de Constantino.
Eusébio escreveu antes da definição plena da doutrina trinitária e a sua cristologia tende ao subordinacionismo, o que mais tarde o envolveu na controvérsia ariana. Isso aparece já no Livro I, na maneira como descreve o Verbo. A historiografia moderna valoriza Eusébio sobretudo como compilador: ele cita longamente dezenas de autores e documentos que, sem ele, estariam perdidos, como Hegesipo, Papias, Júlio Africano e cartas de bispos antigos.
A História Eclesiástica e o Livro I
O Livro I é uma introdução. Antes de chegar aos apóstolos, Eusébio trata da pessoa de Cristo: a sua divindade e pré-existência, o sentido dos nomes Jesus e Cristo, a época exata de sua vinda e o cenário político da Judeia sob Herodes e Pilatos. O livro termina com a lenda de Abgar, rei de Edessa, que serve de ponte para o início da pregação apostólica fora da Palestina. É o livro menos histórico da obra e o mais teológico, porque define quem é o protagonista antes de narrar a expansão da Igreja.
Conteúdo do Livro
- O plano da obra: narrar a sucessão dos apóstolos, os líderes das principais igrejas, os hereges e as perseguições, da época do Salvador até Eusébio — (História Eclesiástica - Livro I 1)
- A pré-existência e a divindade do Verbo, com as teofanias do Antigo Testamento lidas como aparições de Cristo antes da encarnação — (História Eclesiástica - Livro I 2)
- Os nomes Jesus e Cristo já honrados por Moisés e pelos profetas (Gn 49, Sl 110, Sl 45) — (História Eclesiástica - Livro I 3)
- A tese apologética de que a religião de Cristo não era nova: os patriarcas já a praticavam — (História Eclesiástica - Livro I 4)
- A datação do nascimento no reinado de Augusto e o problema do recenseamento de Quirino, com Josefo como fonte (Lc 2) — (História Eclesiástica - Livro I 5)
- A profecia de Gênesis 49:10 sobre o cetro de Judá aplicada a Herodes, o primeiro rei estrangeiro, e as setenta semanas de Daniel — (História Eclesiástica - Livro I 6)
- A divergência entre as genealogias de Mateus e Lucas e a harmonização de Júlio Africano pela lei do levirato (Mt 1, Lc 3) — (História Eclesiástica - Livro I 7)
- A matança dos inocentes (Mt 2) e a morte horrível de Herodes descrita por Josefo — (História Eclesiástica - Livro I 8)
- Os tempos de Pilatos, datados pelo reinado de Tibério, e a menção aos espúrios Atos de Pilatos — (História Eclesiástica - Livro I 9)
- Os sumos sacerdotes Anás e Caifás sob os quais Cristo ensinou — (História Eclesiástica - Livro I 10)
- Os testemunhos de Josefo sobre João Batista e sobre Cristo, este último o célebre Testimonium Flavianum — (História Eclesiástica - Livro I 11)
- Os discípulos do Salvador e os setenta de Lucas 10, com a distinção que Eusébio faz entre Cefas e Pedro — (História Eclesiástica - Livro I 12)
- A correspondência apócrifa entre o rei Abgar de Edessa e Jesus, e a missão do apóstolo Tadeu à Síria — (História Eclesiástica - Livro I 13)
Prólogo e a divindade de Cristo
A época da vinda de Cristo
As genealogias e a infância
Pilatos, os sumos sacerdotes e João Batista
Os discípulos e a lenda de Abgar
A Cristologia do Verbo
Nos capítulos 2 a 4 Eusébio relê as teofanias do Antigo Testamento, como o visitante de Abraão em Manre e o capitão do exército do Senhor diante de Josué, como manifestações do Verbo antes da encarnação. É a leitura tipológica típica dos Padres, distinta da leitura histórica que esses textos recebem na crítica moderna. O vocabulário com que Eusébio descreve o Verbo, chamando-o "segunda causa" e instrumento do Pai, reflete o pano de fundo origeniano e a tendência subordinacionista que marcaria a sua posição na crise ariana.
As Genealogias e a Harmonização de Africano
O capítulo 7 preserva um trecho de Júlio Africano que tenta conciliar as genealogias divergentes de Mateus e Lucas. Africano propõe que José descendia de duas linhas por causa de um casamento de levirato, sendo filho natural de um e filho legal de outro. A solução é engenhosa, mas a crítica moderna considera as duas genealogias irreconciliáveis e as lê como construções teológicas distintas: Mateus sublinha a realeza davídica e Lucas a universalidade. A hipótese popular de que Lucas traria a genealogia de Maria é tardia e não tem base no texto.
O Testimonium Flavianum
O capítulo 11 cita a passagem de Josefo conhecida como Testimonium Flavianum, em que se lê que Jesus era um homem sábio, que fez obras admiráveis e que "era o Cristo". Eusébio é a primeira testemunha do texto nessa forma. O consenso acadêmico atual sustenta que há um núcleo autêntico, no qual Josefo de fato mencionou Jesus, mas que frases como a afirmação de que ele era o Cristo e a alusão à ressurreição são interpolações cristãs posteriores. O relato de Josefo sobre João Batista, no mesmo capítulo, é tido como genuíno e independente dos Evangelhos.
A Lenda de Abgar
O capítulo 13 traz a troca de cartas entre Jesus e Abgar, rei de Edessa, e o envio do apóstolo Tadeu, que Eusébio diz ter traduzido de documentos siríacos guardados nos arquivos da cidade. Abgar V foi um rei histórico, mas a correspondência é considerada apócrifa pela erudição, uma lenda fundacional da igreja síria que provavelmente data do século III. O Decreto Gelasiano, no fim do século V, já a classificava entre os escritos não recebidos. Vale como testemunho da tradição de Edessa, não como documento do tempo de Jesus.
Sobre Esta Tradução
A tradução portuguesa aqui apresentada foi feita a partir da versão inglesa de Arthur Cushman McGiffert, publicada em 1890 na série Nicene and Post-Nicene Fathers e hoje em domínio público. O texto de Eusébio é dividido em capítulos e em seções numeradas; as seções foram tratadas como versículos para facilitar a referência e a leitura. As notas críticas e o aparato da edição original não foram incluídos no corpo do texto.
Valor Histórico
O Livro I mistura teologia, cronologia e tradições de valor desigual. Onde Eusébio cita fontes documentais, como Josefo, o seu testemunho é precioso. Onde reproduz tradições devocionais, como a lenda de Abgar, a leitura exige cautela. A obra é a porta de entrada para a história da Igreja antiga, e o próprio Eusébio adverte, no prólogo, que avança por um caminho ainda não trilhado e que nem sempre dispõe de provas firmes para o que relata.