História Eclesiástica - Livro I 7

Livro I: a divindade de Cristo, a era de Herodes e Pilatos, e a correspondência do rei Abgar de Edessa

Mateus e Lucas, em seus evangelhos, apresentaram de modo diferente a genealogia de Cristo, e muitos imaginam que os dois estão em desacordo. Como consequência, cada crente, sem conhecer a verdade, se empenhou em inventar alguma explicação que harmonizasse as duas passagens. Por isso, permita que acrescentemos o relato que chegou até nós, transmitido por Africano, que mencionamos pouco, em sua carta a Arístides, na qual ele discute a harmonia das genealogias dos evangelhos. Depois de refutar as opiniões dos outros como forçadas e enganosas, ele expõe nestas palavras o relato que recebeu da tradição:
Em Israel os nomes das gerações eram contados de duas formas, segundo a natureza ou segundo a lei. Segundo a natureza, pela sucessão de filhos legítimos; segundo a lei, sempre que um homem gerava um filho em nome de um irmão que tinha morrido sem deixar filhos. Como ainda não havia uma esperança clara da ressurreição, eles representavam a promessa futura por uma espécie de ressurreição mortal, para que o nome do falecido fosse perpetuado.
Alguns dos que figuram nessa tabela genealógica sucederam por descendência natural, o filho ao pai, enquanto outros, embora gerados por um pai, eram atribuídos pelo nome a outro. Por isso se mencionam tanto os que de fato eram os progenitores quanto os que o eram apenas pelo nome.
Assim, nenhum dos dois evangelhos contém erro, pois um conta segundo a natureza e o outro segundo a lei. A linha que descende de Salomão e a que descende de Natã se entrelaçaram de tal modo, uma com a outra, pela geração de filhos para os que morriam sem descendência e por segundos casamentos, que as mesmas pessoas com razão são consideradas ora de uma linha, ora de outra: ora dos pais legais, ora dos pais reais. De modo que os dois relatos são rigorosamente verdadeiros e chegam até José com bastante complexidade, é verdade, mas com toda a exatidão.
Para deixar claro o que disse, vou explicar a alternância das gerações. Se contarmos as gerações desde Davi passando por Salomão, o terceiro a partir do fim é Matã, que gerou Jacó, o pai de José. Mas se, com Lucas, contarmos a partir de Natã, o filho de Davi, da mesma forma o terceiro a partir do fim é Melqui, cujo filho Eli foi o pai de José. Pois José era filho de Eli, filho de Melqui.
Sendo José, então, o ponto em questão para nós, é preciso mostrar como cada um deles é registrado como seu pai: tanto Jacó, que tinha sua linhagem de Salomão, quanto Eli, que tinha a sua de Natã. Primeiro, como esses dois, Jacó e Eli, eram irmãos; e depois, como os pais deles, Matã e Melqui, embora de famílias diferentes, são declarados avós de José.
Matã e Melqui, tendo se casado sucessivamente com a mesma mulher, geraram filhos que eram irmãos por parte de mãe, pois a lei não proibia uma viúva, fosse pelo divórcio ou pela morte do marido, de se casar com outro.
Então, de Está (pois este, segundo a tradição, era o nome da mulher), Matã, descendente de Salomão, gerou primeiro Jacó. E quando Matã morreu, Melqui, que remontava sua linhagem a Natã, sendo da mesma tribo mas de outra família, casou-se com ela, como foi dito, e gerou um filho, Eli.
Assim, encontramos os dois, Jacó e Eli, pertencentes a famílias diferentes mas irmãos pela mesma mãe. Destes, um, Jacó, quando seu irmão Eli morreu sem filhos, tomou a mulher do falecido e gerou dela um filho, José, seu próprio filho por natureza e segundo a razão. Por isso também está escrito: 'Jacó gerou José.' Mas segundo a lei ele era filho de Eli, pois Jacó, sendo irmão de Eli, levantou descendência para ele.
Por isso a genealogia traçada por meio dele não fica anulada, aquela que o evangelista Mateus, em sua enumeração, apresenta assim: 'Jacó gerou José.' Lucas, por sua vez, diz: 'Que era filho, como se supunha' (pois ele também acrescenta isto), 'de José, filho de Eli, filho de Melqui.' Ele não poderia exprimir com mais clareza a geração segundo a lei. E a expressão 'gerou' ele omitiu em toda a sua tabela genealógica, traçando a genealogia de volta até Adão, o filho de Deus. Essa interpretação não é impossível de provar nem é uma conjectura vazia.
Pois os parentes de nosso Senhor segundo a carne, seja com o desejo de se gabar, seja simplesmente querendo declarar o fato, em qualquer dos casos com veracidade, transmitiram o seguinte relato. Uns ladrões idumeus, tendo atacado Áscalon, uma cidade da Palestina, levaram de um templo de Apolo que ficava perto das muralhas, além de outro saque, Antípatro, filho de certo escravo do templo chamado Herodes. E como o sacerdote não pôde pagar o resgate do filho, Antípatro foi criado nos costumes dos idumeus, e depois ganhou a amizade de Hircano, o sumo sacerdote dos judeus.
Enviado por Hircano em uma embaixada a Pompeu, e tendo restaurado a ele o reino que fora invadido por seu irmão Aristóbulo, Antípatro teve a sorte de ser nomeado procurador da Palestina. Mas Antípatro, assassinado pelos que invejavam sua grande boa sorte, foi sucedido por seu filho Herodes, que depois, por decreto do senado, foi feito Rei dos Judeus sob Antônio e Augusto. Os filhos dele foram Herodes e os outros tetrarcas. Esses relatos concordam também com os dos gregos.
Até aquele tempo se guardavam nos arquivos as genealogias dos hebreus, bem como as dos que remontavam sua linhagem a prosélitos, como Aquior, o amonita, e Rute, a moabita, e as dos que se misturaram aos israelitas e saíram do Egito com eles. Herodes, como a linhagem dos israelitas em nada contribuía para seu proveito, e como o atormentava a consciência de sua própria origem humilde, queimou todos os registros genealógicos, pensando que poderia parecer de origem nobre se ninguém mais conseguisse, a partir dos registros públicos, remontar sua linhagem aos patriarcas ou prosélitos e aos que se misturaram a eles, chamados georas.
Poucos cuidadosos, no entanto, tendo obtido registros próprios e particulares, seja por lembrar os nomes, seja por consegui-los de algum outro modo a partir dos registros, se orgulham de preservar a memória de sua nobre origem. Entre esses estão os mencionados, chamados despósinos, por causa de sua ligação com a família do Salvador. Vindos de Nazará e Cocaba, vilarejos da Judeia, para outras partes do mundo, eles traçaram a referida genealogia de memória e do livro de registros diários com a maior fidelidade possível.
Quer o caso seja assim ou não, ninguém poderia achar uma explicação mais clara, na minha opinião e na de qualquer pessoa de bom senso. E que isto nos baste, pois, embora não possamos apresentar nenhum testemunho em seu apoio, não temos nada melhor ou mais verdadeiro a oferecer. De todo modo, o Evangelho declara a verdade. E ao final da mesma carta ele acrescenta estas palavras: Matã, que descendia de Salomão, gerou Jacó. E quando Matã morreu, Melqui, que descendia de Natã, gerou Eli da mesma mulher. Eli e Jacó eram, assim, irmãos por parte de mãe. Eli, tendo morrido sem filhos, Jacó levantou descendência para ele, gerando José, seu próprio filho por natureza, mas filho de Eli segundo a lei. Assim, José era filho de ambos.
Até aqui Africano. E, traçada desse modo a linhagem de José, fica também praticamente demonstrado que Maria era da mesma tribo que ele, que, segundo a lei de Moisés, não se permitiam casamentos entre tribos diferentes. Pois a ordem é casar-se com alguém da mesma família e linhagem, para que a herança não passe de tribo para tribo. Que isto baste aqui.