História Eclesiástica - Livro I 1
Livro I: a divindade de Cristo, a era de Herodes e Pilatos, e a correspondência do rei Abgar de Edessa
Meu propósito é escrever um relato das linhas de sucessão dos santos apóstolos, bem como dos tempos decorridos desde os dias do nosso Salvador até os nossos; narrar os muitos acontecimentos importantes que, segundo se diz, ocorreram na história da Igreja; e mencionar aqueles que governaram e presidiram a Igreja nas comunidades mais notáveis, assim como aqueles que, em cada geração, anunciaram a palavra divina por escrito ou de viva voz.
Meu propósito é também registrar os nomes, o número e as datas daqueles que, por amor à inovação, caíram nos maiores erros e que, proclamando-se descobridores de um conhecimento falsamente assim chamado, devastaram sem piedade o rebanho de Cristo como lobos ferozes.
Pretendo ainda relatar as desgraças que se abateram imediatamente sobre toda a nação judaica em consequência de suas conspirações contra o nosso Salvador; registrar de que modos e em que tempos a palavra divina foi atacada pelos gentios; descrever o caráter daqueles que, em diferentes épocas, lutaram por ela diante do sangue e das torturas; relatar as confissões feitas em nossos próprios dias; e, por fim, o socorro generoso e benigno que o nosso Salvador concedeu a todos eles. Já que me proponho a escrever sobre todas essas coisas, começarei minha obra pelo início da dispensação do nosso Salvador e Senhor Jesus Cristo.
Mas, de início, devo pedir aos sábios indulgência para minha obra, pois confesso que está além das minhas forças produzir uma história perfeita e completa; e, como sou o primeiro a abordar o assunto, tento percorrer o que é como uma trilha solitária e jamais palmilhada. Peço que eu tenha Deus como guia e o poder do Senhor como auxílio, pois não consigo encontrar sequer as pegadas nuas daqueles que percorreram esse caminho antes de mim, exceto em breves fragmentos, nos quais uns de um modo, outros de outro, nos transmitiram relatos particulares dos tempos em que viveram. De longe eles erguem suas vozes como tochas e clamam, como de uma elevada e visível torre de vigia, advertindo-nos por onde caminhar e como conduzir o curso de nossa obra com firmeza e segurança.
Tendo reunido, portanto, dos assuntos mencionados aqui e ali por eles tudo o que consideramos importante para o presente trabalho, e tendo colhido como flores de um prado as passagens apropriadas dos escritores antigos, esforçar-nos-emos por reunir o todo em uma narrativa histórica, satisfeitos se preservarmos a memória das linhas de sucessão dos apóstolos do nosso Salvador; se não de todas, ao menos das mais célebres, naquelas igrejas que são as mais renomadas e que até o presente são tidas em honra.
Esta obra me parece especialmente importante porque não conheço nenhum escritor eclesiástico que se tenha dedicado a este assunto. Espero que ela se mostre muito útil aos que apreciam a pesquisa histórica.
Já apresentei um resumo dessas coisas nos Cânones Cronológicos que compus, mas, apesar disso, empenhei-me na presente obra em escrever sobre elas um relato tão completo quanto me é possível.
Minha obra começará, como eu disse, pela dispensação do Cristo Salvador, que é mais sublime e maior do que a concepção humana, e por uma discussão sobre a sua divindade.
Pois é necessário, visto que derivamos do próprio Cristo até o nosso nome, que quem se propõe a escrever uma história da Igreja comece pela própria origem da dispensação de Cristo, uma dispensação mais divina do que muitos pensam.