História Eclesiástica - Livro I 6
Livro I: a divindade de Cristo, a era de Herodes e Pilatos, e a correspondência do rei Abgar de Edessa
Quando Herodes, o primeiro governante de sangue estrangeiro, tornou-se rei, a profecia de Moisés alcançou seu cumprimento. Segundo ela, não faltaria um príncipe de Judá nem um governante saído de seus lombos, até que viesse aquele para quem isso está reservado. E esse último, ele também mostra, seria a esperança das nações.
Essa predição permaneceu sem cumprimento enquanto lhes foi permitido viver sob governantes da própria nação, ou seja, desde o tempo de Moisés até o reinado de Augusto. Sob este, Herodes, o primeiro estrangeiro, recebeu dos romanos o reino dos judeus. Como relata Josefo, ele era idumeu por parte de pai e árabe por parte de mãe. Mas Africano, que também não foi um escritor qualquer, diz que os mais bem informados a respeito dele relatam que era filho de Antípatro, e que este era filho de um certo Herodes de Ascalão, um dos chamados servos do templo de Apolo.
Esse Antípatro, capturado ainda menino por ladrões idumeus, passou a viver com eles, porque seu pai, sendo homem pobre, não pôde pagar resgate por ele. Crescendo entre os costumes deles, mais tarde conquistou a amizade de Hircano, o sumo sacerdote dos judeus. Um filho seu foi aquele Herodes que viveu nos tempos de nosso Salvador.
Quando o reino dos judeus passou para um homem assim, a esperança das nações, conforme a profecia, já estava à porta. Pois com ele chegaram ao fim os príncipes e governadores que tinham governado em sucessão regular desde o tempo de Moisés.
Antes do cativeiro e da deportação para a Babilônia, eles foram governados primeiro por Saul e depois por Davi, e antes dos reis os conduziram líderes chamados juízes, que vieram depois de Moisés e de seu sucessor Josué.
Após o retorno da Babilônia, mantiveram sem interrupção uma forma aristocrática de governo, com uma oligarquia. Pois os sacerdotes dirigiram os assuntos até que Pompeu, o general romano, tomou Jerusalém à força e profanou os lugares santos ao entrar no santuário mais interno do templo. Aristóbulo, que pelo direito de antiga sucessão tinha sido até então tanto rei quanto sumo sacerdote, ele enviou acorrentado a Roma com os filhos, e entregou a Hircano, irmão de Aristóbulo, o sumo sacerdócio, enquanto toda a nação judaica ficou tributária dos romanos a partir daquele momento.
Mas Hircano, que foi o último da linhagem regular de sumos sacerdotes, foi logo depois capturado pelos partos, e Herodes, o primeiro estrangeiro, como já disse, foi feito rei da nação judaica pelo senado romano e por Augusto.
Sob ele, Cristo apareceu em forma corporal, e a esperada Salvação das nações, com seu chamado, seguiu-se de acordo com a profecia. A partir desse momento, os príncipes e governantes de Judá, refiro-me à nação judaica, chegaram ao fim, e, como consequência natural, a ordem do sumo sacerdócio, que desde tempos antigos avançara regularmente em sucessão ininterrupta de geração em geração, mergulhou de imediato na confusão.
Dessas coisas Josefo também é testemunha, pois mostra que, quando Herodes foi feito rei pelos romanos, ele já não nomeava os sumos sacerdotes a partir da antiga linhagem, mas concedia a honra a certas pessoas obscuras. Curso semelhante ao de Herodes na nomeação dos sacerdotes foi seguido por seu filho Arquelau, e depois dele pelos romanos, que tomaram o governo em suas próprias mãos.
O mesmo escritor mostra que Herodes foi o primeiro a guardar a vestimenta sagrada do sumo sacerdote sob seu próprio selo e a recusar que os sumos sacerdotes a mantivessem para si. O mesmo procedimento foi adotado por Arquelau depois dele, e depois de Arquelau pelos romanos.
Registramos essas coisas para mostrar que outra profecia se cumpriu na aparição de nosso Salvador Jesus Cristo. Pois a Escritura, no livro de Daniel, tendo mencionado expressamente um certo número de semanas até a vinda de Cristo, das quais tratamos em outros livros, profetiza com toda a clareza que, depois de completadas essas semanas, a unção entre os judeus desapareceria por completo. E isso, ficou claramente demonstrado, cumpriu-se na época do nascimento de nosso Salvador Jesus Cristo. Antecipamos isso por necessidade, como prova da exatidão da cronologia.