Capítulos
Antiguidades Judaicas - Livro XIX
Autor e Data de Composição
Flávio Josefo nasceu em Jerusalém por volta de 37 d.C. com o nome de José, filho de Matias. Era sacerdote e comandou as tropas da Galileia na revolta judaica contra Roma iniciada em 66. Capturou-o o general Vespasiano, a quem teria predito a ascensão ao trono imperial. Liberto e levado a Roma, tornou-se cliente da dinastia Flaviana e por isso adotou o nome Flávio. Morreu provavelmente no início do século II.
As Antiguidades Judaicas (em grego Ioudaikē archaiologia) são uma história do povo judeu em vinte livros, escrita em grego e concluída por volta de 93 ou 94 d.C., no décimo terceiro ano do imperador Domiciano. Os dez primeiros livros recontam a narrativa da Bíblia hebraica, da criação ao período persa. Os dez seguintes vão até a véspera da guerra com Roma. Josefo escreveu para um público greco-romano, com a intenção declarada de demonstrar a antiguidade e a dignidade das leis e da história judaicas.
O Livro XIX na Obra
O Livro XIX cobre um período curto e intenso da história romana e judaica, de cerca de 41 a 44 d.C. O eixo narrativo é a transição imperial em Roma: o assassinato de Caio Calígula pelo tribuno Quéreas, o impasse entre senado e exército, e a ascensão de Cláudio ao trono com a mediação do rei judeu Agripa I. A partir daí o livro segue o reinado de Agripa I sobre a Judeia, os édictos de Cláudio em favor dos judeus, e termina com a morte de Agripa em Cesareia e a passagem da Judeia para um procurador romano.
A Morte de Calígula
Quase metade do Livro XIX é dedicada ao assassinato de Calígula e às suas consequências imediatas. É o relato antigo mais detalhado que sobreviveu sobre esse episódio: a narrativa de Tácito para esses anos se perdeu, Suetônio se concentra em anedotas, e Dião Cássio é tardio e resumido. Por isso o texto de Josefo é tratado pelos historiadores como fonte de primeira ordem para a política romana do início de 41 d.C., apesar do seu foco declarado na história judaica.
Conteúdo do Livro
- A tirania de Caio Calígula e a conspiração que culmina no seu assassinato pelo tribuno Quéreas, em Roma, no começo do ano 41 d.C. — (Antiguidades Judaicas - Livro XIX 1)
- O senado tenta restaurar a república enquanto os soldados querem manter a monarquia, a morte da esposa e da filha de Caio, e um retrato do caráter do imperador morto — (Antiguidades Judaicas - Livro XIX 2)
- Cláudio é encontrado escondido, levado ao acampamento pretoriano e aclamado imperador pelos soldados, enquanto o senado lhe envia uma embaixada — (Antiguidades Judaicas - Livro XIX 3)
- A mediação do rei Agripa I em favor de Cláudio junto ao senado, e a execução dos assassinos de Caio depois que Cláudio assume o poder — (Antiguidades Judaicas - Livro XIX 4)
- Cláudio devolve a Agripa os reinos de seu avô Herodes e amplia seus domínios, e publica um édito em favor dos judeus de Alexandria e do império — (Antiguidades Judaicas - Livro XIX 5)
- O que Agripa fez em Jerusalém ao voltar para a Judeia e a carta de Petrônio aos habitantes de Doris em defesa dos judeus — (Antiguidades Judaicas - Livro XIX 6)
- O caso de Silas e a irritação de Agripa com ele, o início da construção de um muro em torno de Jerusalém, e os benefícios concedidos por Agripa à cidade de Berito — (Antiguidades Judaicas - Livro XIX 7)
- Os últimos atos de Agripa e a sua morte em Cesareia, paralela ao relato de Atos 12:20 a 23 sobre a morte de Herodes — (Antiguidades Judaicas - Livro XIX 8)
- A situação após a morte de Agripa e o envio de Cuspio Fado como procurador da Judeia, já que Agripa, o jovem, era considerado novo e inexperiente demais para reinar — (Antiguidades Judaicas - Livro XIX 9)
A morte de Caio Calígula
A ascensão de Cláudio
Cláudio, os judeus e Agripa I
A morte de Agripa I e a sucessão
Fontes e Método
Diferente dos livros que recontam a Bíblia hebraica, aqui Josefo trabalha com material romano e contemporâneo. Para a morte de Calígula e a aclamação de Cláudio ele segue fontes greco-romanas bem informadas, possivelmente memórias ou relatos próximos dos conspiradores, que reproduz com detalhes de cena e diálogo. Para a parte judaica, sobre Agripa I e os édictos de Cláudio, mistura tradição familiar herodiana, documentos oficiais que cita por extenso e a sua própria leitura do reinado. O peso dado ao episódio romano é incomum numa história do povo judeu e reflete tanto o interesse do autor pela providência divina na queda dos tiranos quanto o seu desejo de mostrar o papel de um rei judeu na sucessão imperial.
A Morte de Agripa I e Atos 12
O fim do livro narra a morte de Agripa I em Cesareia, durante um espetáculo público, quando o rei aparece com uma veste resplandecente e é saudado como divindade pela multidão, adoecendo logo em seguida. O episódio tem paralelo em Atos 12:20 a 23, que descreve a morte de Herodes nos mesmos termos gerais, com a saudação da multidão como deus e a doença súbita. A maioria dos estudiosos considera os dois relatos independentes, com fontes distintas, o que reforça o valor histórico do núcleo do acontecimento. Josefo data a morte no sétimo ano de Cláudio, o que situa o evento em 44 d.C. As diferenças de detalhe, como a causa atribuída à morte, refletem os interesses de cada autor: Atos lê o episódio como juízo divino, Josefo como reviravolta do destino.
Manuscritos e Transmissão
O texto grego das Antiguidades sobrevive em manuscritos medievais. A edição crítica de referência é a de Benedikt Niese (1885 a 1895), apoiada sobretudo nos códices designados A, M e W. Para a segunda metade da obra, os melhores testemunhos são o Códice Palatino, dos séculos IX ou X, e o Ambrosiano, do século XI. No Ocidente latino circulou uma tradução feita em vinte e dois livros sob a direção de Cassiodoro, em meados do século VI, que moldou a recepção medieval. A tradução inglesa clássica, base da versão usada aqui, é a de William Whiston, de 1737.
Valor Histórico e Cautelas
O Livro XIX tem valor histórico alto justamente onde Josefo deixa de reescrever a Bíblia: o relato da morte de Calígula é a melhor fonte antiga sobre o golpe que pôs Cláudio no poder, e a morte de Agripa I fornece um ponto de contato externo e quase independente com o Novo Testamento. A leitura ainda exige cautela. Josefo dramatiza cenas, atribui motivos e enquadra os fatos numa moldura de providência divina sobre a queda dos tiranos. Os documentos que cita, como os édictos de Cláudio, são úteis mas chegam pela mão de um autor com agenda apologética. Ainda assim, para o início do principado de Cláudio e para o reinado de Agripa I, Josefo continua sendo a fonte central.