Antiguidades Judaicas - Livro XIX 1

Livro XIX: a morte de Calígula, Cláudio e Agripa I

Como Caio foi morto por Quéreas.

Caio não manifestou sua loucura apenas nas injúrias que infligiu aos judeus de Jerusalém e aos que viviam na vizinhança, mas deixou que ela se estendesse por toda a terra e por todos os mares, até onde alcançava o domínio dos romanos, e a encheu de incontáveis males. Foram tantos, de fato, que nenhuma história anterior registra coisa igual. A própria Roma sentiu os efeitos mais terríveis do que ele fez, pois ele não a considerava em nada mais digna de honra que as outras cidades. Maltratava e arrastava seus cidadãos, sobretudo os senadores, e em especial a nobreza e aqueles que tinham ancestrais ilustres. Tramava também incontáveis ardis contra os que pertenciam à ordem equestre, como era chamada, tidos pelos cidadãos como iguais aos senadores em dignidade e riqueza, que era dentre eles que se escolhiam os próprios senadores. A esses ele tratava de toda maneira humilhante e os eliminava do caminho: matava-os e saqueava sua riqueza, pois em geral matava os homens para se apoderar de seus bens. Afirmava ainda a própria divindade e exigia que seus súditos lhe prestassem honras maiores que as devidas a um ser humano. Frequentava também aquele templo de Júpiter a que chamam Capitólio, o mais sagrado de todos os seus templos, e teve a ousadia de se chamar irmão de Júpiter. E fez outras extravagâncias, como um louco. Por exemplo, lançou uma ponte da cidade de Dicearquia, que pertence à Campânia, até Miseno, outra cidade à beira-mar, de um promontório a outro, com a extensão de trinta estádios, medida sobre o mar. Fez isso porque achava enfadonho demais atravessar de barco a remo num pequeno navio, e julgava ainda que lhe convinha construir aquela ponte, pois era senhor do mar e podia obrigá-lo a dar provas de obediência tanto quanto a terra. Assim cercou toda a baía com sua ponte e conduziu sua biga por cima dela, julgando que, sendo um deus, lhe cabia viajar por estradas como aquela. Tampouco se absteve de saquear qualquer um dos templos gregos, e deu ordem para que todas as gravuras, esculturas e demais ornamentos das estátuas e das oferendas ali dedicadas lhe fossem trazidos, dizendo que "as melhores coisas não devem ficar em lugar nenhum a não ser no melhor lugar, e que a cidade de Roma era esse melhor lugar". Adornou também a própria casa e seus jardins com as preciosidades trazidas daqueles templos, junto com as residências em que se hospedava ao viajar por toda a Itália. Por isso não hesitou em ordenar que a estátua de Júpiter Olímpio, assim chamada porque era honrado pelos gregos nos jogos olímpicos, obra de Fídias, o ateniense, fosse levada a Roma. Mas não alcançou seu intento, porque os arquitetos disseram a Mêmio Régulo, encarregado de remover aquela estátua de Júpiter, que era de tal feitura que se arruinaria e não suportaria o transporte. Conta-se também que Mêmio, tanto por esse motivo como por causa de certos prodígios extraordinários de natureza incrível, adiou a retirada da estátua e escreveu a Caio esses relatos, como justificativa por não ter feito o que a carta dele exigia. E que, quando estava em perigo de morrer por isso, foi salvo pela própria morte de Caio, ocorrida antes que este o mandasse executar.
A loucura de Caio chegou a tal ponto que, ao nascer-lhe uma filha, ele a levou ao Capitólio, colocou-a sobre os joelhos da estátua e disse que a criança era comum a ele e a Júpiter, e determinou que ela tinha dois pais, mas deixou indefinido qual desses pais era o maior. E ainda assim a humanidade tolerava suas extravagâncias. Concedeu também aos escravos permissão para acusar seus senhores de quaisquer crimes que quisessem. Todas essas acusações eram aterríveis, porque em grande parte eram feitas para lhe agradar e por sugestão dele. A tal ponto que Pólux, escravo de Cláudio, teve a ousadia de apresentar uma acusação contra o próprio Cláudio, e Caio não se envergonhou de estar presente no julgamento de vida ou morte do próprio tio, na esperança de poder eliminá-lo. No entanto, isso não saiu como ele queria. Mas, depois de encher de falsas acusações e misérias todo o mundo habitado que governava, e de provocar as maiores afrontas dos escravos contra os senhores, que de fato em grande medida os dominavam, muitas tramas secretas passaram a ser urdidas contra ele. Algumas por ira e para que os homens se vingassem das misérias que tinham sofrido por causa dele; outras eram tentativas de eliminá-lo antes que caíssem em misérias tão grandes. Sua morte veio em ótima hora para a preservação das leis de todos os povos, e teve grande influência sobre o bem público; e isso aconteceu da maneira mais feliz para a nossa nação em particular, que quase teria perecido por completo se ele não tivesse sido morto de repente. Confesso que tenho vontade de dar um relato completo desse assunto, sobretudo porque ele oferecerá grande garantia do poder de Deus, grande consolo aos que estão sob aflições, e prudente advertência aos que pensam que sua felicidade nunca terá fim, nem os levará por fim às mais duradouras misérias, se não conduzirem a vida pelos princípios da virtude.
Houve três conspirações distintas para eliminar Caio, e cada uma das três foi conduzida por pessoas notáveis. Emílio Régulo, natural de Córduba, na Espanha, reuniu alguns homens e desejava eliminar Caio, fosse por meio deles, fosse por si mesmo. Outra conspiração foi armada sob a direção de Quéreas Cássio, o tribuno [da guarda pretoriana]. Minuciano Ânio também era figura de grande importância entre os que se preparavam para se opor à tirania dele. As várias razões do ódio e da conspiração desses homens contra Caio eram estas. Régulo tinha indignação e ódio contra toda injustiça, pois tinha um temperamento naturalmente irritado, audaz e franco, o que o levava a não esconder seus planos. Por isso os comunicou a muitos de seus amigos e a outros que lhe pareciam pessoas de ação e vigor. Minuciano entrou nessa conspiração por causa da injustiça feita a Lépido, seu amigo particular e um dos cidadãos de melhor caráter de todos, a quem Caio havia matado, e também porque temia por si mesmo, que a ira de Caio tendia a matar a todos por igual. Quanto a Quéreas, ele aderiu porque julgava que matar Caio era ato digno de um homem livre e nobre, e tinha vergonha das reprovações que sofria de Caio, como se fosse um covarde, e também porque ele próprio corria perigo todos os dias por causa de sua proximidade com Caio e da deferência que lhe prestava. Esses homens propuseram a tentativa a todos os demais envolvidos, que viam as injúrias que lhes eram feitas e desejavam que a morte de Caio fosse bem-sucedida pela assistência mútua de uns aos outros, e que eles próprios escapassem de ser mortos eliminando Caio. Talvez conseguissem seu objetivo, e seria coisa feliz, se o alcançassem, mostrar-se à altura de tantas pessoas notáveis que ardentemente desejavam tomar parte em seu plano, pela libertação da cidade e do governo, mesmo correndo risco de vida. Ainda assim, Quéreas era o mais zeloso de todos, tanto pelo desejo de ganhar para si o maior renome quanto porque tinha acesso à presença de Caio com menos perigo, por ser tribuno, e podia portanto matá-lo com mais facilidade.
Nessa época chegaram as corridas de cavalos [os jogos circenses]. O povo de Roma desejava ardentemente assistir a esses jogos, pois acorria com grande entusiasmo ao hipódromo [o Circo] nessas ocasiões, e em grandes multidões fazia petições a seus imperadores pelo que precisava. Estes em geral não achavam conveniente negar-lhes os pedidos, mas os atendiam de pronto e com agrado. Assim, pediram com a maior insistência que Caio aliviasse seus tributos e abrandasse um pouco o rigor dos impostos que lhes eram cobrados. Mas ele não suportou a petição, e quando o clamor aumentou, enviou soldados, uns para um lado, outros para outro, e deu ordem para que prendessem os que faziam o clamor e, sem mais demora, os levassem para fora e os matassem. Essas foram as ordens de Caio, e os encarregados as executaram. O número dos mortos nessa ocasião foi muito grande. O povo viu isso e suportou a ponto de parar de clamar, porque viu com os próprios olhos que aquela petição por alívio no pagamento do dinheiro lhes trazia a morte imediata. Essas coisas deixaram Quéreas mais decidido a prosseguir com seu plano, para pôr fim àquela barbárie de Caio contra os homens. Várias vezes pensou em atacar Caio, mesmo enquanto ele banqueteava. Mas se conteve por algumas considerações. Não que tivesse qualquer dúvida sobre matá-lo, mas estava à espera da ocasião adequada, para que a tentativa não fracassasse, e pudesse desferir o golpe de modo a garantir com certeza seu propósito.
Quéreas estava no exército havia muito tempo, mas não gostava de conviver tanto com Caio. Caio o havia incumbido de cobrar os tributos e outros encargos que, quando não pagos no prazo devido, eram confiscados para o tesouro de César, e ele demorava na cobrança, porque aqueles encargos tinham dobrado, e preferia ceder ao próprio temperamento brando a cumprir a ordem de Caio. Na verdade, provocava a ira de Caio por poupar os homens e se compadecer da sorte difícil daqueles de quem cobrava os impostos. E Caio o censurava por sua indolência e efeminação, por demorar tanto na arrecadação. De fato, não o ofendia nesses pontos: quando lhe dava a senha do dia, que devia ser entregue por causa de seu cargo, dava-lhe palavras femininas, e de natureza muito vexatória. E ele transmitia essas senhas como se tivesse sido iniciado nos segredos de certos mistérios, dos quais ele próprio era o autor. Embora às vezes vestisse roupas de mulher, se envolvesse em certas vestes bordadas próprias delas e fizesse muitas outras coisas para que a comitiva o confundisse com uma mulher, ainda assim, em tom de reprovação, atribuía a Quéreas comportamento igualmente afeminado. Quando Quéreas recebia dele a senha, ficava indignado, mas ficava ainda mais indignado ao entregá-la a outros, porque era alvo de riso dos que a recebiam. A tal ponto que seus colegas tribunos faziam dele motivo de zombaria, pois previam que ele lhes traria uma daquelas senhas costumeiras quando fosse receber a senha de César, e assim o tornavam ridículo. Por essas razões, ganhou coragem para tomar para si alguns parceiros, tendo justos motivos para sua indignação contra Caio. Havia um certo Pompédio, senador, que tinha passado por quase todos os cargos do governo, mas, por outro lado, era epicurista, e por isso gostava de levar uma vida inativa. Ora, Timídio, um inimigo dele, havia informado a Caio que ele usara reprovações indecentes contra ele, e apresentara Quintília como testemunha. Era uma mulher muito amada por muitos dos que frequentavam o teatro, e em especial por Pompédio, por causa de sua grande beleza. Essa mulher achou horrível confirmar uma acusação que ameaçava a vida de seu amado, e que também era mentira. Timídio, no entanto, queria levá-la à tortura. Caio se irritou com aquela ofensa contra ele e ordenou a Quéreas que, sem demora alguma, torturasse Quintília, pois costumava empregar Quéreas nesses assuntos sangrentos e nos que exigiam tortura, porque julgava que ele o faria de modo mais bárbaro, para evitar a acusação de efeminação que lhe havia imputado. Mas Quintília, ao ser levada ao instrumento de tortura, pisou no de um de seus companheiros e lhe deu a entender que tivesse bom ânimo e não temesse as consequências de suas torturas, pois ela as suportaria com grandeza de alma. Quéreas torturou essa mulher de maneira cruel, contra a vontade, é verdade, mas porque não tinha como evitar. Depois a levou, sem que ela demonstrasse o menor abalo pelo que sofrera, à presença de Caio, num estado triste de se ver. E Caio, um tanto comovido com a visão de Quintília, cujo corpo estava miseravelmente arruinado pelas dores que sofrera, absolveu tanto a ela quanto a Pompédio do crime que lhes era imputado. Deu-lhe também dinheiro, como reparação honrosa, para consolá-la pela mutilação do corpo que havia sofrido e por sua gloriosa paciência sob tormentos tão insuportáveis.
Isso afligiu profundamente Quéreas, por ter sido, na medida do possível, a causa ou o instrumento daquelas misérias infligidas a pessoas que pareciam dignas de consolo até ao próprio Caio. Por isso disse a Clemente e a Papínio, dos quais Clemente era general do exército e Papínio era tribuno: "Com certeza, ó Clemente, em nada falhamos em proteger o imperador. Pois quanto aos que conspiraram contra seu governo, alguns foram mortos por nosso cuidado e empenho, e outros foram por nós torturados, a tal ponto que ele próprio teve pena deles. Quão grande, então, é nossa virtude em nos submetermos a comandar seus exércitos?" Clemente ficou em silêncio, mas demonstrou a vergonha que sentia em obedecer às ordens de Caio, tanto pelos olhos quanto pelo rosto ruborizado, julgando que de modo algum era certo acusar o imperador com palavras explícitas, para que a própria segurança deles não corresse perigo. Diante disso, Quéreas ganhou coragem e falou com ele sem temer os perigos que tinha pela frente, e discorreu longamente sobre as duras calamidades sob as quais a cidade e o governo então padeciam, e disse: "Podemos de fato fingir em palavras que Caio é a pessoa a quem se deve atribuir a causa de tais misérias, mas, na opinião dos que sabem julgar com retidão, sou eu, ó Clemente, e este Papínio, e antes de nós você mesmo, que trazemos estas torturas sobre os romanos e sobre toda a humanidade. Não é por sermos subservientes às ordens de Caio que isso é feito, mas por nosso próprio consentimento. Pois, embora esteja em nosso poder pôr fim à vida deste homem, que tão terrivelmente prejudicou os cidadãos e os súditos, somos sua guarda no mal e seus executores, em vez de seus soldados, e somos os instrumentos de sua crueldade. Empunhamos estas armas não por nossa liberdade, não pelo governo romano, mas apenas pela preservação daquele que escravizou tanto os corpos quanto as mentes deles; e somos todos os dias maculados com o sangue que derramamos e com os tormentos que infligimos aos outros. E fazemos isso até que alguém se torne instrumento de Caio para trazer misérias semelhantes sobre nós mesmos. Tampouco ele nos emprega assim por nos ter afeição, mas antes por desconfiar de nós, e também porque, quando muitos mais tiverem sido mortos (pois Caio não porá limites à sua ira, que tudo o que visa fazer não é por respeito à justiça, mas por seu próprio prazer), também nós ficaremos expostos à sua crueldade. Ao passo que deveríamos ser o meio de garantir a segurança e a liberdade de todos, e ao mesmo tempo nos resolver a nos livrar dos perigos."
Diante disso, Clemente elogiou abertamente as intenções de Quéreas, mas pediu-lhe que se calasse, pois, caso suas palavras chegassem a muitos, e coisas que deviam ser ocultadas se espalhassem, a trama seria descoberta antes de ser executada, e eles seriam levados ao castigo. Disse que deviam deixar tudo ao futuro e à esperança que daí surgia, de que algum acontecimento favorável viesse em seu auxílio; que, quanto a ele, sua idade não lhe permitia fazer qualquer tentativa naquele caso. "No entanto, embora talvez eu pudesse sugerir algo mais seguro do que aquilo que você, Quéreas, planejou e disse, como seria possível alguém sugerir algo mais condizente com a sua reputação?" Assim Clemente foi para casa, com profundas reflexões sobre o que tinha ouvido e o que ele próprio dissera. Quéreas também estava apreensivo, e foi logo procurar Cornélio Sabino, que era ele mesmo um dos tribunos, e que ele sabia ser homem digno e amante da liberdade, e por isso muito incomodado com a atual condução dos negócios públicos. Quéreas desejava passar imediatamente à execução do que havia sido decidido, julgava certo propor o plano ao outro, e temia que Clemente os denunciasse, além de considerar que adiamentos e protelações eram quase um desistir do empreendimento.
Como tudo agradava a Sabino, que tinha exatamente o mesmo plano que Quéreas, mas se calara por falta de uma pessoa a quem pudesse comunicá-lo com segurança, agora que havia encontrado alguém que não prometia ocultar o que ouvisse, mas que lhe abrira a própria mente, ficou muito mais encorajado e pediu a Quéreas que não houvesse demora alguma. Assim foram procurar Minuciano, que era homem tão virtuoso e tão zeloso de feitos gloriosos quanto eles, e que era suspeito a Caio por causa da morte de Lépido. Pois Minuciano e Lépido eram amigos íntimos, e ambos temiam os perigos em que se encontravam. Caio era temível para todos os grandes homens, pois parecia pronto a agir como um louco contra cada um deles em particular e contra todos em geral; e esses homens temiam uns aos outros enquanto ainda se inquietavam com a situação dos negócios, mas evitavam declarar uns aos outros sua mente e seu ódio contra Caio, por medo dos perigos a que isso poderia expô-los. Ainda assim, por outros meios percebiam o ódio mútuo que tinham contra Caio, e por isso não eram avessos a uma afeição recíproca.
Quando Minuciano e Quéreas se encontraram e se saudaram (como tinham por costume, em conversas anteriores, dar a precedência a Minuciano, tanto por sua eminente dignidade, pois era o mais nobre de todos os cidadãos, quanto por ser muito elogiado por todos, sobretudo quando lhes fazia discursos), Minuciano começou primeiro e perguntou a Quéreas qual fora a senha que recebera de Caio naquele dia, pois a afronta que se fazia a Quéreas ao dar-lhe as senhas era notória em toda a cidade. Mas Quéreas não demorou nada a responder àquela pergunta, pela alegria de ver que Minuciano tinha nele tamanha confiança a ponto de conversar com ele. "Mas você", disse ele, "dê-me a senha da liberdade. E eu lhe agradeço por me ter encorajado tanto a me esforçar de maneira extraordinária; tampouco preciso de muitas palavras para me animar, que tanto você quanto eu somos da mesma opinião e partilhamos das mesmas resoluções, e isso antes mesmo de termos conversado. Tenho apenas uma espada cingida, mas esta única servirá a nós dois. Vamos, então, mãos à obra. você primeiro, se quiser, e mande-me seguir você. Ou então eu irei primeiro, e você me ajudará, e nos ajudaremos um ao outro, e confiaremos um no outro. Não necessidade nem mesmo de uma espada para quem tem a mente disposta a tais obras, mente pela qual a espada costuma ser bem-sucedida. Sou zeloso quanto a esta ação, nem me preocupo com o que eu mesmo possa sofrer, pois não tenho tempo para considerar os perigos que podem cair sobre mim, tão profundamente me aflige a escravidão sob a qual está agora nossa pátria, antes livre, e o desprezo lançado sobre nossas excelentes leis, e a destruição que paira sobre todos os homens por causa de Caio. Desejo ser julgado por você, e que você me considere digno de confiança nestes assuntos, que somos ambos da mesma opinião e não entre nós diferença alguma."
Quando Minuciano viu o ardor com que Quéreas se expressava, abraçou-o de bom grado e o encorajou em sua ousada tentativa, elogiando-o e abraçando-o; assim o deixou partir com seus bons votos. Alguns afirmam que, com isso, ele confirmou Minuciano no prosseguimento do que tinham combinado entre si. Pois, ao entrar Quéreas no tribunal, corre o relato de que uma voz veio do meio da multidão para encorajá-lo, mandando-o concluir o que estava prestes a fazer e aproveitar a oportunidade que a providência lhe oferecia; e que Quéreas a princípio suspeitou que algum dos conspiradores o tivesse traído e que ele fora descoberto, mas por fim percebeu que era uma exortação. Se foi alguém ciente do que ele tramava que deu um sinal para encorajá-lo, ou se foi o próprio Deus, que observa as ações dos homens, que o encorajou a prosseguir com ousadia em seu plano, é incerto. A trama fora comunicada a muitos, e todos estavam armados. Alguns dos conspiradores eram senadores, outros da ordem equestre, e havia tantos soldados quantos tinham sido informados. Pois não havia um sequer entre eles que não considerasse parte de sua felicidade matar Caio, e por isso todos eram muito zelosos no caso, por qualquer meio que alguém pudesse alcançá-lo, para que ninguém ficasse atrás nesses planos virtuosos, mas estivesse pronto, com todo o seu entusiasmo ou poder, tanto em palavras como em atos, a consumar essa morte de um tirano. Além desses, havia também Calisto, que era um liberto de Caio e o único homem que havia alcançado o mais alto grau de poder sob ele, um poder de fato quase igual ao do próprio tirano, pelo pavor que todos tinham dele e pelas grandes riquezas que acumulara. Pois recebia subornos em abundância, cometia injúrias sem limites e era mais extravagante no uso de seu poder em procedimentos injustos do que qualquer outro. Sabia também que a disposição de Caio era implacável e jamais se desviava do que tinha resolvido. Tinha, além disso, muitas outras razões para se julgar em perigo, e a imensidão de sua riqueza não era a menor delas. Por isso, em segredo, conquistou as boas graças de Cláudio e transferiu para ele sua bajulação, na esperança de que, caso, com a remoção de Caio, o governo viesse parar nas mãos de Cláudio, seu interesse em tais mudanças lhe servisse de base para preservar sua dignidade sob ele, que de antemão acumulava um estoque de mérito e prestava bons serviços à ascensão de Cláudio. Teve também a ousadia de alegar que fora persuadido a eliminar Cláudio envenenando-o, mas inventara incontáveis pretextos para adiar o feito. Mas parece-me provável que Calisto apenas fingiu isso para se insinuar nas boas graças de Cláudio. Pois, se Caio estivesse de fato resolvido a eliminar Cláudio, não teria admitido os pretextos de Calisto. Tampouco Calisto, se lhe tivesse sido ordenado fazer um ato como o desejado por Caio, o teria adiado, nem, se tivesse desobedecido a essas ordens de seu senhor, teria escapado de castigo imediato. Cláudio foi preservado da loucura de Caio por certa providência divina, e Calisto fingiu um mérito que de modo algum merecia.
No entanto, a execução dos planos de Quéreas era adiada de dia para dia, pela indolência de muitos dos envolvidos. Pois, quanto ao próprio Quéreas, ele não queria de bom grado adiamento algum naquela execução, achando que toda ocasião era ocasião adequada para ela. Pois muitas oportunidades se ofereciam. Como quando Caio subia ao Capitólio para sacrificar pela filha, ou quando ficava sobre o palácio real e atirava moedas de ouro e prata entre o povo: poderia ser empurrado de cabeça para baixo, porque o alto do palácio que para a praça do mercado era muito elevado; e também quando celebrava os mistérios que havia instituído naquela época. Pois então não ficava de modo algum afastado do povo, mas atento a fazer tudo com cuidado e decência, e estava livre de qualquer suspeita de que pudesse ser atacado por alguém. E ainda que os deuses não lhe concedessem auxílio divino algum que o habilitasse a tirar-lhe a vida, ele próprio tinha força suficiente para liquidar Caio, mesmo sem espada. Assim Quéreas se irritava com seus companheiros de conspiração, com medo de que deixassem passar uma oportunidade adequada. E eles próprios reconheciam que ele tinha justa razão para se irritar com eles e que seu ardor era para o bem deles. Ainda assim, pediam que tivesse um pouco mais de paciência, para que, diante de qualquer revés que pudessem encontrar, não lançassem a cidade em desordem, não se fizesse uma investigação sobre a conspiração, e não se frustrasse a coragem dos que iam atacar Caio, que então se protegeria deles com mais cuidado do que nunca. Que seria portanto melhor pôr mãos à obra quando os espetáculos fossem exibidos no palácio. Esses espetáculos eram encenados em honra daquele César que primeiro de todos transformou o governo popular e o transferiu para si. Levantadas galerias diante do palácio, onde os romanos patrícios assistiam, junto com seus filhos e suas esposas, e o próprio César também assistiria; e calculavam que, entre os muitos milhares que ali se aglomerariam num espaço estreito, teriam uma oportunidade favorável de fazer sua tentativa contra ele quando entrasse, porque a guarda que devia protegê-lo, ainda que algum deles quisesse, não poderia ali prestar-lhe nenhum auxílio.
Quéreas consentiu nesse adiamento. E quando os espetáculos foram exibidos, ficou resolvido fazer o trabalho no primeiro dia. Mas a fortuna, que permitiu um adiamento maior de sua morte, prevaleceu sobre a resolução anterior deles. E como se tinham passado três dias do período regular desses espetáculos, foi com muita dificuldade que conseguiram fazer o trabalho no último dia. Então Quéreas reuniu os conspiradores e lhes falou assim: "Tanto tempo passado sem resultado é uma vergonha para nós, por adiarmos a realização de um plano tão virtuoso como o em que estamos empenhados; mas mais fatal será este adiamento se formos descobertos e o plano for frustrado. Pois Caio se tornará então mais cruel em seus procedimentos injustos. Não vemos por quanto tempo privamos todos os nossos amigos da liberdade e damos a Caio licença para continuar a tiranizá-los, quando deveríamos ter-lhes garantido segurança para o futuro e, ao lançar uma base para a felicidade dos outros, conquistar para nós mesmos grande admiração e honra por todo o tempo vindouro?" Como os conspiradores não tivessem nada de aceitável a dizer para contestar, e ainda assim não apreciassem de todo o que faziam, mas permanecessem calados e atônitos, ele acrescentou: meus bravos companheiros, por que fazemos tanto adiamento? Não veem que este é o último dia destes espetáculos, e que Caio está prestes a embarcar? Pois ele se prepara para navegar até Alexandria, a fim de ver o Egito. É portanto digno de sua honra deixar escapar das mãos um homem que é uma vergonha para a humanidade, e permitir que ele parta de modo pomposo, triunfando por terra e mar? Não nos envergonharemos com justiça de nós mesmos se dermos licença a algum egípcio, que considere insuportáveis para homens livres as injúrias dele, para matá-lo? Quanto a mim, não suportarei mais a lentidão de vocês, mas me exporei aos perigos do empreendimento neste mesmo dia, e enfrentarei de bom ânimo quaisquer que sejam as consequências da tentativa. Por maiores que sejam, não as adiarei mais. Pois, para um homem sábio e corajoso, o que pode ser mais miserável do que, estando eu vivo, qualquer outro matar Caio e me privar da honra de uma ação tão virtuosa?"
Tendo Quéreas falado assim, lançou-se com zelo ao trabalho e inspirou coragem nos demais para prosseguir. E todos estavam ansiosos por agir sem mais demora. Assim ele estava no palácio de manhã, com a espada equestre cingida. Pois era costume que os tribunos pedissem a senha com a espada à cinta. E este era o dia em que Quéreas devia, por costume, receber a senha. A multidão tinha chegado ao palácio para ver os espetáculos a tempo, e em grandes aglomerações, uns tumultuosamente apertando os outros, enquanto Caio se deleitava com esse entusiasmo da multidão. Por isso não se observava ordem alguma na acomodação das pessoas, nem se designava lugar específico para os senadores ou para a ordem equestre, mas sentavam-se ao acaso, homens e mulheres juntos, e os homens livres misturados com os escravos. Caio saiu de maneira solene e ofereceu sacrifício a César Augusto, em cuja honra de fato esses espetáculos eram celebrados. Aconteceu então que, ao cair certo sacerdote, a veste de Asprenas, um senador, ficou cheia de sangue, o que fez Caio rir. Embora isso fosse um presságio evidente para Asprenas, pois ele foi morto ao mesmo tempo que Caio. Conta-se também que Caio, naquele dia, ao contrário de seu costume, estava tão afável e bem-humorado na conversa que todos os presentes ficaram espantados. Terminado o sacrifício, Caio foi assistir aos espetáculos e sentou-se para esse fim, assim como os principais de seus amigos se sentaram perto dele. As partes do teatro estavam montadas juntas, como se fazia todos os anos, da seguinte maneira. Tinha duas portas: uma dava para o ar livre; a outra servia para entrar ou sair dos pórticos, de modo que os que estavam dentro do teatro não fossem perturbados. Mas de uma das galerias ia uma passagem interna, também repartida em divisões, que levava a outra galeria, para dar espaço aos combatentes e aos músicos para saírem conforme a ocasião exigisse. Quando a multidão se sentou, e Quéreas, com os demais tribunos, também se sentou, e o canto direito do teatro foi reservado a César, um certo Vatínio, senador, comandante da guarda pretoriana, perguntou a Clúvio, que estava sentado ao seu lado e também era de dignidade consular, se ele tinha ouvido alguma novidade ou não, mas cuidou de que ninguém ouvisse o que dizia. E quando Clúvio respondeu que não tinha ouvido nenhuma novidade, Vatínio disse: "Saiba, então, que o jogo da matança de tiranos será encenado hoje." Mas Clúvio respondeu: bravo companheiro, cale-se, para que nenhum outro dos aqueus ouça sua história." E como houvesse abundância de frutos de outono atirados entre os espectadores, e um grande número de aves, de grande valor para quem as possuísse por causa de sua raridade, Caio se deliciou com as aves brigando pelos frutos e com a violência com que os espectadores se apoderavam delas. E ali ele percebeu dois prodígios que aconteceram. Pois foi introduzido um ator por quem um chefe de bandidos foi crucificado, e o pantomimo encenou uma peça chamada Cíniras, na qual ele próprio devia ser morto, assim como sua filha Mirra, e na qual muito sangue fictício foi derramado, tanto em torno do crucificado quanto em torno de Cíniras. Reconhece-se também que esse foi o mesmo dia em que Pausânias, amigo de Filipe, filho de Amintas, que era rei da Macedônia, o matou, quando ele entrava no teatro. E então Caio ficou em dúvida se devia ficar até o fim dos espetáculos, por ser o último dia, ou se não deveria ir primeiro ao banho e ao jantar, e depois voltar e sentar-se como antes. Diante disso, Minuciano, que estava sentado acima de Caio, e temia que a oportunidade lhes escapasse, levantou-se, porque viu que Quéreas tinha saído, e apressou-se a sair, para confirmá-lo em sua resolução. Mas Caio segurou-lhe a veste, de maneira gentil, e lhe disse: bravo homem, aonde você vai?" Diante disso, por reverência a César, ao que parece, ele sentou-se de novo, mas o medo prevaleceu sobre ele, e em pouco tempo levantou-se outra vez; e então Caio de modo algum se opôs à sua saída, julgando que ele saía para atender a alguma necessidade do corpo. E Asprenas, que era um dos conjurados, persuadiu Caio a sair para o banho e o jantar, e depois entrar de novo, desejoso de que o que fora resolvido fosse levado a uma conclusão imediata.
Assim os associados de Quéreas se posicionaram em ordem, conforme o tempo lhes permitia, e foram obrigados a se esforçar muito para não deixar o lugar que lhes fora designado. Mas tinham indignação com a tediosa demora, e com o fato de o que faziam ser adiado por mais tempo, pois era cerca da nona hora do dia; e Quéreas, diante da longa demora de Caio, teve grande vontade de entrar e atacá-lo em seu assento, embora previsse que isso não poderia ser feito sem muito derramamento de sangue, tanto dos senadores quanto dos da ordem equestre presentes. E embora soubesse que isso aconteceria, ainda assim teve grande vontade de fazê-lo, julgando ser coisa justa garantir segurança e liberdade a todos, à custa daqueles que pudessem perecer ao mesmo tempo. E quando estavam justamente voltando à entrada do teatro, trouxeram-lhes a notícia de que Caio tinha se levantado, com o que se fez um tumulto. Diante disso, os conspiradores afastaram a multidão, sob o pretexto de que Caio estava irritado com ela, mas na realidade desejosos de ter um lugar tranquilo, sem ninguém ali para defendê-lo, enquanto realizavam a morte de Caio. Cláudio, tio dele, tinha saído antes, e Marco Vinício, marido de sua irmã, assim como Valério da Ásia, a quem, embora tivessem tanta vontade de tirar de seus lugares, a reverência à dignidade deles os impediu de fazê-lo. Em seguida veio Caio, com Paulo Arrúncio. E como Caio estivesse dentro do palácio, deixou o caminho direto, ao longo do qual estavam seus servos de plantão, e por onde Cláudio tinha saído antes, e desviou para uma passagem estreita e privada, a fim de ir ao local do banho, e também para ver os meninos que tinham vindo da Ásia, enviados de em parte para cantar hinos nesses mistérios que então se celebravam, e em parte para dançar a dança pírrica nos teatros. Então Quéreas o encontrou e lhe pediu a senha. Ao dar-lhe Caio uma de suas palavras ridículas, ele imediatamente o censurou, sacou a espada e lhe desferiu um golpe terrível. No entanto, esse golpe não foi mortal. E embora haja quem diga que foi assim de propósito tramado por Quéreas, para que Caio não fosse morto com um único golpe, mas fosse punido com mais severidade por uma multidão de ferimentos, essa história me parece incrível. Porque o medo que os homens sentem em tais ações não lhes permite usar a razão. E se Quéreas era dessa opinião, eu o considero o maior dos tolos, por se comprazer com seu rancor contra Caio, em vez de imediatamente garantir segurança a si mesmo e a seus conjurados dos perigos em que estavam. Porque muitas coisas ainda poderiam acontecer para ajudar na fuga de Caio, se ele não tivesse entregado o espírito. Pois certamente Quéreas teria em conta, não tanto a punição de Caio, quanto a aflição em que ele próprio e seus amigos estavam, estando em seu poder, após tal sucesso, manter silêncio e escapar da ira dos defensores de Caio, e não deixar à incerteza se alcançaria ou não o fim a que visava, e agir de maneira insensata, como se quisesse arruinar-se e perder a oportunidade que estava diante dele. Mas qualquer um pode fazer suas conjecturas sobre esse assunto como quiser. De todo modo, Caio cambaleou com a dor que o golpe lhe deu, pois o golpe da espada, caindo no meio, entre o ombro e o pescoço, foi impedido pelo primeiro osso do peito de avançar mais. Tampouco gritou, de tão atônito que estava, nem chamou nenhum de seus amigos, fosse porque não confiava neles, fosse porque sua mente estava de outro modo perturbada; mas gemeu sob a dor que sofria, e logo seguiu em frente e fugiu. Foi quando Cornélio Sabino, que estava decidido a isso, derrubou-o de joelhos; ali muitos deles ficaram à sua volta e o feriram com suas espadas, e gritaram e encorajaram uns aos outros a golpeá-lo de novo, todos ao mesmo tempo. Mas todos concordam que Áquila lhe desferiu o golpe final, que diretamente o matou. No entanto, com justiça se pode atribuir esse ato a Quéreas. Pois, embora muitos tenham concorrido para o ato em si, foi ele o primeiro a tramá-lo, e começou muito antes de todos os outros a preparar-se para ele, e foi o primeiro homem a falar dele com ousadia aos demais. E, com a aceitação do que ele disse a respeito, reuniu os conspiradores dispersos, preparou tudo de maneira prudente e, sugerindo bons conselhos, mostrou-se muito superior aos demais, e lhes fazia discursos persuasivos, a ponto de até obrigar a prosseguir todos os que, de outro modo, não teriam coragem suficiente para isso; e quando a oportunidade serviu para usar a espada em punho, apareceu primeiro de todos pronto a fazê-lo, e desferiu o primeiro golpe nessa virtuosa matança; ele também entregou Caio facilmente ao poder dos demais, e quase o matou ele próprio. De modo que é justo atribuir tudo o que os outros fizeram ao conselho, à bravura e ao trabalho das mãos de Quéreas.
Assim Caio chegou ao seu fim e jazia morto, pelos muitos ferimentos que lhe tinham sido dados. Quéreas e seus associados, após a morte de Caio, viram que era impossível salvarem-se se todos seguissem pelo mesmo caminho, em parte por causa do espanto em que estavam, pois não era pequeno o perigo em que haviam incorrido ao matar um imperador que era honrado e amado pela loucura do povo, sobretudo quando os soldados provavelmente fariam uma sangrenta investigação atrás de seus assassinos. As passagens também eram estreitas, onde o trabalho fora feito, e estavam ainda apinhadas de uma grande multidão dos servidores de Caio e dos soldados que naquele dia compunham a guarda do imperador. Por isso seguiram por outros caminhos e chegaram à casa de Germânico, pai de Caio, a quem agora tinham matado. (Essa casa ficava junto ao palácio, pois, embora o edifício fosse um só, foi construído em suas várias partes por aqueles personagens que tinham sido imperadores, e essas partes levavam os nomes dos que as construíram, ou o nome de quem começara a construí-las.) Assim escaparam das afrontas da multidão e, por ora, ficaram fora de perigo, isto é, enquanto a desgraça que tinha atingido o imperador não fosse conhecida. Os germanos foram os primeiros a perceber que Caio estava morto. Esses germanos eram a guarda de Caio, e levavam o nome do país de onde tinham sido escolhidos, e compunham a legião céltica. Os homens daquele país são naturalmente impulsivos, o que costuma ser o temperamento de algumas outras nações bárbaras também, por não estarem acostumados a refletir muito sobre o que fazem. São de corpos robustos e caem sobre seus inimigos assim que são atacados por eles, e, por onde quer que passem, realizam grandes proezas. Quando, portanto, esses guardas germanos entenderam que Caio estava morto, ficaram muito tristes com isso, porque não usavam a razão para julgar os assuntos públicos, mas mediam tudo pelas vantagens que eles próprios recebiam. Caio era amado por eles por causa do dinheiro que lhes dava, com o qual havia comprado a afeição deles. Assim sacaram as espadas, e Sabino os conduziu. Era um dos tribunos, não pelos atos virtuosos de seus antepassados, pois tinha sido gladiador, mas obtivera aquele posto no exército por ter um corpo robusto. Assim esses germanos marcharam pelas casas em busca dos assassinos de César, e despedaçaram Asprenas, porque foi o primeiro homem com que toparam, e cuja veste foi a que o sangue dos sacrifícios manchou, como disse, e que previu que esse encontro dele com os soldados não seria para o seu bem. Em seguida Norbano os encontrou, que era um dos principais nobres da cidade e podia exibir muitos generais de exércitos entre seus antepassados. Mas eles não deram atenção alguma à sua dignidade. Ainda assim, ele era de tão grande força que arrancou das mãos a espada do primeiro dos que o atacaram, e mostrou claramente que não estava disposto a morrer sem lutar pela vida, até ser cercado por um grande número de agressores, e morrer pela multidão de ferimentos que lhe deram. O terceiro homem foi Anteio, um senador, e uns poucos outros com ele. Ele não topou com esses germanos por acaso, como os outros antes dele, mas tinha vindo mostrar seu ódio a Caio, e porque gostava de ver Caio morto com os próprios olhos, e tinha prazer naquela visão. Pois Caio havia banido o pai de Anteio, que tinha o mesmo nome dele, e, não satisfeito com isso, enviou seus soldados e o matou. Por isso tinha vindo regozijar-se ao vê-lo agora morto. Mas, como a casa estava agora toda em tumulto, quando tentava esconder-se, não conseguiu escapar à minuciosa busca que os germanos fizeram, enquanto barbaramente matavam os culpados e os inocentes, e isso igualmente. E assim foram mortas essas [três] pessoas.
Mas, quando o rumor de que Caio estava morto chegou ao teatro, ficaram atônitos com isso e não conseguiam acreditar. Mesmo alguns que receberam a notícia de sua destruição com grande prazer, e desejavam que ela acontecesse mais do que quase qualquer outra satisfação que pudesse lhes vir, estavam sob tal medo que não conseguiam acreditar. Havia também os que desconfiavam muito, porque não queriam que coisa semelhante acontecesse a Caio, nem conseguiam acreditar, por mais verdadeira que fosse, porque pensavam que ninguém poderia ter tanto poder a ponto de matar Caio. Eram as mulheres, as crianças, os escravos e parte da soldadesca. Esse último grupo tinha recebido o soldo dele e, de certa forma, tiranizava junto com ele, e havia maltratado os melhores dos cidadãos ao se fazer subserviente a suas ordens injustas, a fim de ganhar honras e vantagens para si. Mas, quanto às mulheres e aos jovens, tinham sido seduzidos pelos espetáculos, pelos combates de gladiadores e por certas distribuições de carne entre eles, coisas que, no pretexto, se destinavam a agradar a multidão, mas na realidade a saciar a bárbara crueldade e loucura de Caio. Os escravos também estavam tristes, porque Caio lhes permitia acusar e desprezar seus senhores, e podiam recorrer à ajuda dele quando os tivessem injustamente afrontado. Pois ele acreditava neles com muita facilidade contra os senhores, mesmo quando os acusavam falsamente; e, se revelassem quanto dinheiro seus senhores tinham, poderiam logo obter tanto riquezas quanto liberdade, como recompensa de suas acusações, porque a recompensa desses delatores era a oitava parte dos bens do acusado. Quanto aos nobres, embora a notícia parecesse crível a alguns deles, fosse porque sabiam da trama de antemão, fosse porque desejavam que fosse verdade, ainda assim eles ocultavam não a alegria que tinham com o relato, mas até o fato de terem ouvido algo a respeito. Estes últimos agiam assim por medo de que, se a notícia se revelasse falsa, fossem punidos por terem deixado tão cedo os homens conhecerem seus pensamentos. Mas os que sabiam que Caio estava morto, por serem cúmplices dos conspiradores, ocultavam tudo com ainda mais cautela, por não conhecerem os pensamentos uns dos outros e por temerem que falassem disso a alguém para quem a continuidade da tirania fosse vantajosa. E, se Caio se revelasse vivo, poderiam ser denunciados e punidos. E corria outro boato, de que, embora Caio tivesse de fato sido ferido, não estava morto, mas ainda vivo e sob os cuidados dos médicos. Tampouco alguém era considerado por outro confiável o bastante para receber confidência, e a quem qualquer um abrisse a mente. Pois ou era amigo de Caio, e portanto suspeito de favorecer sua tirania, ou era alguém que o odiava, que portanto podia ser suspeito de merecer menos crédito, por causa de sua vontade para com ele. Aliás, alguns diziam (e foi isso de fato que privou a nobreza de suas esperanças e a deixou triste) que Caio estava em condições de desprezar os perigos por que passara, e não cuidava de tratar seus ferimentos, mas tinha saído para a praça do mercado e, ensanguentado como estava, fazia um discurso ao povo. E esses eram os relatos conjecturais dos que eram tão insensatos a ponto de tentar provocar tumultos, que eles distorciam de maneiras diferentes, conforme as opiniões dos ouvintes. Ainda assim, não deixavam seus lugares, por medo de serem acusados, caso saíssem antes dos demais. Pois não seriam julgados conforme a real intenção com que saíssem, mas conforme as suposições dos acusadores e dos juízes.
Mas, agora que uma multidão de germanos havia cercado o teatro, com as espadas desembainhadas, todos os espectadores não esperavam senão a morte; e, à entrada de cada um, um medo se apoderava deles, como se fossem cortados em pedaços imediatamente. E em grande aflição estavam, pois nem tinham coragem suficiente para sair do teatro, nem se julgavam a salvo dos perigos se ali permanecessem. E quando os germanos avançaram sobre eles, o clamor foi tão grande que o teatro ressoou outra vez com as súplicas dos espectadores aos soldados, alegando que ignoravam por completo tudo o que se relacionava com tais tramas sediciosas, e que, se houve alguma sedição provocada, nada sabiam dela. Por isso suplicavam que os poupassem e não punissem os que não tinham a menor participação em crimes tão ousados, próprios de outras pessoas, enquanto deixavam de procurar os que realmente tinham feito o que quer que fosse que se tinha feito. Assim aquelas pessoas apelavam a Deus e lamentavam sua desgraça, derramando lágrimas e batendo nos próprios rostos, e diziam tudo o que o mais iminente perigo e a maior preocupação por suas vidas lhes podiam ditar. Isso quebrou a fúria dos soldados e os fez arrepender-se do que pretendiam fazer aos espectadores, o que teria sido o maior exemplo de crueldade. E assim pareceu até a esses selvagens, depois que fixaram no altar as cabeças dos que tinham sido mortos com Asprenas. Diante dessa visão, os espectadores ficaram profundamente aflitos, tanto pela consideração da dignidade dessas pessoas quanto pela comiseração de seus sofrimentos. Aliás, estavam quase em tão grande desordem diante da perspectiva do perigo em que eles próprios estavam, vendo que ainda era incerto se escapariam por completo de calamidade semelhante. Por isso, os que com razão odiavam Caio do fundo do coração não conseguiam, ainda assim, desfrutar de modo algum o prazer de sua morte, porque estavam eles mesmos em risco de perecer junto com ele. Tampouco tinham até então qualquer firme garantia de sobreviver.
Havia naquela época um certo Evaristo Arrúncio, pregoeiro público no mercado, e portanto de voz forte e audível, que rivalizava em riqueza com os mais ricos dos romanos, e podia fazer o que quisesse na cidade, tanto então como depois. Esse homem vestiu o traje mais fúnebre que pôde, embora tivesse maior ódio contra Caio do que qualquer outro; seu medo e sua sábia estratégia para garantir a própria segurança lhe ensinaram a agir assim, e prevaleceram sobre seu prazer presente. Assim vestiu um traje de luto como teria feito se tivesse perdido os amigos mais queridos do mundo. Esse homem entrou no teatro e os informou da morte de Caio, e por esse meio pôs fim ao estado de ignorância em que os homens estavam. Arrúncio também percorreu as colunas e chamou os germanos, assim como os tribunos com ele, mandando que embainhassem as espadas e dizendo-lhes que Caio estava morto. E foi claramente essa proclamação que salvou os que estavam reunidos no teatro, e todos os demais que de algum modo encontraram os germanos. Pois, enquanto tinham esperanças de que Caio ainda tivesse algum sopro de vida, não se abstinham de nenhuma espécie de maldade. E tinham ainda tão abundante afeição por Caio que de boa vontade teriam impedido a trama contra ele e teriam garantido sua fuga de tão triste desgraça, à custa das próprias vidas. Mas agora abandonaram o ardente zelo que tinham de punir os inimigos dele, agora que estavam plenamente convencidos de que Caio estava morto, porque agora era inútil mostrar seu zelo e afeição por ele, quando perecera aquele que devia recompensá-los. Tinham também medo de serem punidos pelo senado se continuassem a cometer tais injúrias, isto é, caso a autoridade do governante supremo voltasse às mãos do senado. E assim, por fim, embora não sem dificuldade, pôs-se um freio àquela raiva que possuía os germanos por causa da morte de Caio.
Mas Quéreas tinha tanto medo por Minuciano, com receio de que ele caísse nas mãos dos germanos, agora que estavam furiosos, que foi falar com cada um dos soldados e lhes pediu que cuidassem da preservação dele, e fez ele próprio grande indagação sobre ele, com medo de que tivesse sido morto. E quanto a Clemente, ele deixou Minuciano ir quando este lhe foi levado, e, com muitos outros senadores, afirmou que a ação fora justa, e elogiou a virtude dos que a tramaram e tiveram coragem suficiente para executá-la, e disse que os tiranos de fato se comprazem e se enchem de soberba por algum tempo, por terem o poder de agir injustamente, mas não saem felizes do mundo, porque são odiados pelos virtuosos. E que Caio, junto com toda essa infelicidade, tinha se tornado conspirador contra si mesmo, antes destes outros homens que o atacaram, e que, ao tornar-se intolerável, ao pôr de lado a sábia providência que as leis tinham estabelecido, ensinou seus amigos mais queridos a tratá-lo como inimigo. De modo que, embora na conversa comum esses conspiradores fossem os que mataram Caio, na realidade ele jaz agora morto, perecendo por sua própria mão.
A essa altura o povo no teatro se havia levantado de seus assentos, e os que estavam dentro provocaram uma grande agitação. A causa disso foi que os espectadores estavam apressados demais para sair. Havia também um certo Alcíon, médico, que saiu às pressas, como que para curar os feridos, e sob esse pretexto enviou os que estavam com ele a buscar as coisas necessárias para tratar aqueles feridos, mas na realidade para livrá-los dos perigos presentes em que estavam. Nesse intervalo, o senado se reunira, e o povo também se juntara no fórum de costume, e ambos estavam ocupados em procurar os assassinos de Caio. O povo o fazia com muito zelo, mas o senado na aparência. Pois estava presente Valério da Ásia, que tinha sido cônsul. Esse homem foi até o povo, que estava em desordem e muito incomodado por ainda não conseguir descobrir quem eram os que tinham assassinado o imperador. Foi então instado por todos a dizer quem tinha feito aquilo, e respondeu: "Quem dera eu tivesse sido o homem." Os cônsules também publicaram um edito em que acusavam Caio, e deram ordem ao povo então reunido, e aos soldados, para irem para casa, e deram ao povo esperanças de que se abrandassem as opressões sob as quais padeciam, e prometeram aos soldados, se ficassem quietos, como costumavam, e não saíssem a fazer maldades injustamente, que lhes concederiam recompensas. Pois havia razão para temer que a cidade sofresse dano por seu comportamento selvagem e incontrolável, caso uma vez se entregassem a saquear os cidadãos ou pilhar os templos. E agora toda a multidão dos senadores estava reunida, e especialmente os que tinham conspirado para tirar a vida de Caio, que naquele momento assumiam um ar de grande segurança e apareciam com grande grandeza de alma, como se a administração dos negócios públicos lhes estivesse confiada.