Antiguidades Judaicas - Livro XIX 4
Livro XIX: a morte de Calígula, Cláudio e Agripa I
O que o rei Agripa fez por Cláudio, e como Cláudio, depois de assumir o governo, ordenou que os assassinos de Caio fossem mortos.
Cláudio percebia bem o modo insolente com que o senado tinha enviado mensagem a ele, mas, por ora, conforme o conselho que recebera, comportou-se com moderação. Mas não a ponto de não conseguir se recuperar do susto. Foi encorajado [a reivindicar o governo] em parte pela ousadia dos soldados e em parte pela persuasão do rei Agripa, que o exortou a não deixar escapar das mãos um poder daquele tamanho, já que ele chegava assim, por conta própria. Quanto a Caio, Agripa fez o que cabia a alguém que tinha sido tão honrado por ele. Abraçou o corpo de Caio depois de morto, deitou-o sobre um leito, cobriu-o da melhor forma que pôde e saiu até a guarda, dizendo que Caio ainda estava vivo. Disse também que deviam chamar médicos, pois ele estava muito mal por causa dos ferimentos. Mas quando soube que Cláudio tinha sido arrastado à força pelos soldados, abriu caminho pela multidão até ele. Ao encontrá-lo abalado e prestes a entregar o governo ao senado, Agripa o encorajou e pediu que mantivesse o poder. Depois de dizer isso a Cláudio, voltou para casa. E quando o senado mandou chamá-lo, ele untou a cabeça com óleo, como se tivesse acabado de estar com a esposa e a dispensado, e só então foi até eles. Perguntou aos senadores o que Cláudio estava fazendo. Eles lhe contaram a situação do momento e em seguida pediram sua opinião sobre a organização do Estado. Em palavras, Agripa disse que estava pronto a perder a vida pela honra do senado, mas pediu que considerassem o que era vantajoso para eles, sem se preocupar com o que lhes fosse mais agradável. Pois quem aspira ao governo vai precisar de armas e de soldados para guardá-los, a menos que queira assumir sem nenhum preparo e assim cair em perigo. E quando o senado respondeu que traria armas em abundância e dinheiro, e que, quanto a um exército, parte dele já estava reunida para eles, e que levantariam um maior libertando os escravos, Agripa respondeu: "Senadores, oxalá vocês consigam o que pretendem. Mesmo assim, vou dizer logo o que penso, porque visa à preservação de vocês. Saibam então que o exército que vai lutar por Cláudio está há muito tempo treinado em assuntos de guerra, mas o nosso exército não vai passar de uma multidão tosca de homens crus, e ainda por cima de gente libertada de repente da escravidão e indisciplinada. Teremos então que lutar contra quem é hábil na guerra usando homens que nem ao menos sabem desembainhar a espada. Por isso a minha opinião é que enviemos algumas pessoas a Cláudio para convencê-lo a depor o governo, e estou pronto a ser um dos seus embaixadores."
Diante desse discurso de Agripa, o senado concordou com ele. Agripa foi enviado entre outros e, em segredo, informou Cláudio da desordem em que o senado se encontrava, dando-lhe instruções para responder em tom um tanto autoritário, como alguém investido de dignidade e autoridade. Assim, Cláudio disse aos embaixadores que não se espantava que o senado não quisesse ter um imperador sobre eles, pois tinham sido maltratados pela brutalidade de quem antes estivera à frente dos assuntos públicos. Mas que sob ele eles experimentariam um governo justo e tempos moderados, sendo ele governante apenas no nome, enquanto a autoridade seria igualmente comum a todos. E como ele tinha passado por muitas e variadas situações da vida diante dos olhos deles, seria bom que não desconfiassem dele. Os embaixadores, ao ouvir essa resposta, foram dispensados. Cláudio então falou com o exército que ali estava reunido, e os soldados juraram que permaneceriam fiéis a ele. Diante disso, ele deu a cada homem da guarda cinco mil dracmas e uma quantia proporcional aos seus comandantes, e prometeu dar o mesmo ao resto dos exércitos, onde quer que estivessem.
E então os cônsules convocaram o senado ao templo de Júpiter, o vencedor, enquanto ainda era noite. Mas alguns daqueles senadores se esconderam na cidade, sem saber o que fazer ao ouvir essa convocação, e outros saíram da cidade para suas próprias propriedades, prevendo aonde os assuntos públicos estavam indo e desesperando da liberdade. Aliás, esses achavam muito melhor ser escravos sem risco para si e viver uma vida preguiçosa e inativa do que, ao reivindicar a dignidade de seus antepassados, arriscar a própria segurança. Mesmo assim, cem deles, e não mais que isso, se reuniram. E enquanto deliberavam sobre a situação do momento, ergueu-se de repente um clamor dos soldados que estavam do lado deles, pedindo que o senado escolhesse para eles um imperador e não levasse o governo à ruína instituindo uma multidão de governantes. Assim, os soldados declararam abertamente que eram a favor de entregar o governo não a todos, mas a um só, embora dessem ao senado a permissão de procurar uma pessoa digna de ser posta sobre eles. De modo que agora a situação do senado estava muito pior do que antes, porque eles não só tinham fracassado na recuperação da liberdade da qual se gabavam, como também estavam com medo de Cláudio. Mesmo assim havia os que cobiçavam o governo, tanto pela dignidade de suas famílias quanto pela que lhes vinha de seus casamentos. Pois Marco Miniciano era ilustre, tanto por sua própria nobreza quanto por ter se casado com Júlia, a irmã de Caio, e por isso estava muito disposto a reivindicar o governo. No entanto, os cônsules o desencorajavam e iam adiando uma proposta após a outra. Esse Miniciano, que também era um dos assassinos de Caio, conteve Valério da Ásia de cogitar tais coisas. E teria havido uma matança descomunal se a esses homens fosse dada permissão de se candidatar e se opor a Cláudio. Havia também um número considerável de gladiadores, além dos soldados que faziam a guarda noturna da cidade e de remadores de navios, que correram todos para o acampamento. De modo que, dos que disputavam o governo, alguns abandonaram suas pretensões para poupar a cidade, e outros por medo por suas próprias pessoas.
Mas assim que amanheceu, Quéreas e os que estavam com ele entraram no senado e tentaram fazer discursos aos soldados. Mas a massa daqueles soldados, ao ver que eles faziam sinais com as mãos pedindo silêncio e estavam prestes a começar a falar, ficou tumultuada e não deixou que falassem de jeito nenhum, porque estavam todos empenhados em ficar sob uma monarquia. E exigiram do senado alguém para governá-los, não suportando mais adiamentos. Mas o senado hesitava entre governar por si mesmo ou como eles próprios seriam governados, enquanto os soldados não admitiam que eles governassem, e os assassinos de Caio não permitiam que os soldados ditassem ordens a eles. Nessas circunstâncias, Quéreas não conseguiu conter a raiva que sentia e prometeu que, se eles queriam um imperador, ele daria um, contanto que alguém lhe trouxesse a senha de Eutico. Esse Eutico era condutor de carro da facção da banda verde, chamada Prasina, e grande amigo de Caio, que costumava atormentar a tropa fazendo-a construir estábulos para os cavalos, e passava o tempo em trabalhos vergonhosos. Foi isso que levou Quéreas a censurar os soldados por causa dele e a insultá-los com muita outra linguagem grosseira, dizendo que lhes traria a cabeça de Cláudio. E que era uma coisa espantosa que, depois da loucura anterior deles, fossem confiar o governo a um tolo. Mesmo assim eles não se comoveram com suas palavras, mas sacaram as espadas, ergueram seus estandartes e foram até Cláudio para se juntar ao juramento de fidelidade a ele. Assim o senado ficou sem ninguém para defendê-lo, e os próprios cônsules em nada diferiam de pessoas comuns. Estavam também tomados de consternação e tristeza, sem saber o que seria deles, porque Cláudio estava muito irritado com eles. Então começaram a se censurar uns aos outros e a se arrepender do que tinham feito. Nesse momento Sabino, um dos assassinos de Caio, ameaçou que preferiria vir para o meio deles e se matar a consentir em fazer Cláudio imperador e ver a escravidão voltar sobre eles. Insultou também Quéreas por amar demais a própria vida, ele que, tendo sido o primeiro no desprezo a Caio, podia achar bom continuar vivo quando, mesmo com tudo o que tinham feito para recuperar a liberdade, descobriam que era impossível consegui-la. Mas Quéreas disse que não tinha dúvida nenhuma sobre se matar, mas que antes sondaria as intenções de Cláudio.
Esses eram os debates [sobre o senado]. Mas no acampamento todos se acotovelavam por toda parte para prestar homenagem a Cláudio. E o outro cônsul, Quinto Pompônio, foi censurado pela tropa por ter, antes, exortado o senado a recuperar a liberdade. Diante disso, os soldados sacaram as espadas e iam atacá-lo, e o teriam feito se Cláudio não os tivesse impedido. Ele arrancou o cônsul do perigo em que estava e o colocou ao seu lado. Mas não recebeu com a mesma honra a parte do senado que estava com Quinto. Aliás, alguns deles levaram golpes e foram empurrados ao se aproximar para saudar Cláudio. Apônio chegou a sair ferido, e todos correram perigo. Mesmo assim, o rei Agripa foi até Cláudio e pediu que tratasse os senadores com mais brandura, pois, se algum mal acontecesse ao senado, ele não teria mais ninguém sobre quem governar. Cláudio concordou com ele e convocou o senado ao palácio, sendo ele próprio conduzido para lá através da cidade, escoltado pela tropa, embora isso fosse uma grande contrariedade para a multidão. Pois Quéreas e Sabino, dois dos assassinos de Caio, iam à frente deles, abertamente, quando Pólio, que Cláudio pouco antes tinha feito comandante da sua guarda, lhes enviara um édito por carta proibindo-os de aparecer em público. Então, ao chegar ao palácio, Cláudio reuniu seus amigos e pediu o parecer deles sobre Quéreas. Eles disseram que a obra que ele tinha feito era gloriosa, mas o acusaram de traição por tê-la feito, e julgaram justo aplicar a ele a pena [de morte], para desencorajar ações desse tipo dali em diante. Assim Quéreas foi levado à execução, e com ele Lupo e muitos outros romanos. Conta-se que Quéreas suportou essa desgraça com coragem, e isso não só pela firmeza do seu próprio comportamento diante dela, mas pelas censuras que dirigiu a Lupo, que caiu em lágrimas. Pois quando Lupo pôs de lado a roupa e se queixou do frio, Quéreas disse que o frio nunca fora prejudicial a Lupo [ou seja, a um lobo]. E como muitos homens os acompanhavam para ver a cena, quando Quéreas chegou ao lugar, perguntou ao soldado que seria o executor deles se aquele ofício era algo a que estava acostumado, ou se era a primeira vez que usava a espada daquele jeito, e pediu que lhe trouxesse exatamente aquela espada com a qual ele próprio tinha matado Caio. Assim ele foi morto com sorte, de um só golpe. Mas Lupo não teve a mesma boa fortuna ao deixar o mundo, pois era medroso e recebeu muitos golpes no pescoço, porque não o esticou com firmeza [como devia ter feito].
Poucos dias depois disso, quando as solenidades em honra dos mortos estavam próximas, a multidão romana fez suas oferendas habituais aos seus diversos espíritos e lançou porções ao fogo em honra de Quéreas, suplicando que ele fosse clemente com eles e não mantivesse sua ira contra eles por causa da ingratidão que tinham mostrado. E foi assim que terminou a vida a que Quéreas chegou. Quanto a Sabino, embora Cláudio não só o tenha posto em liberdade como também lhe tenha permitido manter o comando anterior no exército, ainda assim ele achou que seria injusto de sua parte deixar de cumprir suas obrigações para com os companheiros de conspiração. Por isso lançou-se sobre a própria espada e se matou, com o ferimento chegando até o punho da espada.