Antiguidades Judaicas - Livro XIX 9
Livro XIX: a morte de Calígula, Cláudio e Agripa I
O que aconteceu depois da morte de Agripa, e como Cláudio, por causa da juventude e da inexperiência de Agripa, o jovem, enviou Cuspio Fado como procurador da Judeia e de todo aquele reino.
Foi assim que o rei Agripa partiu desta vida. Ele deixou um filho, também chamado Agripa, um rapaz de dezessete anos, e três filhas. Uma delas, Berenice, era casada com Herodes, irmão de seu pai, e tinha dezesseis anos. As outras duas, Mariane e Drusila, ainda eram virgens: Mariane tinha dez anos e Drusila, seis. O próprio pai havia arranjado os casamentos dessas filhas: Mariane com Júlio Arquelau Epifânio, filho de Antíoco, filho de Quélcias, e Drusila com o rei de Comagena. Mas, quando se soube que Agripa havia partido desta vida, os habitantes de Cesareia e de Sebaste esqueceram as bondades que ele lhes tinha feito e agiram como os mais ferozes inimigos. Lançaram contra o morto insultos que nem convém repetir. E os muitos deles que eram soldados, que formavam um grande número, foram até a casa dele, retiraram às pressas as estátuas das filhas do rei e as levaram todas de uma vez para os bordéis. Colocaram as estátuas no alto daqueles prédios e as ultrajaram com toda a violência de que eram capazes, fazendo com elas coisas indecentes demais para serem narradas. Também se deitavam em lugares públicos e promoviam banquetes gerais, com guirlandas na cabeça, com perfumes e libações a Caronte, brindando uns aos outros de tanta alegria por o rei ter morrido. Não bastasse a ingratidão para com Agripa, que lhes havia estendido sua generosidade em abundância, também esqueceram o avô dele, Herodes, que tinha reconstruído as cidades deles e lhes erguera portos e templos a custos enormes.
Ora, Agripa, o filho do falecido, estava em Roma, criado junto de Cláudio César. Quando César foi informado de que Agripa havia morrido e de que os habitantes de Sebaste e de Cesareia o tinham ultrajado, lamentou a primeira notícia e ficou indignado com a ingratidão daquelas cidades. Estava, portanto, disposto a enviar de imediato o jovem Agripa para suceder ao pai no reino, e queria confirmá-lo nele sob juramento. Mas os libertos e amigos que tinham maior influência sobre ele o demoveram, dizendo: "É um experimento perigoso permitir que um reino tão grande passe ao governo de um homem tão jovem, que mal chegou à idade do discernimento e não será capaz de cuidar de sua administração, já que o peso de um reino é grande demais até para um homem adulto." César considerou razoável o que diziam. Por isso enviou Cuspio Fado como procurador da Judeia e de todo o reino, e prestou ao falecido a deferência de não introduzir em seu reino Marco, que tinha desavenças com ele. Mas decidiu, em primeiro lugar, enviar ordens a Fado para que castigasse os habitantes de Cesareia e de Sebaste pelos ultrajes que tinham feito ao morto e pela loucura cometida contra as filhas dele, que ainda viviam, e para que removesse o corpo de soldados que estava em Cesareia e Sebaste, junto com os cinco regimentos, levando-os ao Ponto, onde cumpririam seu serviço militar, e escolhesse igual número de soldados das legiões romanas que estavam na Síria para ocupar o lugar deles. Ainda assim, os que receberam tais ordens não chegaram a ser removidos, pois, enviando embaixadores a Cláudio, conseguiram abrandá-lo e obtiveram permissão para continuar na Judeia. E foram justamente esses homens que se tornaram a origem de grandes calamidades para os judeus nos tempos seguintes e semearam as sementes daquela guerra que começou sob Floro. Por isso, quando Vespasiano subjugou o país, ele os removeu de sua província, como vamos relatar adiante.