Antiguidades Judaicas - Livro XIX 8
Livro XIX: a morte de Calígula, Cláudio e Agripa I
Outros atos realizados por Agripa até sua morte, e de que maneira ele morreu.
Depois que Agripa concluiu em Berito o que relatei acima, mudou-se para Tiberíades, uma cidade da Galileia. Ele gozava de grande prestígio entre os outros reis. Por isso vieram visitá-lo Antíoco, rei de Comagena; Sampsigeramo, rei de Emesa; Cótis, que era rei da Armênia Menor; Polemão, que era rei do Ponto; e também seu irmão Herodes, que era rei de Cálcis. A todos eles ofereceu recepções agradáveis e tratou de modo gentil, demonstrando a grandeza de seu espírito e mostrando-se digno do respeito que aqueles reis lhe prestavam ao virem visitá-lo. No entanto, enquanto esses reis estavam com ele, chegou Marco, o governador da Síria. Para preservar o respeito devido aos romanos, o rei saiu da cidade ao seu encontro, percorrendo cerca de sete estádios. Mas isso acabou sendo o início de um desentendimento entre ele e Marco, pois Agripa levou em sua carruagem aqueles outros reis, como conselheiros. Marco desconfiou do que significaria uma amizade tão grande entre esses reis, e não considerou que um acordo tão estreito entre tantos soberanos fosse do interesse dos romanos. Por isso enviou alguns de seus servos a cada um deles e ordenou que voltassem para casa sem mais demora. Agripa levou isso muito a mal e, a partir de então, tornou-se inimigo de Marco. Nessa época Agripa tirou o sumo sacerdócio de Matias e colocou em seu lugar Elioneu, filho de Cânteras, como sumo sacerdote.
Quando Agripa já reinava havia três anos sobre toda a Judeia, foi à cidade de Cesareia, que antes se chamava Torre de Estratão. Ali ofereceu espetáculos em honra de César, ao saber que se celebrava certo festival para fazer votos pela segurança do imperador. Para esse festival reuniu-se uma grande multidão de pessoas importantes e de homens de destaque de toda a província. No segundo dia dos espetáculos, ele vestiu uma roupa feita inteiramente de prata, de uma trama verdadeiramente admirável, e entrou no teatro de manhã cedo. Nesse momento a prata de sua roupa, iluminada pelo reflexo intenso dos raios do sol, brilhou de modo surpreendente, com um esplendor que provocava espanto em quem o olhava com atenção. E logo seus aduladores começaram a gritar, um de um lado, outro de outro (embora isso não fosse para o bem dele), que "ele era um deus". E acrescentaram: "Seja misericordioso conosco. Pois, embora até agora o tenhamos reverenciado apenas como homem, daqui em diante o reconheceremos como superior à natureza mortal." Diante disso, o rei nem os repreendeu nem rejeitou aquela adulação ímpia. Mas, ao olhar para cima logo depois, viu uma coruja pousada sobre uma corda acima de sua cabeça e compreendeu de imediato que aquela ave era a mensageira de más notícias, assim como uma vez fora a mensageira de boas notícias para ele, e mergulhou na mais profunda tristeza. Surgiu também uma dor intensa em seu ventre, que começou de forma muito violenta. Então olhou para seus amigos e disse: "Eu, a quem vocês chamam de deus, recebo agora a ordem de deixar esta vida, enquanto a providência assim repreende as palavras mentirosas que vocês acabaram de me dizer. E eu, que fui chamado por vocês de imortal, serei levado pela morte imediatamente. Mas tenho de aceitar o que a providência me destina, conforme agrada a Deus. Pois de modo algum vivemos mal, e sim de maneira esplêndida e feliz." Quando disse isso, sua dor tornou-se violenta. Foi então carregado para o palácio, e correu por toda parte o boato de que certamente morreria em pouco tempo. A multidão logo se sentou vestida de pano de saco, com suas mulheres e filhos, segundo o costume de sua nação, e suplicou a Deus pela recuperação do rei. Todos os lugares se encheram de luto e lamentação. O rei descansava num aposento elevado e, ao ver o povo lá embaixo prostrado no chão, ele próprio não conseguiu conter as lágrimas. Depois de ter sido completamente consumido pela dor no ventre por cinco dias, deixou esta vida, aos cinquenta e quatro anos de idade e no sétimo ano de seu reinado. Pois reinou quatro anos sob Caio César: três deles apenas sobre a tetrarquia de Filipe, e no quarto acrescentou-se a ele a de Herodes. E reinou, além desses, três anos sob o reinado de Cláudio César. Nesse tempo reinou sobre os territórios mencionados e também recebeu a Judeia, bem como Samaria e Cesareia. As rendas que recebia desses territórios eram muito grandes, nada menos que doze milhões de dracmas. Ainda assim, tomava grandes somas emprestadas de outros, pois era tão generoso que suas despesas excediam suas receitas, e sua generosidade não tinha limites.
Mas, antes que a multidão soubesse da morte de Agripa, Herodes, o rei de Cálcis, e Hélcias, o comandante da cavalaria e amigo do rei, enviaram Aristo, um dos servos mais fiéis do rei, e mataram Silas, que havia sido inimigo deles, como se isso tivesse sido feito por ordem do próprio rei.