Ética a Nicômaco - Livro II 5

A virtude moral como hábito e a doutrina do meio-termo, o ponto certo entre o excesso e a falta

O que é a virtude: paixão, faculdade ou disposição de caráter

Em seguida precisamos examinar o que é a virtude. Como aquilo que existe na alma é de três tipos, paixões, faculdades e disposições de caráter, a virtude tem que ser uma dessas coisas. Por paixões eu entendo o desejo, a raiva, o medo, a confiança, a inveja, a alegria, o sentimento de afeto, o ódio, a saudade, a emulação e a compaixão, e em geral os sentimentos que vêm acompanhados de prazer ou de dor. Por faculdades eu entendo aquilo que nos torna capazes de sentir essas paixões, por exemplo a capacidade de ficar com raiva, de sentir dor ou de ter compaixão. E por disposições de caráter eu entendo aquilo que faz com que nossa relação com as paixões seja boa ou ruim. Por exemplo, em relação à raiva, nossa disposição é ruim se a sentimos com violência ou de modo fraco demais, e é boa se a sentimos na medida certa. O mesmo vale para as outras paixões.
Ora, nem as virtudes nem os vícios são paixões. Não somos chamados de bons ou maus por causa de nossas paixões, e sim por causa de nossas virtudes e de nossos vícios. Além disso, não somos elogiados nem censurados por nossas paixões. Quem sente medo ou raiva não é elogiado, e quem simplesmente sente raiva não é censurado: censurado é quem a sente de um certo modo. Mas por nossas virtudes e nossos vícios, sim, somos elogiados ou censurados.
Outro ponto: sentimos raiva e medo sem escolha, mas as virtudes são formas de escolha ou envolvem escolha. Além disso, no caso das paixões dizemos que somos movidos por elas, ao passo que no caso das virtudes e dos vícios não dizemos que somos movidos, e sim que estamos dispostos de uma maneira específica.
Por essas mesmas razões as virtudes também não são faculdades. Não somos chamados de bons nem de maus, nem elogiados nem censurados, pela simples capacidade de sentir as paixões. E ainda: temos as faculdades por natureza, mas não nos tornamos bons ou maus por natureza, como dissemos antes. Se, então, as virtudes não são nem paixões nem faculdades, resta que elas sejam disposições de caráter.
Assim dissemos a que gênero a virtude pertence.