Ética a Nicômaco - Livro II 6

A virtude moral como hábito e a doutrina do meio-termo, o ponto certo entre o excesso e a falta

A virtude como meio-termo entre o excesso e a falta

Não basta dizer que a virtude é uma disposição de caráter; precisamos dizer que tipo de disposição ela é. Vale observar que toda virtude ou excelência faz duas coisas: deixa em boa forma aquilo de que ela é a excelência e faz com que o trabalho daquilo seja bem feito. Por exemplo, a excelência do olho torna bons tanto o olho quanto a sua tarefa, pois é pela excelência do olho que enxergamos bem. Do mesmo modo, a excelência do cavalo torna o cavalo bom em si mesmo e bom para correr, para carregar o cavaleiro e para enfrentar o ataque do inimigo. Portanto, se isso é verdade em todos os casos, a virtude do homem também será a disposição de caráter que o torna bom e que o faz realizar bem a sua própria tarefa.
Como isso acontece nós dissemos, mas ficará mais claro se examinarmos a natureza específica da virtude. Em tudo que é contínuo e divisível é possível tomar uma porção maior, menor ou igual, e isso tanto em relação à própria coisa quanto em relação a nós. O igual é um ponto intermediário entre o excesso e a falta. Por intermediário na própria coisa eu quero dizer aquilo que fica à mesma distância de cada um dos extremos, e que é único e o mesmo para todos. Por intermediário em relação a nós eu quero dizer aquilo que não é nem demais nem de menos, e isso não é único nem o mesmo para todos. Por exemplo, se dez é muito e dois é pouco, seis é o intermediário se tomamos a própria coisa, pois excede e é excedido por uma quantidade igual: é o intermediário segundo a proporção aritmética. Mas o intermediário em relação a nós não se calcula assim. Se dez quilos de comida são demais para uma certa pessoa e dois quilos são de menos, não se segue que o treinador mandar comer seis, pois talvez isso também seja demais para quem vai comer, ou de menos: de menos para Milão, demais para o iniciante nos exercícios. O mesmo vale para a corrida e a luta. Assim, o mestre de qualquer arte evita o excesso e a falta, mas busca o intermediário e o escolhe, o intermediário não na própria coisa, mas em relação a nós.
Se é assim, então, que toda arte faz bem o seu trabalho, olhando para o intermediário e julgando suas obras por esse padrão (por isso costumamos dizer das boas obras de arte que não é possível tirar nem acrescentar nada, dando a entender que o excesso e a falta destroem a qualidade das obras de arte, enquanto o meio-termo a preserva, e os bons artistas, como dizemos, olham para isso no seu trabalho), e se, além disso, a virtude é mais precisa e melhor que qualquer arte, assim como a natureza também é, então a virtude deve ter a qualidade de mirar no intermediário. Refiro-me à virtude moral, pois é ela que lida com as paixões e as ações, e nelas excesso, falta e o intermediário. Por exemplo, o medo, a confiança, o desejo, a raiva, a compaixão e em geral o prazer e a dor podem ser sentidos demais e de menos, e nos dois casos não é bom. Mas senti-los na hora certa, em relação aos objetos certos, para com as pessoas certas, com o motivo certo e do modo certo, eis o que é ao mesmo tempo o intermediário e o melhor, e isso é próprio da virtude. Do mesmo modo, também nas ações excesso, falta e o intermediário. Ora, a virtude lida com as paixões e as ações, nas quais o excesso é uma forma de erro, e a falta também, enquanto o intermediário é louvado e é uma forma de acerto. Ser louvado e ser bem-sucedido são ambos próprios da virtude. Portanto, a virtude é um tipo de meio-termo, que, como vimos, ela mira no que é intermediário.
Outra coisa: é possível errar de muitas maneiras (pois o mal pertence à classe do ilimitado, como supunham os pitagóricos, e o bem à do limitado), enquanto acertar é possível de uma única maneira (por isso também uma coisa é fácil e a outra é difícil: errar o alvo é fácil, acertá-lo é difícil). Por essas razões também, então, o excesso e a falta são próprios do vício, e o meio-termo é próprio da virtude.
Pois os homens são bons de um jeito, mas maus de muitos.
A virtude, então, é uma disposição de caráter ligada à escolha, situada num meio-termo, ou seja, no meio-termo relativo a nós, e isso é determinado por um princípio racional, aquele princípio pelo qual o homem de sabedoria prática a determinaria. Ora, ela é um meio-termo entre dois vícios, o que depende do excesso e o que depende da falta. E é um meio-termo também porque os vícios ou ficam aquém ou ultrapassam o que é certo, tanto nas paixões quanto nas ações, enquanto a virtude encontra e escolhe aquilo que é intermediário. Por isso, quanto à sua substância e à definição que enuncia a sua essência, a virtude é um meio-termo, mas em relação ao que é melhor e certo ela é um extremo.
Mas nem toda ação nem toda paixão admite um meio-termo, pois algumas têm nomes que carregam a maldade, por exemplo o despeito, a sem-vergonhice, a inveja, e no caso das ações o adultério, o roubo, o assassinato. Todas essas coisas e outras semelhantes carregam no próprio nome o fato de serem más em si mesmas, e não os excessos ou as deficiências delas. Não é possível, então, acertar nessas coisas: a pessoa está sempre errada. Nem o bem ou o mal a respeito delas depende de cometer adultério com a mulher certa, na hora certa e do modo certo, mas simplesmente fazer qualquer uma delas é errar. Seria igualmente absurdo, então, esperar que na ação injusta, covarde e desregrada houvesse um meio-termo, um excesso e uma deficiência, pois nesse caso haveria um meio-termo do excesso e da deficiência, um excesso do excesso e uma deficiência da deficiência. Mas assim como não excesso nem deficiência da temperança e da coragem, porque o intermediário é num certo sentido um extremo, do mesmo modo nas ações que mencionamos não meio-termo nem qualquer excesso ou deficiência: de qualquer jeito que sejam feitas, são erradas. Pois, em geral, não nem um meio-termo do excesso e da deficiência, nem excesso e deficiência de um meio-termo.