Ética a Nicômaco - Livro II 4

A virtude moral como hábito e a doutrina do meio-termo, o ponto certo entre o excesso e a falta

Como nos tornamos virtuosos: agir como age o homem justo

Alguém poderia perguntar o que queremos dizer ao afirmar que nos tornamos justos praticando atos justos, e moderados praticando atos moderados. Pois, se as pessoas praticam atos justos e moderados, são justas e moderadas, do mesmo modo que, se fazem o que está de acordo com as regras da gramática e da música, são gramáticos e músicos.
Ou será que isso não vale nem mesmo no caso das artes? É possível fazer algo conforme as regras da gramática por acaso, ou seguindo a sugestão de outra pessoa. Alguém será gramático, então, quando tiver feito algo gramatical e o tiver feito de modo gramatical, ou seja, conforme o conhecimento de gramática que existe dentro de si.
Além disso, o caso das artes e o caso das virtudes não são iguais. Os produtos das artes têm sua qualidade em si mesmos, de modo que basta que tenham um certo caráter. Mas, quando os atos conformes às virtudes têm eles próprios um certo caráter, não se segue daí que sejam feitos de maneira justa ou moderada.
Quem age também precisa estar em uma certa condição quando os pratica. Em primeiro lugar, precisa ter conhecimento. Em segundo lugar, precisa escolher os atos, e escolhê-los por si mesmos. E, em terceiro lugar, sua ação deve partir de um caráter firme e imutável.
Essas condições não contam como requisitos para se ter as artes, com exceção do simples conhecimento. Mas, como requisito para se ter as virtudes, o conhecimento tem pouco ou nenhum peso, enquanto as outras condições contam não pouco, e sim tudo, ou seja, justamente as condições que resultam de praticar com frequência atos justos e moderados.
As ações, então, são chamadas de justas e moderadas quando são como as que o homem justo ou o homem moderado faria. Mas não é justo e moderado aquele que apenas as pratica, e sim aquele que também as pratica do jeito que os homens justos e moderados as praticam.
Está bem dito, portanto, que é praticando atos justos que se forma o homem justo, e praticando atos moderados que se forma o homem moderado. Sem praticá-los, ninguém teria sequer a perspectiva de se tornar bom.
Mas a maioria das pessoas não os pratica. Elas se refugiam na teoria e pensam que assim estão sendo filósofos e que se tornarão boas por esse caminho. Comportam-se um pouco como os doentes que escutam com atenção os seus médicos, mas não fazem nada do que lhes é ordenado.
Assim como esses doentes não terão o corpo curado por tal tratamento, também aquelas pessoas não terão a alma curada por tal modo de filosofar.