Ética a Nicômaco - Livro II 8
A virtude moral como hábito e a doutrina do meio-termo, o ponto certo entre o excesso e a falta
Como o meio-termo e seus dois extremos se opõem entre si
Existem, então, três tipos de disposição: duas delas são vícios, um por excesso e outro por falta, e a terceira é uma virtude, o meio-termo. E todas, de certo modo, se opõem entre si, pois os estados extremos são contrários tanto ao estado intermediário quanto um ao outro, e o intermediário é contrário aos extremos. Assim como o que é igual é maior em relação ao que é menor e menor em relação ao que é maior, também os estados do meio parecem excessivos quando comparados às faltas e deficientes quando comparados aos excessos, tanto nos sentimentos quanto nas ações.
O homem corajoso parece imprudente quando comparado ao covarde e covarde quando comparado ao imprudente. Do mesmo modo, o homem temperante parece descontrolado diante do insensível e insensível diante do descontrolado, e o homem generoso parece esbanjador diante do avarento e avarento diante do esbanjador. Por isso as pessoas que estão nos extremos empurram a pessoa do meio cada uma para o lado oposto: o corajoso é chamado de imprudente pelo covarde e de covarde pelo imprudente, e o mesmo acontece nos outros casos.
Como esses estados se opõem assim uns aos outros, a maior oposição está entre os dois extremos, mais do que entre cada extremo e o meio-termo. Pois os extremos estão mais distantes um do outro do que do intermediário, assim como o grande está mais longe do pequeno, e o pequeno do grande, do que ambos estão do que é igual.
Além disso, alguns extremos guardam certa semelhança com o meio-termo, como a imprudência se parece com a coragem e o esbanjamento com a generosidade. Mas os extremos mostram a maior diferença um em relação ao outro. Ora, definimos como contrárias as coisas que estão mais afastadas entre si, de modo que as coisas mais distantes são mais contrárias.
Em relação ao meio-termo, em alguns casos é a falta que mais se opõe a ele, em outros é o excesso. Por exemplo, não é a imprudência, que é um excesso, mas a covardia, que é uma falta, o que mais se opõe à coragem. E não é a insensibilidade, que é uma falta, mas o descontrole, que é um excesso, o que mais se opõe à temperança.
Isso acontece por duas razões. A primeira vem da própria coisa: como um dos extremos está mais próximo e mais parecido com o meio-termo, opomos ao intermediário não esse extremo, mas o seu contrário. Por exemplo, como a imprudência é considerada mais parecida e mais próxima da coragem, e a covardia mais diferente, opomos antes a covardia à coragem, pois aquilo que está mais distante do meio-termo é tido como mais contrário a ele.
Essa é, então, uma das razões, tirada da própria coisa. A outra vem de nós mesmos: as coisas para as quais temos uma tendência natural mais forte parecem mais contrárias ao meio-termo. Por exemplo, somos naturalmente mais inclinados aos prazeres, e por isso somos mais facilmente arrastados para o descontrole do que para a contenção.
Chamamos de contrário ao meio-termo, portanto, sobretudo as direções para as quais costumamos exagerar com mais frequência. Por isso o descontrole, que é um excesso, é o mais contrário à temperança.