A carne e o sangue de Jesus como alimento de vida
Capítulos
Evangelho de Filipe
Autoria e Data de Composição
O Evangelho de Filipe não é uma narrativa da vida de Jesus, mas uma coletânea de reflexões teológicas reunidas sem ordem clara. O título no fim do texto e a menção ao apóstolo Filipe num único trecho não indicam que ele seja o autor; a atribuição é convencional, como ocorre com boa parte da literatura cristã antiga atribuída a apóstolos. A obra é anônima. A maioria dos estudiosos situa a sua composição no século III d.C., possivelmente na Síria, onde a língua siríaca aparece comentada no próprio texto.
O conteúdo reflete a tradição cristã chamada valentiniana, uma das correntes que os autores da Igreja antiga classificavam como gnósticas. O texto pressupõe um sistema de éons, uma distinção entre o que é revelado e o que é oculto, e um forte uso de tipos, imagens e mistérios. Não é um catecismo organizado, e sim uma sucessão de aforismos, exegeses e analogias que retomam os mesmos temas de ângulos diferentes.
Estrutura e Temas
A obra se divide em cerca de dezoito blocos temáticos, que vão da distinção entre gentios, hebreus e cristãos ao problema dos nomes, ao nascimento virginal, à ressurreição, ao mistério do casamento e aos sacramentos. Como o texto retoma os assuntos de forma espiral, os mesmos motivos reaparecem em pontos distantes. Os itens abaixo marcam os trechos mais citados de cada tema.
Conteúdo Principal
- Quem gera quem: hebreu, prosélito e a posição do cristão — (Evangelho de Filipe 1:1)
- Tornar-se cristão é ganhar pai e mãe — (Evangelho de Filipe 1:3)
- Os nomes do mundo enganam o coração — (Evangelho de Filipe 1:7)
- O nome impronunciável que o Pai deu ao Filho — (Evangelho de Filipe 1:8)
- "Jesus" oculto, "Cristo" revelado, "Messias", "Nazareno" — (Evangelho de Filipe 1:14)
- Crítica à leitura de que Maria concebeu "por uma mulher" — (Evangelho de Filipe 1:12)
- Adão de duas virgens, Cristo gerado de uma virgem — (Evangelho de Filipe 1:70)
- Cristo ressuscitou primeiro e depois morreu — (Evangelho de Filipe 1:15)
- A carne que herda o reino é a carne e o sangue de Jesus — (Evangelho de Filipe 1:17)
- Receber a ressurreição enquanto se está vivo — (Evangelho de Filipe 1:74)
- As três Marias que andavam com o Senhor — (Evangelho de Filipe 1:25)
- A companheira a quem o Salvador beijava, com lacuna no manuscrito — (Evangelho de Filipe 1:45)
- O casamento como mistério que sustenta o mundo — (Evangelho de Filipe 1:49)
- O casamento puro como mistério oculto, não carnal — (Evangelho de Filipe 1:95)
- A morte surge quando Eva se separa de Adão — (Evangelho de Filipe 1:60)
- Cristo veio reparar a separação, unindo os dois de novo — (Evangelho de Filipe 1:67)
- Os cinco sacramentos reunidos num só mistério — (Evangelho de Filipe 1:57)
- As três casas de oferenda e o véu rasgado — (Evangelho de Filipe 1:65)
- A crisma tida como melhor do que o batismo — (Evangelho de Filipe 1:78)
- A câmara nupcial como a Santa das Santas — (Evangelho de Filipe 1:99)
- "Meu Deus, por que me abandonaste?" lido como divisão na cruz — (Evangelho de Filipe 1:61)
- Fé, esperança, amor e conhecimento como as quatro coisas que nutrem — (Evangelho de Filipe 1:92)
- Arrancar pela raiz o mal que há dentro — (Evangelho de Filipe 1:97)
Gentios, hebreus e cristãos
Os nomes e o engano da linguagem
O nascimento virginal
A ressurreição antes da morte
Maria Madalena, a companheira
O mistério do casamento
Adão, Eva e a câmara nupcial
Batismo, crisma, eucaristia, redenção, câmara nupcial
O grito da cruz e o crescimento espiritual
Os Cinco Sacramentos e a Câmara Nupcial
O texto enumera cinco sacramentos: batismo, crisma, eucaristia, redenção e câmara nupcial. Os quatro primeiros têm correspondência com práticas conhecidas do cristianismo antigo. O quinto, a câmara nupcial, é o mais discutido e o menos claro. O Evangelho de Filipe o apresenta como o mais alto dos mistérios, associado à união do que estava separado, à reparação da queda de Adão e Eva e ao retorno do iniciado à sua origem.
O que era exatamente esse rito permanece em aberto. Algumas leituras sugerem um sacramento ritual distinto, com gesto físico próprio; outras o entendem de forma simbólica, como metáfora da reunificação espiritual; outras ainda o veem ligado ao batismo ou à crisma. O próprio texto não descreve a cerimônia, e fala dela quase sempre em linguagem figurada. A cautela aqui é honesta: as fontes não permitem uma reconstrução segura, e as propostas acadêmicas divergem.
Maria Madalena
Dois trechos tornaram o Evangelho de Filipe conhecido fora dos círculos especializados. No primeiro, três Marias andavam com o Senhor, e Madalena é chamada de sua "companheira". A palavra grega por trás do termo é koinōnos, que significa companheira, sócia ou parceira, e aparece no Novo Testamento em sentidos de associação que não são necessariamente conjugais.
No segundo trecho, o texto diz que o Salvador a amava mais do que aos outros discípulos e a beijava. Aqui o manuscrito tem uma lacuna: o papiro está danificado exatamente no ponto que indicaria onde o beijo ocorria. Reconstruções modernas costumam preencher esse vazio com palavras como "boca" ou "face", mas isso é conjetura dos editores, não leitura do manuscrito. O texto, no estado em que chegou, não diz o lugar do beijo.
Vale separar o que o texto diz do que se costuma ler nele. O Evangelho de Filipe não afirma que Jesus e Madalena fossem casados, nem menciona descendência. A versão popularizada por romances como O Código Da Vinciextrapola muito além do que o documento sustenta. Ao mesmo tempo, o texto também não nega um vínculo de proximidade, e o beijo entre iniciados aparece em outro ponto da obra como gesto de transmissão espiritual, não como descrição erótica. A leitura mais sóbria fica entre os dois extremos: o trecho atribui a Madalena um lugar de destaque e intimidade espiritual, mas não permite conclusões sobre casamento ou romance.
Paralelos com o Novo Testamento
O Evangelho de Filipe cita e reinterpreta passagens dos evangelhos canônicos e de Paulo. Em geral ele parte de um versículo conhecido e o lê dentro do seu próprio sistema. A tabela abaixo alinha alguns trechos da obra com os textos do Novo Testamento que eles retomam.
Carne e sangue não herdam o reino de Deus
O grito de abandono na cruz
Orar ao Pai em segredo, com a porta fechada
A verdade liberta
O machado posto à raiz das árvores
O véu do templo rasgado de alto a baixo
Manuscrito
O único exemplar conhecido foi achado em 1945, junto à cidade de Nag Hammadi, no Egito, dentro de uma jarra com treze códices de papiro. O Evangelho de Filipe é o terceiro tratado do Códice II. O texto está em copta, mas é tradução de um original grego hoje perdido. Como acontece com vários textos de Nag Hammadi, o papiro tem trechos danificados e lacunas, o que afeta diretamente a leitura de algumas das passagens mais comentadas, incluindo a de Maria Madalena.
Por que não é canônico
O Evangelho de Filipe nunca fez parte do cânon de nenhuma das grandes tradições cristãs. Ele é tardio demais para ter origem apostólica, e o seu enquadramento valentiniano o afasta da teologia que veio a se firmar como ortodoxa. Autores antigos que combateram o valentinianismo, como Irineu de Lyon, rejeitavam esse tipo de literatura. A obra circulou em meios restritos e acabou esquecida até a descoberta de Nag Hammadi, que a devolveu ao estudo moderno como fonte para o cristianismo do segundo e terceiro séculos, e não como escritura.
Sobre esta Tradução
O texto em português disponibilizado aqui foi traduzido a partir da edição inglesa de domínio público de Mark Mattison, publicada em gospels.net. Os colchetes e reticências no texto marcam as lacunas e as reconstruções do manuscrito copta. Onde o papiro está danificado, o sentido é incerto, e isso fica visível na leitura.