Capítulos

Apocalipse de Pedro

Autoria e Data de Composição

O Apocalipse de Pedro é uma obra cristã anônima, atribuída de forma pseudoepigráfica ao apóstolo Pedro, que aparece narrando em primeira pessoa uma revelação recebida de Cristo no Monte das Oliveiras. A composição original, em grego, costuma ser datada na primeira metade do século II d.C. (cerca de 100 a 150), o que faz dela um dos textos cristãos mais antigos fora do Novo Testamento. A atribuição a Pedro é convencional: o nome serve de selo de autoridade apostólica para a visão, não de assinatura.

É preciso não confundir esta obra com o Apocalipse Copta de Pedro, um texto gnóstico distinto achado na biblioteca de Nag Hammadi, de cristologia docética e datação posterior. O livro apresentado aqui é o Apocalipse de Pedro proto-ortodoxo, conhecido sobretudo pela versão etíope e pelo fragmento grego de Akhmim, e marcado por visões detalhadas do céu e do inferno.

As Duas Testemunhas: a Versão Etíope e o Fragmento de Akhmim

O grego original se perdeu, e a obra chegou até nós por duas testemunhas que não coincidem. A primeira é o fragmento grego de Akhmim, achado em 1886 e 1887 num túmulo cristão em Akhmim, no Alto Egito, junto com o Evangelho de Pedro e parte de 1 Enoque. Esse fragmento está mais próximo do estilo do grego original, mas é parcial. A segunda é a versão etíope (em geez), identificada por M. R. James em 1910 num conjunto de literatura clementina; é mais completa e provavelmente chegou ao geez por intermédio do copta e do árabe. Os capítulos 1 a 6 desta edição seguem o texto etíope; o capítulo 7 reproduz o fragmento grego de Akhmim.

As duas recensões divergem em ordem e em conteúdo. No fragmento de Akhmim, a visão do paraíso vem antes da descrição dos castigos; na versão etíope, a sequência é a inversa, com o inferno detalhado antes e o monte santo no fim. A etíope também preserva passagens que o grego de Akhmim omite, entre elas a controversa promessa de salvação final dos condenados. Os dois testemunhos descrevem, substancialmente, o mesmo catálogo de pecados e penas, o que permite reconstruir o conteúdo do original com razoável confiança.

Conteúdo Principal

A obra abre com os discípulos perguntando a Cristo sobre os sinais do fim, no Monte das Oliveiras. Cristo anuncia a sua Segunda Vinda, interpreta a parábola da figueira como a casa de Israel e adverte contra os falsos cristos, anunciando o envio de Enoque e Elias. Em seguida descreve a ressurreição da carne e o juízo cósmico, e então conduz Pedro num tour pelo inferno, com longas listas de castigos. A obra termina, na versão etíope, no monte santo, onde aparecem Moisés e Elias e se ouve a voz do Pai, numa cena que reusa a Transfiguração dos evangelhos.

O Castigo Espelhado e a Influência sobre Dante

O Apocalipse de Pedro é o primeiro tour cristão detalhado pelo inferno e pelo paraíso de que se tem notícia, e fixou um modelo que se tornaria duradouro. O traço mais marcante é o princípio do castigo sob medida: o membro ou faculdade que pecou é o que sofre a pena. Os que blasfemaram com a língua são pendurados pela língua; as falsas testemunhas têm o fogo entrando pela boca; os que cobraram juros afundam num lugar de imundície. Esse princípio de correspondência entre culpa e pena é o que a tradição literária viria a chamar de contrapasso, o eixo do Inferno de Dante. A obra serviu de matriz para o posterior Apocalipse de Paulo e, por essa linhagem, para o imaginário medieval do além.

O contraste com a cena evangélica do monte deixa visível esse trabalho de reuso da tradição:

A voz do céu no monte. No Apocalipse de Pedro, a cena do monte santo (com Moisés e Elias) reproduz a fórmula da Transfiguração dos evangelhos, sinal de que o autor conhecia e reusava a tradição sinótica. Em Mateus, a mesma voz declara o Filho amado durante a Transfiguração.

Apocalipse de Pedro
Mateus (ACF)

A Controvérsia da Salvação dos Condenados

O ponto teologicamente mais delicado da obra aparece só na versão etíope. Depois de descrever os tormentos, Cristo anuncia que, atendendo à oração dos justos, concederá aos condenados a lavagem e a salvação no campo de Aqueros, chamado Elísio. Esse trecho aponta para uma forma de apocatástase, a restauração final de todos, ideia depois associada a Orígenes e rejeitada por boa parte da tradição. As outras testemunhas omitem ou suavizam a passagem, o que sugere que ela pode ter sido editada para fora à medida que a doutrina se tornava suspeita. Há quem veja nessa promessa universalista uma das razões para a obra não ter entrado no cânon, embora os dados não permitam afirmá-lo com certeza.

  • Os condenados reconhecem que o juízo de Deus é justo, quando já não há mais tempo de arrependimento(Apocalipse de Pedro 5:9)
  • Cristo dará aos que os justos suplicaram a salvação no campo de Aqueros, chamado Elísio(Apocalipse de Pedro 5:10)
  • Status Canônico e a Proximidade do Cânon

    O Apocalipse de Pedro não é canônico em nenhuma tradição cristã atual, mas chegou perto de sê-lo. Foi citado por nome e tratado como Escritura por Clemente de Alexandria (por volta de 200), aparece nos Oráculos Sibilinos e é listado no Fragmento de Muratori (final do século II), que o menciona ao lado do Apocalipse de João, ainda que com a ressalva de que alguns não o queriam ler na igreja. Em algumas listas posteriores ele figura entre os textos disputados. Essa recepção mostra que, no século II e no início do III, a obra circulava com autoridade quase escriturística em parte da igreja, antes de ser deixada de fora do cânon que se firmou.

    Sobre Esta Tradução

    O texto em português disponibilizado aqui combina as duas testemunhas: os capítulos 1 a 6 seguem a versão etíope e o capítulo 7 reproduz o fragmento grego de Akhmim, traduzidos a partir das edições de domínio público em inglês, com base no clássico trabalho de M. R. James (1924). As lacunas e reconstruções dos manuscritos originais aparecem indicadas por parênteses e reticências ao longo do texto.