Quem são os Padres Apostólicos

Os Padres Apostólicos são os escritores cristãos da geração imediatamente posterior aos apóstolos, no fim do século I e no início do século II. A tradição os entende como autores que teriam tido contato com os próprios apóstolos ou com seus discípulos diretos. O rótulo é uma categoria moderna: a expressão só passou a ser usada no século XVII, em parte a partir da edição de Jean-Baptiste Cotelier, de 1672, e não corresponde a um grupo que se reconhecesse como tal na antiguidade.

A coletânea tradicional dos Padres Apostólicos é mais ampla do que as nove obras reunidas aqui. Ela costuma incluir também a Didaqué, o Pastor de Hermas, a Epístola de Barnabé e o Martírio de Policarpo, que neste site estão organizados em outras seções. As nove cartas desta saga trazem os três autores nomeados do grupo: as sete cartas autênticas de Inácio de Antioquia, a carta da igreja de Roma aos coríntios conhecida como 1 Clemente e a carta de Policarpo aos Filipenses.

Por que essas cartas importam

Essas são as fontes cristãs mais antigas fora do Novo Testamento. Elas mostram, de dentro, como vivia a igreja das primeiras décadas depois dos apóstolos: o culto, a leitura das Escrituras, a oração e a ceia, a organização do ministério em bispo, presbíteros e diáconos, as primeiras formulações sobre a pessoa de Cristo e os conflitos que dividiam as comunidades, do docetismo à pressão pela judaização e às disputas internas por liderança. Quem quer saber como o cristianismo soava por volta do ano 100 lê esses textos antes de qualquer outro.

Vale ler com atenção ao peso histórico de cada afirmação. O desenvolvimento do episcopado e a ideia de uma sucessão a partir dos apóstolos aparecem nessas cartas, em especial em Inácio e em 1 Clemente, e são temas debatidos entre historiadores. As cartas registram o que esses autores defendiam em seu contexto; o quanto isso reflete uma estrutura já universal na época, ou uma situação local que cada autor procurava firmar, segue em discussão.

Os três autores

Inácio de Antioquia escreveu sete cartas a caminho de Roma, onde foi morto entre cerca de 107 e 117, condenado às feras. Preso e sob escolta, ele escreveu a seis igrejas e a Policarpo, insistindo na unidade das comunidades em torno do bispo e combatendo o docetismo, a ideia de que Cristo só teria parecido ter um corpo real.

Clemente de Roma é apontado pela tradição como autor de 1 Clemente, a carta que a igreja de Roma enviou à de Corinto por volta de 96, depois que alguns presbíteros foram afastados de seus cargos. O texto apela para a concórdia e para a ordem, e é uma das primeiras vozes a tratar de liderança e disciplina fora do Novo Testamento.

Policarpo de Esmirna é descrito por fontes antigas como discípulo do apóstolo João e morreu mártir já idoso. Sua carta aos Filipenses é densa em citações e ecos do Novo Testamento, o que faz dela um testemunho valioso de quais escritos cristãos já circulavam e eram tratados como autoridade no início do século II.

Fontes e recensões

No caso de Inácio, as cartas chegaram em mais de uma forma. A crítica reconhece como autêntica a chamada recensão média, com sete cartas, e considera ampliações e cartas adicionais como obra posterior. As traduções de base aqui partem de edições de domínio público, como as de Roberts e Donaldson e a de Lightfoot, que continuam sendo referências correntes para esses textos.

Passagens que surpreendem

Alguns trechos saltam aos olhos pela força da imagem ou por estarem entre os primeiros registros de ideias que se tornariam comuns no cristianismo. Cada citação leva à passagem completa.

O trigo de Deus. A caminho da morte, Inácio pede aos cristãos de Roma que não tentem livrá-lo do martírio e descreve a própria execução com uma imagem que ficou célebre.

A Igreja católica.Esta carta de Inácio traz o primeiro uso conhecido da expressão "Igreja católica", num contexto que liga a comunidade à presença de Cristo e à figura do bispo.

A ave fênix. Para argumentar a favor da ressurreição, 1 Clemente recorre à lenda da fênix, a ave que renasceria de si mesma, apresentada como sinal posto pelo Criador na natureza.

Contra o docetismo. Policarpo retoma o tom das cartas de João e chama de anticristo quem nega que Cristo veio em carne, com uma das expressões mais duras da literatura cristã antiga.

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