Capítulos

Contra as Heresias - Livro III
Autoria e Data
A Contra as Heresias (em grego, Refutação e Subversão do Conhecimento Falsamente assim Chamado) foi escrita por Irineu, bispo de Lyon, na Gália, por volta de 180 d.C. Irineu nasceu em Esmirna, na Ásia Menor, provavelmente entre 130 e 140 d.C., e afirma ter ouvido, ainda jovem, Policarpo, que por sua vez teria sido discípulo do apóstolo João. A obra original foi composta em grego, mas só sobreviveu completa numa tradução latina antiga; há também fragmentos gregos, uma versão armênia dos livros IV e V e citações em autores posteriores. Ela se divide em cinco livros, escritos contra o sistema gnóstico de Valentim e de outros mestres. Os dois primeiros expõem e refutam essas doutrinas pela razão; a partir do terceiro, Irineu passa a refutá-las com base nas Escrituras.
A Importância do Livro III
O Livro III é o mais citado de toda a obra, porque nele aparecem, de forma articulada, vários temas que se tornariam centrais no cristianismo antigo. Irineu argumenta que a fé verdadeira é a que a Igreja recebeu dos apóstolos e transmitiu por meio da sucessão dos bispos, e oferece como exemplo a lista dos bispos de Roma, de Lino a Eleutério, doze a partir dos apóstolos. Essa passagem é lida de modos diferentes: a tradição católica a vê como base do primado romano e da sucessão episcopal, enquanto autores protestantes a interpretam como argumento sobre a continuidade da doutrina pública, não sobre uma autoridade jurídica de Roma. Irineu também defende que os Evangelhos são exatamente quatro, nem mais nem menos, e os associa aos quatro seres viventes e aos quatro ventos, num dos primeiros testemunhos explícitos do cânon dos quatro Evangelhos. Outro tema é a regra de fé, o resumo da doutrina apostólica que serve de chave de leitura das Escrituras contra as interpretações gnósticas.
No fim do livro Irineu desenvolve duas ideias pelas quais é mais lembrado. A primeira é a doutrina da recapitulação: Cristo, ao se fazer homem, refaz em si mesmo toda a história humana desde Adão, desfazendo a desobediência pela obediência e restaurando a humanidade. A segunda, ligada a ela, é o paralelo entre Eva e Maria: assim como Eva, ainda virgem, foi causa de morte pela incredulidade, Maria, virgem, foi causa de salvação pela fé. Esse paralelo influenciou fortemente a mariologia posterior, sobretudo nas tradições católica e ortodoxa; sua leitura e seu peso variam entre as confissões cristãs.
Conteúdo Principal
- O propósito do Livro III: provar a fé contra os gnósticos a partir das Escrituras — (Contra as Heresias - Livro III 1:1)
- A sucessão dos bispos de Roma, de Lino até Eleutério, como prova da tradição apostólica — (Contra as Heresias - Livro III 1:4)
- Os quatro Evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas e João, e por que não podem ser mais nem menos — (Contra as Heresias - Livro III 2:2)
- O Evangelho quadriforme comparado aos quatro seres viventes e aos quatro ventos — (Contra as Heresias - Livro III 2:6)
- A pregação dos apóstolos nos Atos: um só Deus no Antigo e no Novo Testamento — (Contra as Heresias - Livro III 3:1)
- A refutação dos ebionitas, que usavam só Mateus e negavam o nascimento virginal — (Contra as Heresias - Livro III 3:1)
- Um só Cristo, Filho de Deus, contra os que separavam Jesus do Cristo do alto — (Contra as Heresias - Livro III 4:1)
- O Espírito Santo descendo como pomba e o batismo em nome do Pai, do Filho e do Espírito — (Contra as Heresias - Livro III 4:2)
- A Septuaginta e a leitura de Isaías 7:14: virgem contra os tradutores Áquila e Teodócio — (Contra as Heresias - Livro III 5:2)
- O paralelo entre Eva e Maria: o nó da desobediência desatado pela obediência — (Contra as Heresias - Livro III 5:3)
“O nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria. Pois o que a virgem Eva atara firmemente pela incredulidade, isto a virgem Maria desatou pela fé.”Irineu de Lyon, Contra as Heresias - Livro III 5:3
O Livro III tem valor duplo. Como documento histórico, é uma das fontes mais antigas sobre a formação do cânon dos quatro Evangelhos, sobre as listas de sucessão episcopal e sobre as comunidades gnósticas que Irineu descreve para refutar, das quais hoje se conhecem textos diretos graças aos achados de Nag Hammadi em 1945. Como peça de argumentação, mostra o método de Irineu: ancorar a fé na tradição pública e nas Escrituras lidas segundo a regra de fé, em vez do conhecimento secreto reservado aos iniciados que os gnósticos reivindicavam. Vários pontos do livro, como a leitura da sucessão romana, a datação dos Evangelhos e o paralelo Eva e Maria, continuam sendo objeto de debate entre historiadores e entre as diferentes tradições cristãs.