Contra as Heresias - Livro III 5
Refutacao pela Escritura e pela tradicao apostolica
Aqueles, portanto, que alegam que Ele nada tomou da Virgem erram gravemente, pois, a fim de lançarem fora a herança da carne, rejeitam também a analogia entre Ele e Adão. Pois, se aquele que surgiu da terra de fato teve formação e substância tanto da mão como da obra de Deus, mas o outro não da mão e da obra de Deus, então Aquele que foi feito à imagem e semelhança do primeiro não preservaria, nesse caso, a analogia do homem, e teria de parecer uma obra incoerente, sem nada com que pudesse mostrar a sua sabedoria. Mas isto é dizer que Ele também apareceu aparentemente como homem quando não era homem, e que se fez homem sem nada tomar do homem. Pois, se Ele não recebeu a substância da carne de um ser humano, nem se fez homem nem Filho do homem; e, se não se fez o que nós somos, nada de grande fez naquilo que sofreu e suportou. Mas todos hão de admitir que somos compostos de um corpo tomado da terra e de uma alma que recebe o espírito de Deus. Isto, portanto, o Verbo de Deus se fez, recapitulando em si mesmo a sua própria obra; e por isso confessa-se Filho do homem, e abençoa os mansos, porque herdarão a terra (Mateus 5:5). O apóstolo Paulo, além disso, na Epístola aos Gálatas, declara claramente: Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher (Gálatas 4:4). E novamente, na Epístola aos Romanos, diz: Acerca de seu Filho, que foi feito da descendência de Davi segundo a carne, que foi predestinado como Filho de Deus em poder, segundo o espírito de santidade, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo nosso Senhor (Romanos 1:3-4). Supérflua, também nesse caso, é a sua descida em Maria; pois por que desceu Ele a ela se nada haveria de tomar dela? Mais ainda, se nada tivesse tomado de Maria, jamais teria se valido daqueles alimentos que derivam da terra, pelos quais se nutre o corpo que foi tomado da terra; nem teria tido fome, jejuando aqueles quarenta dias, como Moisés e Elias, a menos que o seu corpo estivesse ansiando pelo seu próprio alimento; nem, novamente, teria dito João, seu discípulo, ao escrever a respeito dele: Mas Jesus, cansado da viagem, estava sentado para descansar (João 4:6); nem Davi teria proclamado dele de antemão: Acrescentaram à dor das minhas feridas; nem teria chorado sobre Lázaro, nem suado grandes gotas de sangue; nem teria declarado: A minha alma está profundamente triste (Mateus 26:38); nem, quando o seu lado foi traspassado, teriam saído sangue e água. Pois todos estes são sinais da carne que fora derivada da terra, que Ele recapitulou em si mesmo, levando a salvação à sua própria obra. Por isso Lucas aponta que a genealogia que traça a geração do nosso Senhor de volta até Adão contém setenta e duas gerações, conectando o fim com o princípio, e dando a entender que é Ele quem recapitulou em si mesmo todas as nações dispersas desde Adão em diante, e todas as línguas e gerações dos homens, juntamente com o próprio Adão. Por isso também o próprio Adão foi chamado por Paulo de figura daquele que havia de vir (Romanos 5:14), porque o Verbo, o Criador de todas as coisas, formara de antemão para si a futura dispensação da raça humana, ligada ao Filho de Deus; tendo Deus predestinado que o primeiro homem fosse de natureza animal, com esta intenção: que ele fosse salvo pelo espiritual. Pois, visto que Ele tinha uma preexistência como Ser que salva, era necessário que aquilo que poderia ser salvo também fosse chamado à existência, a fim de que o Ser que salva não existisse em vão. De acordo com este desígnio, Maria, a Virgem, é achada obediente, dizendo: Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra (Lucas 1:38). Mas Eva foi desobediente; pois não obedeceu quando ainda era virgem. E, assim como ela, tendo de fato um marido, Adão, mas sendo, no entanto, ainda virgem (pois no Paraíso ambos estavam nus e não se envergonhavam, Gênesis 2:25, visto que eles, tendo sido criados pouco tempo antes, não tinham entendimento da procriação de filhos, pois era necessário que primeiro chegassem à idade adulta e então, desse tempo em diante, se multiplicassem), tendo se tornado desobediente, foi feita a causa da morte, tanto para si mesma como para toda a raça humana; assim também Maria, tendo um homem prometido a ela, e sendo, no entanto, virgem, ao prestar obediência, tornou-se a causa da salvação, tanto para si mesma como para toda a raça humana. E por esta razão a lei chama a mulher prometida a um homem de esposa daquele que a prometeu, embora ela fosse ainda virgem; indicando assim a referência retroativa de Maria a Eva, porque o que está unido não poderia ser desfeito de outro modo senão pela inversão do processo pelo qual esses laços de união surgiram; de modo que os laços anteriores fossem cancelados pelos posteriores, para que os posteriores pusessem novamente os anteriores em liberdade. E aconteceu, de fato, que o primeiro pacto se desata pelo segundo laço, mas que o segundo laço toma a posição do primeiro que foi cancelado. Por esta razão o Senhor declarou que o primeiro seria, na verdade, o último, e o último, o primeiro (Mateus 19:30; Mateus 20:16). E o profeta também indica o mesmo, dizendo: Em lugar dos pais, nasceram-vos filhos. Pois o Senhor, tendo nascido o primogênito dos mortos (Apocalipse 1:5), e recebendo no seu seio os antigos pais, regenerou-os para a vida de Deus, tendo Ele mesmo sido feito o princípio dos que vivem, assim como Adão se tornou o princípio dos que morrem (1 Coríntios 15:20-22). Por isso também Lucas, começando a genealogia pelo Senhor, levou-a de volta até Adão, indicando que foi Ele quem os regenerou para o Evangelho da vida, e não eles a Ele. E assim também foi que o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria. Pois o que a virgem Eva atara firmemente pela incredulidade, isto a virgem Maria desatou pela fé.