Contra as Heresias
Irineu de Lyon e o Contexto da Obra
Irineu nasceu por volta de 130 d.C., provavelmente em Esmirna, na Ásia Menor, e foi bispo de Lugduno, a atual Lyon, na Gália. Ele se apresenta como ouvinte de Policarpo, bispo de Esmirna, que por sua vez teria conhecido o apóstolo João. Essa cadeia liga Irineu, dentro de duas gerações, ao círculo apostólico, e é parte do que dá peso ao seu argumento sobre a transmissão da fé. A datação exata de seu nascimento e a extensão real desse contato com Policarpo são debatidas, mas a posição de Irineu como bispo da Gália na segunda metade do século II é firme.
O título completo da obra, em grego, era Elenchos kai anatropē tēs pseudōnymou gnōseōs, ou seja, Refutação e subversão do conhecimento falsamente assim chamado, expressão tirada de 1 Timóteo 6:20. O nome latino Adversus Haereses, "Contra as Heresias", é o que se firmou. Irineu escreveu por volta de 180 d.C., a pedido de um amigo que lhe pediu uma exposição e refutação das doutrinas gnósticas. O alvo principal é o sistema de Valentino e seus discípulos, mas a obra trata também de Marcião, dos ofitas, dos ebionitas e de uma longa lista de outras correntes.
O Problema do Gnosticismo
O gnosticismo do século II não era uma seita única, mas um conjunto de sistemas que partilhavam alguns traços: a salvação pelo conhecimento secreto (a gnōsis), uma hierarquia de seres divinos intermediários (os eões), a distinção entre o Deus supremo e um criador inferior responsável pelo mundo material, e a depreciação da matéria e do corpo. Os valentinianos, em particular, liam as Escrituras dos cristãos atribuindo-lhes um sentido oculto que só os iniciados captariam. O método de Irineu é primeiro expor esses sistemas em detalhe, e depois mostrar onde, a seu ver, eles se contradizem ou forçam o texto bíblico.
A Estrutura dos Cinco Livros
A obra divide-se em cinco livros, cada um com um eixo próprio. O Livro I é descritivo: Irineu expõe os sistemas gnósticos, sobretudo o dos valentinianos, com seu elenco de eões e seu mito da queda de Sofia, e em seguida cataloga outras escolas. O Livro II passa à refutação pela razão, argumentando que as construções gnósticas são incoerentes em seus próprios termos, multiplicam entidades sem necessidade e não conseguem sustentar a separação entre o Deus supremo e o criador.
O Livro III refuta os hereges a partir da Escritura e da tradição apostólica, e é onde Irineu desenvolve a sucessão dos bispos e a regra de fé. O Livro IV concentra-se nas palavras do próprio Senhor e na unidade entre o Antigo e o Novo Testamento, contra Marcião, que opunha o Deus da Lei ao Deus do Evangelho. O Livro V trata da ressurreição da carne e do reino, sustentando que a salvação alcança o corpo e a criação material, e não só a alma.
“Visto que há quatro regiões do mundo em que vivemos, e quatro ventos principais, enquanto a Igreja está espalhada por todo o mundo, é conveniente que ela tenha quatro colunas.”Irineu de Lyon, Contra as Heresias - Livro III 2:6
Importância Histórica
O Contra as Heresias é a principal fonte antiga sobre o gnosticismo do século II. Durante séculos, quase tudo o que se sabia sobre os valentinianos e correntes afins vinha das descrições de Irineu e de quem o seguiu. Em 1945, a descoberta da biblioteca copta de Nag Hammadi, no Egito, trouxe textos gnósticos em primeira mão, e permitiu comparar o relato de Irineu com escritos dos próprios grupos. A avaliação corrente é matizada: em vários pontos Irineu descreve os sistemas com fidelidade reconhecível, embora escreva como adversário e organize o material para refutar, de modo que o leitor lê o gnosticismo pela ótica de quem o combate.
A obra é também um marco na formação de três ideias que se tornaram centrais para a Igreja antiga. A primeira é a regra de fé, um resumo do conteúdo essencial da pregação apostólica usado como critério de leitura da Escritura. A segunda é a sucessão apostólica, a lista de bispos que, segundo Irineu, garantia a continuidade pública da doutrina contra as supostas tradições secretas dos gnósticos. A terceira é a defesa explícita de quatro Evangelhos, nem mais nem menos, em uma época em que circulavam outros textos com pretensão evangélica. A doutrina da recapitulação, a ideia de que Cristo retoma e refaz em si a história de Adão e da humanidade, é o fio teológico que costura a obra, sobretudo no Livro V.
A Fonte e o Que Ler com Cautela
O grego original do Contra as Heresias sobreviveu apenas em fragmentos, citados por autores posteriores. O texto completo chegou até nós por uma antiga tradução latina, e por uma versão armênia dos Livros IV e V. A tradução em português usada aqui parte da edição inglesa de Alexander Roberts e William Rambaut na coleção Ante-Nicene Fathers, que é o padrão de referência em língua inglesa para os Padres anteriores a Niceia.
Cabem algumas ressalvas honestas. Irineu escreve como parte interessada, e suas descrições do gnosticismo devem ser lidas como o relato de um opositor, não como exposição neutra. Sua cristologia e seu vocabulário sobre o Pai, o Filho e o Espírito são anteriores ao Concílio de Niceia, em 325, e às definições posteriores, de modo que ler Irineu como se ele já usasse a linguagem técnica do século IV é anacronismo. Suas provas bíblicas costumam seguir a Septuaginta grega, cujas leituras às vezes divergem do texto hebraico massorético que está na base das traduções modernas. Mesmo com isso, a obra continua sendo leitura central para entender como a Igreja do século II definiu sua fé em oposição ao gnosticismo, e como tomou forma boa parte do vocabulário cristão posterior.
Volumes
- Contra as Heresias - Livro IExposicao dos sistemas gnosticos
- Contra as Heresias - Livro IIRefutacao dos gnosticos pela razao
- Contra as Heresias - Livro IIIRefutacao pela Escritura e pela tradicao apostolica
- Contra as Heresias - Livro IVAs palavras do Senhor e a unidade das aliancas
- Contra as Heresias - Livro VA ressurreicao da carne e o reino