Capítulos

2 Néfi
Depois da morte de Leí o grupo se parte entre nefitas e lamanitas. Néfi transcreve treze capítulos de Isaías e expõe a doutrina da queda, do livre-arbítrio e da expiação, incluindo a passagem mais citada da obra sobre a alegria como propósito da existência humana
O que é este livro
O Segundo Livro de Néfi é o segundo livro do Livro de Mórmon, publicado por Joseph Smith Jr. em 1830. São 33 capítulos, o maior bloco doutrinário da primeira parte da obra. Onde o Primeiro Livro de Néfi conta uma viagem, este praticamente abandona a narrativa e se torna pregação, exposição profética e citação extensa de Isaías.
A obra afirma ser tradução de um registro antigo. A erudição acadêmica não confessional a lê como composição do século XIX. As duas leituras aparecem ao longo deste índice, sem escolha entre elas.
Quem narra e como se organiza
Néfi continua sendo o compilador, mas divide o espaço com outras vozes. Os capítulos 1 a 4 trazem as bênçãos e o último discurso de Leí antes de morrer. Os capítulos 6 a 10 são um sermão de Jacó, irmão mais novo de Néfi. Os capítulos 12 a 24 reproduzem Isaías. Os capítulos 25 a 33 são a exposição do próprio Néfi e seu testamento final.
No capítulo 5, o grupo se divide. Néfi foge com quem o segue, e a partir daí a narrativa passa a falar de dois povos, nefitas e lamanitas, cuja rivalidade organiza o resto do Livro de Mórmon.
O capítulo 2 e a teologia da queda
O capítulo 2, discurso de Leí ao filho Jacó, é o texto teologicamente mais citado da obra. Ele propõe uma leitura da queda de Adão distinta da que predomina no cristianismo ocidental.
Na formulação agostiniana, herdada por católicos e reformados, a queda é uma catástrofe que corrompe a natureza humana e da qual só a graça resgata. No texto do capítulo 2, a transgressão de Adão é apresentada como condição necessária para que houvesse descendência, conhecimento do bem e do mal, e possibilidade de alegria. Sem queda não haveria filhos, nem escolha real, nem redenção. A oposição entre bem e mal é descrita como estrutura necessária da existência, e o ser humano como agente livre entre a vida eterna e o cativeiro.
Adão caiu para que os homens existissem; e os homens existem para que tenham alegria.
Para o leitor cristão tradicional, o contraste é com Romanos 5 e com a leitura de 1 Coríntios 15, onde a queda entra no mundo como ruína a ser desfeita. O texto Santo dos Últimos Dias não nega a necessidade da expiação, que ele afirma de modo enfático no capítulo 9, mas reposiciona a queda como parte de um plano, não como acidente. É uma diferença doutrinária real, e vale nomeá-la como tal em vez de suavizá-la.
O conteúdo
As últimas palavras de Leí
- A terra da promissão e a condição do convênio — (2 Néfi 1:20)
- A queda como parte do plano, no discurso a Jacó — (2 Néfi 2:25)
- A liberdade de escolher entre a vida e o cativeiro — (2 Néfi 2:27)
- A profecia atribuída a José do Egito sobre um vidente futuro — (2 Néfi 3:7)
- O lamento pessoal de Néfi, chamado de salmo de Néfi — (2 Néfi 4:17)
A separação e o sermão de Jacó
- Néfi se afasta e o povo se divide em dois — (2 Néfi 5:5)
- A construção de um templo no modelo do de Salomão — (2 Néfi 5:16)
- Jacó anuncia que lerá as palavras de Isaías — (2 Néfi 6:4)
- A necessidade de uma expiação infinita — (2 Néfi 9:7)
- O Santo de Israel como guardião da porta — (2 Néfi 9:41)
O bloco de Isaías
- Néfi explica por que copia Isaías — (2 Néfi 11:2)
- Isaías 2: o monte da casa do Senhor nos últimos dias — (2 Néfi 12:2)
- Isaías 6: a visão do trono e do manto que enche o templo — (2 Néfi 16:1)
- Isaías 7: o sinal da virgem e o nome Emanuel — (2 Néfi 17:14)
- Isaías 9: o menino que nos nasceu — (2 Néfi 19:6)
- Isaías 11: a vara do tronco de Jessé — (2 Néfi 21:1)
- Isaías 14: a queda de Lúcifer, filho da manhã — (2 Néfi 24:12)
A exposição final de Néfi
- A graça e o que cabe ao ser humano fazer — (2 Néfi 25:23)
- O convite a todos, sem distinção de condição ou cor — (2 Néfi 26:33)
- O livro selado e as três testemunhas, sobre Isaías 29 — (2 Néfi 27:12)
- Preceito sobre preceito, um pouco aqui e um pouco ali — (2 Néfi 28:30)
- A resposta ao argumento de que basta uma Bíblia — (2 Néfi 29:6)
- A doutrina de Cristo: arrependimento, batismo e perseverança — (2 Néfi 31:17)
- A despedida de Néfi aos leitores futuros — (2 Néfi 33:10)
Os paralelos bíblicos
Os capítulos 12 a 24 reproduzem, na ordem, os capítulos 2 a 14 do livro de Isaías. É o maior bloco bíblico contínuo do Livro de Mórmon. O leitor que abrir Isaías ao lado encontrará versículo por versículo, na forma da versão King James de 1611, com diferenças pontuais de palavra. Estão ali passagens centrais da liturgia cristã: o monte da casa do Senhor, o cântico da vinha, a visão do trono, o sinal da virgem, o menino que nos nasceu, a vara de Jessé e a queda de Lúcifer.
Há também paralelos fora do bloco de Isaías. O capítulo 27 retoma Isaías 29 e o aplica ao surgimento de um livro selado entregue a um homem sem instrução, leitura que a tradição Santo dos Últimos Dias associa ao episódio de 1828 em que Martin Harris levou uma transcrição de caracteres ao professor Charles Anthon, em Nova York. Anthon negou depois ter validado os caracteres. O capítulo 9 ecoa o convite de Isaías 55 a vir às águas sem dinheiro e sem preço. O capítulo 28 satiriza a frase de Isaías 22 e de 1 Coríntios 15 sobre comer e beber porque amanhã morreremos.
O capítulo 29 é o argumento mais direto da obra contra o princípio protestante da suficiência da Escritura. Ele antecipa a objeção e a responde no próprio texto.
Portanto, porque tendes uma Bíblia não deveis supor que ela contenha todas as palavras minhas; nem deveis supor que eu não fiz com que se escrevesse mais.
O problema do Deutero-Isaías, de novo
Os capítulos 12 a 24 correspondem a Isaías 2 a 14, que a crítica bíblica majoritária atribui ao profeta do século VIII a.C. em Jerusalém, portanto anterior à saída de Leí. Nesse ponto a objeção cronológica do Primeiro Livro de Néfi não se aplica com a mesma força.
Ela reaparece por outra via. O capítulo 8 reproduz Isaías 51 e o começo de Isaías 52, e o capítulo 7 reproduz Isaías 50, material do bloco que a crítica atribui ao Deutero-Isaías, autor anônimo do exílio babilônico, no século VI a.C., posterior à partida da família de Leí. A discussão é a mesma exposta no índice do Primeiro Livro de Néfi: quem sustenta a unidade autoral de Isaías não vê problema; quem aceita a divisão precisa recorrer a uma hipótese de expansão na tradução, ou a lê como indício de composição moderna.
Vale registrar um segundo dado técnico, discutido pelos dois lados: parte relevante das diferenças entre o Isaías do Livro de Mórmon e o Isaías da King James se concentra nas palavras que aquela edição imprimia em itálico, por não estarem no hebraico. Críticos leem isso como sinal de trabalho sobre a Bíblia inglesa. Defensores leem como método de tradução que corrige o texto familiar onde ele diverge da fonte. O padrão é aceito; a explicação não.
A questão da pele e a linguagem racial
O capítulo 5 contém a passagem que gerou a discussão mais persistente sobre a obra. Ao narrar a separação dos dois povos, o texto diz que os que se rebelaram tiveram a pele escurecida, e apresenta isso como maldição destinada a impedir a mistura entre os grupos. Passagens semelhantes reaparecem em outros livros da obra.
A leitura Santo dos Últimos Dias contemporânea, sustentada por autores como John Tvedtnes e por publicações da própria igreja, propõe que a marca descrita seria simbólica ou cultural, ligada à condição espiritual e não à cor da pele, e observa que a mesma obra afirma no capítulo 26 que Deus convida a todos, negro e branco, escravo e livre, homem e mulher. A leitura histórica crítica observa que, no século XIX e por boa parte do século XX, os próprios líderes da igreja entenderam a passagem em sentido racial literal, e que essa leitura sustentou práticas concretas.
Dois fatos documentais delimitam a discussão. O primeiro é textual: até 1981, as edições correntes do capítulo 30, versículo 6, prometiam que o povo se tornaria branco e agradável. A edição de 1981 adotou puro e agradável, forma já presente na edição de 1840, preparada sob supervisão de Joseph Smith, e que as edições seguintes não mantiveram. As traduções atuais, inclusive a portuguesa hospedada aqui, seguem a leitura de 1981.
O segundo é institucional: entre meados do século XIX e 1978, homens de ascendência africana foram excluídos do sacerdócio e das ordenanças do templo. A restrição terminou em junho de 1978, quando a Primeira Presidência anunciou revelação recebida por Spencer W. Kimball estendendo o sacerdócio a todos os homens dignos, texto hoje canonizado como Declaração Oficial 2. Em dezembro de 2013, a igreja publicou o ensaio Raça e o Sacerdócio, que repudia as teorias segundo as quais a pele negra seria sinal de desfavor divino ou de conduta em uma vida pré-mortal, condena o racismo em qualquer forma e afirma que os registros da igreja não esclarecem a origem da restrição. O ensaio repudia as explicações; não classifica a restrição em si como revelação nem como erro.
Evidências e o estado da discussão
Os pontos gerais são os mesmos do Primeiro Livro de Néfi: não há confirmação arqueológica de povos, cidades ou eventos da narrativa nas Américas; o egípcio reformado não corresponde a nenhuma escrita conhecida pela egiptologia; e a genética de populações indígenas americanas aponta origem asiática, sem marcador do Oriente Médio no período relevante.
O que este livro acrescenta ao debate é de outra natureza. Por ser sobretudo discurso e não crônica, ele oferece menos afirmações verificáveis por escavação e mais material para análise textual e teológica. É aqui que se concentram os estudos de vocabulário e de estrutura literária, tanto os que apontam padrões de composição hebraica antiga, como o quiasmo, quanto os que apontam vocabulário e preocupações do protestantismo americano do século XIX, como o debate sobre graça e obras, sobre o batismo infantil e sobre a suficiência da Bíblia. As duas famílias de observação existem, e nenhuma delas encerrou a discussão.