Capítulos

Antiguidades Judaicas - Livro IV

Autor e Data de Composição

Flávio Josefo nasceu em Jerusalém por volta de 37 d.C. com o nome de José, filho de Matias. Era sacerdote e comandou as tropas da Galileia na revolta judaica contra Roma iniciada em 66. Capturou-o o general Vespasiano, a quem teria predito a ascensão ao trono imperial. Liberto e levado a Roma, tornou-se cliente da dinastia Flaviana e por isso adotou o nome Flávio. Morreu provavelmente no início do século II.

As Antiguidades Judaicas (em grego Ioudaikē archaiologia) são uma história do povo judeu em vinte livros, escrita em grego e concluída por volta de 93 ou 94 d.C., no décimo terceiro ano do imperador Domiciano. Os dez primeiros livros recontam a narrativa da Bíblia hebraica, da criação ao período persa. Os dez seguintes vão até a véspera da guerra com Roma. Josefo escreveu para um público greco-romano, com a intenção declarada de demonstrar a antiguidade e a dignidade das leis e da história judaicas.

O Livro IV na Obra

O Livro IV cobre os últimos anos da peregrinação no deserto, da geração condenada a não entrar na terra prometida até a morte de Moisés nas planícies de Moabe. Acompanha o material de Números 14 a 36 e de Deuteronômio: a derrota dos hebreus ao tentar entrar em Canaã contra a ordem de Moisés, a revolta de Coré contra o sacerdócio, os anos de errância, a conquista de Seom e Ogue na Transjordânia, o episódio de Balaão, a guerra contra os madianitas e, por fim, a constituição que Moisés deixa ao povo seguida do relato de sua morte.

Conteúdo do Livro

Fontes e Método

Para esta parte Josefo segue o texto bíblico de Números e Deuteronômio, parafraseado e reorganizado, num procedimento que os estudiosos chamam de "Bíblia reescrita". Ele racionaliza episódios, atenua o que soaria estranho a um leitor greco-romano e dá motivações psicológicas aos personagens. Na revolta de Coré, por exemplo, expande o conflito num discurso político sobre poder e inveja, no estilo dos historiadores gregos. Onde o texto bíblico traz números, Josefo nem sempre coincide com o Texto Massorético.

O ponto mais distintivo do Livro IV é o tratamento da Lei. No capítulo final, em vez de reproduzir os preceitos na ordem dispersa em que aparecem na Torá, Josefo declara que vai apresentá-los como uma constituição ordenada (em grego politeia), reunindo-os por assunto. Ele se justifica de antemão, dizendo não querer que os próprios compatriotas o acusem de alterar a Lei: afirma apenas reorganizar o que Moisés deixou por escrito. O resultado é uma das mais antigas tentativas de sistematizar o direito judaico para um público externo.

O Episódio de Balaão

Josefo dedica espaço considerável a Balaão, o adivinho contratado pelo rei Balaque de Moabe para amaldiçoar Israel e que acaba pronunciando bênçãos. Ele segue de perto Números 22 a 24, inclusive a cena da jumenta que fala, mas acrescenta reflexões sobre a impossibilidade de o homem contrariar a vontade de Deus. Atribui ainda a Balaão o conselho que leva Israel ao pecado com as mulheres de Moabe e Midiã, ligação que a Bíblia só explicita em Números 31. Essa leitura, que faz de Balaão um vilão por trás da apostasia de Baal-Peor, é a mesma que reaparece no Novo Testamento, em referências como a da carta de Judas.

Manuscritos e Transmissão

O texto grego das Antiguidades sobrevive em manuscritos medievais. A edição crítica de referência é a de Benedikt Niese (1885 a 1895), apoiada sobretudo nos códices designados A, M e W. No Ocidente latino circulou uma tradução feita em vinte e dois livros sob a direção de Cassiodoro, em meados do século VI, que moldou a recepção medieval. A tradução inglesa clássica, base da versão usada aqui, é a de William Whiston, de 1737.

Valor Histórico e Cautelas

Para o período do deserto, Josefo não é fonte independente da Bíblia: ele a reconta. Seu valor está no modo como interpreta e organiza o material, sobretudo na sistematização da Lei, que documenta como um sacerdote judeu do século I lia e apresentava a Torá a um público greco-romano. A leitura exige cautela com o programa apologético do autor, com as motivações que ele acrescenta aos personagens e com suas divergências numéricas em relação ao texto bíblico.