Antiguidades Judaicas - Livro IV 5

Livro IV: Coré, Balaão, a Lei e a morte de Moisés

Como Moisés conquistou Seom e Ogue, reis dos amorreus, e destruiu todo o exército deles; e em seguida dividiu por sorteio a terra deles entre duas tribos e meia dos hebreus.

O povo chorou Arão durante trinta dias. Terminado esse luto, Moisés deslocou o exército daquele lugar e chegou ao rio Arnom, que nasce nas montanhas da Arábia, corre por todo aquele deserto e desemboca no lago Asfaltite, marcando a fronteira entre a terra dos moabitas e a terra dos amorreus. Essa terra é fértil e produz o bastante para sustentar um grande número de pessoas com seus frutos. Por isso Moisés enviou mensageiros a Seom, rei daquela região, pedindo que ele concedesse passagem ao seu exército, sob qualquer garantia que quisesse exigir. Prometeu que nada seria prejudicado, nem a região governada por Seom nem os seus habitantes, e que compraria os mantimentos por um preço vantajoso para ele, mesmo que quisesse vender a própria água. Mas Seom recusou a oferta, pôs o exército em ordem de batalha e preparou tudo para impedir a travessia do Arnom.
Quando Moisés viu que o rei amorreu estava disposto a iniciar hostilidades contra eles, julgou que não devia tolerar tamanho insulto. Decidido a livrar os hebreus daquele temperamento indolente e a evitar as desordens que dali surgiam, as mesmas que tinham provocado a revolta anterior (pois nem agora estavam de todo tranquilos de espírito), consultou a Deus para saber se lhe dava permissão de lutar. Feita a consulta, e tendo Deus também lhe prometido a vitória, ele ficou cheio de coragem e pronto para o combate. Assim, animou os soldados e pediu que aproveitassem o prazer de lutar, agora que Deus lhes dava licença para isso. Eles, ao receber essa ordem que tanto desejavam, vestiram toda a armadura e puseram-se à obra sem demora. Mas o rei amorreu não era o mesmo de antes, quando os hebreus se prepararam para atacá-lo. Tanto ele em pessoa ficou apavorado com os hebreus quanto o seu exército, que antes se mostrara corajoso, revelou-se então medroso. Por isso não conseguiram resistir ao primeiro ataque nem fazer frente aos hebreus, mas fugiram, achando que isso lhes daria uma chance maior de escapar do que lutar. Contavam com suas cidades, que eram fortes, mas delas não tiraram proveito algum quando foram forçados a se refugiar ali. Pois assim que os hebreus os viram recuar, perseguiram-nos de perto e, ao romper suas fileiras, encheram-nos de terror. Alguns se desgarraram dos demais e correram para as cidades. Os hebreus, então, perseguiam-nos com vigor e persistiam obstinadamente no esforço que tinham assumido. Muito hábeis com a funda e muito destros em arremessar dardos ou qualquer coisa do gênero, e usando apenas armadura leve, que os deixava rápidos na perseguição, alcançaram os inimigos. E quanto aos que estavam mais distantes e não podiam ser alcançados, atingiam-nos com as fundas e os arcos. Por isso muitos foram mortos, e os que escaparam da matança ficaram gravemente feridos. Esses sofriam mais com a sede do que com qualquer dos que os combatiam, pois era a estação do verão. E quando a maior parte deles desceu até o rio, ansiando por beber, e também quando outros fugiam em grupos, os hebreus os cercavam e atiravam neles. Assim, parte com dardos, parte com flechas, fizeram um massacre de todos. Seom, o rei deles, também foi morto. Os hebreus despojaram os cadáveres e tomaram o saque. A terra que conquistaram estava repleta de frutos em abundância, e o exército percorreu-a toda sem medo, apascentando ali o gado, e capturaram os inimigos como prisioneiros, pois não havia como detê-los, que todos os combatentes tinham sido destruídos. Foi essa a destruição que se abateu sobre os amorreus, que não eram nem sagazes no conselho nem corajosos na ação. Em seguida os hebreus tomaram posse da terra deles, uma região situada entre três rios e que se parece naturalmente com uma ilha: o rio Arnom é o seu limite ao sul, o rio Jaboque define o seu lado norte (esse rio, ao desaguar no Jordão, perde o próprio nome e assume o do outro), enquanto o próprio Jordão corre ao seu lado, na costa oeste.
Chegadas as coisas a esse ponto, Ogue, rei de Gileade e da Gaulanítide, atacou os israelitas. Trouxe consigo um exército e veio às pressas em socorro do seu amigo Seom. Mas, embora o encontrasse morto, mesmo assim resolveu vir e lutar contra os hebreus, supondo que seria forte demais para eles e desejando pôr à prova o valor deles. Sua esperança, no entanto, fracassou: ele próprio foi morto na batalha e todo o seu exército foi destruído. Moisés, então, atravessou o rio Jaboque e percorreu o reino de Ogue. Derrubou suas cidades e matou todos os seus habitantes, que ainda assim superavam em riqueza todos os homens daquela parte do continente, graças à qualidade do solo e à grande quantidade dos seus bens. Ora, Ogue tinha pouquíssimos iguais, fosse no tamanho do corpo, fosse na beleza da aparência. Era também um homem de grande agilidade no uso das mãos, de modo que seus feitos não ficavam aquém do tamanho enorme e da bela aparência do seu corpo. E era fácil avaliar a sua força e a sua estatura quando se examinou a sua cama em Rabá, a cidade real dos amonitas. Ela era de ferro, com quatro côvados de largura e um comprimento de um côvado a mais do que o dobro disso. No entanto, a sua queda não melhorou de imediato a situação dos hebreus, mas, com a sua morte, foi a causa de novos êxitos para eles. Pois logo tomaram aquelas sessenta cidades que eram cercadas de excelentes muralhas e que lhe estavam sujeitas, e todos, em geral e em particular, conseguiram um grande saque.