Antiguidades Judaicas - Livro IV 1
Livro IV: Coré, Balaão, a Lei e a morte de Moisés
A luta dos hebreus contra os cananeus, sem o consentimento de Moisés, e a derrota deles.
A vida dos hebreus no deserto era tão penosa e incômoda, e eles estavam tão descontentes com ela, que, embora Deus os tivesse proibido de provocar os cananeus, não se deixaram convencer a obedecer às palavras de Moisés e a ficar quietos. Imaginando que conseguiriam derrotar os inimigos mesmo sem a aprovação de Deus, acusaram Moisés e suspeitaram que ele se empenhava em mantê-los em situação aflitiva, para que sempre dependessem da ajuda dele. Por isso resolveram lutar contra os cananeus. Diziam que Deus os auxiliava não por consideração às intercessões de Moisés, mas porque cuidava da nação inteira por causa dos antepassados, cujos assuntos ele tomara sob sua própria direção. Diziam também que fora pela virtude deles próprios que Deus antes lhes garantira a liberdade, e que continuaria a ajudá-los agora que estavam dispostos a se esforçar por ela. Afirmavam ainda que possuíam, por si mesmos, capacidade suficiente para conquistar os inimigos, mesmo que Moisés pretendesse afastar Deus deles. E que era vantajoso para eles serem seus próprios senhores, e não se contentarem apenas com a libertação das humilhações que sofreram sob os egípcios a ponto de suportar a tirania de Moisés sobre eles, deixando-se enganar e vivendo conforme a vontade dele. Como se Deus só anunciasse de antemão o que nos diz respeito por benevolência a Moisés, e como se eles todos não fossem descendentes de Abraão. Como se Deus tivesse feito dele o único autor de todo o conhecimento que temos, e ainda tivéssemos de aprendê-lo com ele. Diziam que seria sensato opor-se às pretensões arrogantes de Moisés, depositar a confiança em Deus, decidir tomar posse da terra que ele lhes prometera e não dar ouvidos àquele que, com esse pretexto e sob a alegação de autoridade divina, os proibia de fazê-lo. Considerando, portanto, a situação aflitiva em que se encontravam e que, naqueles lugares desertos, ainda deviam esperar que as coisas piorassem, resolveram lutar contra os cananeus, submetendo-se somente a Deus, seu comandante supremo, e sem aguardar nenhuma ajuda de seu Legislador.
Tomada essa decisão, que julgavam ser a melhor para eles, marcharam contra os inimigos. Mas esses inimigos não se intimidaram nem com o ataque em si nem com a grande multidão que o fazia, e os receberam com muita coragem. Muitos dos hebreus foram mortos, e o restante do exército, em meio à desordem das tropas, foi perseguido e fugiu de modo vergonhoso para o acampamento. Essa desgraça inesperada os deixou completamente desanimados, e não esperavam mais nada de bom, concluindo que aquela aflição vinha da ira de Deus, porque haviam saído para a guerra de forma precipitada, sem a aprovação dele.
Quando Moisés viu o quanto estavam abalados com essa derrota, e temendo que os inimigos se tornassem insolentes com a vitória, quisessem alcançar glória ainda maior e os atacassem, decidiu que era melhor recuar o exército para o deserto, afastando-se ainda mais dos cananeus. Assim, a multidão voltou a se entregar à liderança dele, pois percebia que, sem os cuidados de Moisés, sua situação não poderia melhorar. Ele fez o exército partir e avançou mais para o interior do deserto, com a intenção de deixá-los descansar ali e de não permitir que lutassem contra os cananeus antes que Deus lhes desse uma ocasião mais favorável.