O arrebatamento ao terceiro céu. Em 2 Coríntios, Paulo relata de forma breve e reticente ter sido arrebatado ao terceiro céu, onde ouviu palavras que não é lícito ao homem repetir, e se recusa a descrever a experiência. O Apocalipse de Paulo parte exatamente dessa lacuna: assume a voz de Paulo e preenche o que o apóstolo se calou, narrando em detalhe o tour pelo céu, pela cidade de Cristo e pelo inferno.
Capítulos

Apocalipse de Paulo
Autoria e Data de Composição
O Apocalipse de Paulo, conhecido na tradição latina como Visio Pauli (a Visão de Paulo), é um texto apócrifo anônimo, atribuído de forma pseudoepigráfica ao apóstolo Paulo. A atribuição não é uma assinatura, mas um recurso de autoridade: o livro ancora-se na passagem de 2 Coríntios 12:2-4, em que Paulo diz ter sido "arrebatado ao terceiro céu" e ter ouvido palavras que não lhe era permitido repetir. A obra toma essa lacuna e a preenche, narrando em primeira pessoa o que o apóstolo teria visto.
A maioria dos especialistas data a composição original em grego do final do século IV d.C., provavelmente em ambiente monástico egípcio. A moldura narrativa data a "descoberta" da revelação ao tempo do consulado de Teodósio e Cinégio, por volta de 388 d.C., embora um núcleo do material possa ser anterior. É preciso não confundir esta obra com o Apocalipse Copta de Paulo, um texto gnóstico independente preservado em Nag Hammadi: são livros distintos, sem relação de dependência direta.
A Moldura da Descoberta
O prólogo conta que a revelação teria sido achada enterrada sob os alicerces da casa de Paulo, em Tarso da Cilícia, dentro de uma caixa de mármore, no tempo do imperador Teodósio. Trata-se de um topos literário: uma forma de explicar como um texto "novo" do apóstolo poderia aparecer séculos depois. O historiador eclesiástico Sozômeno, no século V, registrou que investigou a história e que um presbítero idoso de Tarso não tinha lembrança alguma de tal achado, o que reforça a leitura de que a moldura é ficcional. Há, ainda, um deslize cronológico no próprio texto, que nomeia "Teodósio, o Jovem" (Teodósio II), enquanto o consulado citado corresponde ao reinado de Teodósio I.
Recensões e Manuscrito
O Apocalipse de Paulo sobreviveu em várias línguas e versões: além do grego original, há traduções copta, siríaca, e múltiplas recensões latinas, que diferem entre si em extensão e detalhes. A versão traduzida aqui é a recensão latina longa, que é a forma mais completa e a que mais influenciou o Ocidente medieval. As diferentes recensões não são meras cópias: representam um texto que foi reescrito, encurtado e adaptado ao longo de séculos, o que torna difícil falar de um único texto "original" estável.
Conteúdo Principal
Depois da moldura da descoberta, a obra abre com a criação clamando contra os pecadores: o sol, a lua, o mar, as águas e a terra pedem licença a Deus para punir a humanidade, e a cada vez Deus responde que sua paciência os suporta até o arrependimento. Em seguida, os anjos prestam contas diariamente das obras de cada homem. O centro do livro é o juízo individual da alma no momento da morte, descrito duas vezes em paralelo: primeiro o destino do justo, depois o do pecador. Paulo é então levado num tour pela terra da promessa e pela cidade de Cristo, depois pelo inferno e seus castigos, e por fim ao Paraíso, onde encontra os patriarcas e profetas.
- Um anjo manda um nobre abrir os alicerces da casa de Paulo em Tarso e tornar público o que achar — (Apocalipse de Paulo 1:1)
- Sob os alicerces, uma caixa de mármore com a revelação e as sandálias de Paulo, enviada ao imperador Teodósio — (Apocalipse de Paulo 1:2)
- Paulo declara que foi arrebatado ao terceiro céu e ouviu a palavra do Senhor contra os pecadores — (Apocalipse de Paulo 1:3)
- O sol pede licença para punir os homens, e Deus responde que sua paciência os suporta até que se arrependam — (Apocalipse de Paulo 1:4)
- O mar, as águas e a terra clamam ao Senhor contra os pecados dos homens — (Apocalipse de Paulo 1:6)
- A cada dia os anjos sobem a Deus e relatam todas as obras de cada homem, boas ou más — (Apocalipse de Paulo 2:3)
- A alma do justo deixa o corpo escoltada por anjos santos e é levada a adorar diante de Deus — (Apocalipse de Paulo 3:1)
- A alma do ímpio é entregue ao anjo Tartaruco e posta nas trevas exteriores até o dia do juízo — (Apocalipse de Paulo 3:3)
- Diante do juiz, a alma pecadora mente dizendo que não pecou, mas seus pecados ficam todos à mostra — (Apocalipse de Paulo 4:1)
- Já no Paraíso, Paulo encontra Enoque, o escriba da justiça — (Apocalipse de Paulo 5:1)
- A cidade de Cristo, toda de ouro, cercada por quatro rios: de mel, de leite, de vinho e de óleo — (Apocalipse de Paulo 5:4)
- O anjo explica a Paulo o sentido da palavra Aleluia e o dever de todos cantarem juntos — (Apocalipse de Paulo 5:11)
- Um rio de fogo e poços de profundidade sem medida, cheios das almas dos que não esperaram no Senhor — (Apocalipse de Paulo 6:2)
- Castigos específicos para clero negligente: presbítero, bispo e diácono que não cumpriram o ministério — (Apocalipse de Paulo 6:5)
- O poço selado com sete selos, reservado a quem nega a encarnação de Cristo e a Eucaristia — (Apocalipse de Paulo 7:1)
- Miguel e os anjos descem ao lugar dos castigos, e os condenados imploram compaixão — (Apocalipse de Paulo 7:3)
- Por intercessão de Miguel e de Paulo, Cristo concede aos condenados um dia e uma noite de alívio — (Apocalipse de Paulo 7:4)
- Paulo entra no Paraíso, vê os quatro rios brotando de uma árvore e a árvore da vida — (Apocalipse de Paulo 8:1)
- Os patriarcas Abraão, Isaque e Jacó saúdam Paulo no Paraíso — (Apocalipse de Paulo 8:3)
A Moldura: a Revelação Achada em Tarso
A Criação Clama e os Anjos Prestam Contas
A Morte e o Juízo das Almas
A Terra da Promessa e a Cidade de Cristo
O Inferno e os Castigos
O Descanso dos Condenados e o Paraíso
O Tour pelo Inferno e o Castigo do Clero
A parte mais marcante do livro é a descrição minuciosa do inferno: um rio de fogo, poços de profundidade sem medida, vermes que devoram, frio e ranger de dentes. Cada castigo é casado com um pecado específico, num esquema que ficaria padrão na imaginação cristã do além. Chama a atenção que vários dos torturados são membros do clero: o presbítero que comia, bebia e oferecia a hóstia em pecado, o bispo que não teve piedade de viúvas e órfãos, e o diácono que devorava as oferendas. O texto também reserva o poço selado com sete selos para os que negam a encarnação de Cristo e a presença real na Eucaristia, o que revela suas preocupações doutrinárias.
O Refrigerium: o Descanso dos Condenados
Um dos elementos mais influentes da obra é o chamado refrigerium: por intercessão de Miguel, dos anjos e do próprio Paulo, Cristo concede aos condenados um dia e uma noite de alívio de seus tormentos, a cada Dia do Senhor (o domingo). Os próprios condenados declaram que um único dia de descanso vale mais do que toda a vida que passaram na terra. Essa cena, em que a pena infernal não é totalmente imutável e admite intercessão e alívio, costuma ser apontada como uma das sementes literárias das ideias medievais de purgatório e de oração pelos mortos, ainda que a obra não use esses termos nem articule a doutrina como ela viria a ser formulada depois.
Comparação com o Relato Canônico
O ponto de partida da obra é uma única frase de Paulo em 2 Coríntios:
Influência na Divina Comédia de Dante
O Apocalipse de Paulo foi, segundo os estudiosos, a visão apócrifa do além mais popular da Idade Média, e teve impacto direto na geografia imaginária do mundo dos mortos. O tour guiado por um acompanhante celeste, a paisagem detalhada do inferno com castigos correspondentes a pecados, a terra luminosa dos justos e a ideia de alívio periódico para os condenados foram retomados, séculos depois, na Divina Comédia de Dante Alighieri. O próprio Dante cita Paulo (junto de Enéias) como precedente para uma viagem ao além, e a estrutura do Inferno deve muito à tradição que esta obra ajudou a consolidar.
Status Canônico
O Apocalipse de Paulo não é canônico em nenhuma tradição cristã: nem católica, nem ortodoxa, nem protestante. Ainda na Antiguidade ele foi rejeitado: Agostinho, no início do século V, registrou que a obra não era aceita pela igreja, e tanto o Decreto Gelasiano quanto a chamada Lista dos Sessenta Livros a incluíram entre os escritos condenados. Apesar dessa condenação oficial, o texto se tornou imensamente popular e circulou amplamente na Idade Média, o que ilustra a distância que podia existir entre a posição das autoridades e a devoção popular.
Sobre Esta Tradução
O texto em português disponibilizado aqui foi traduzido a partir da versão em inglês de domínio público da recensão latina longa, preparada por Andrew Rutherfurd e publicada em 1896 no volume 9 dos Ante-Nicene Fathers. Por seguir essa recensão, alguns detalhes (extensão das cenas, ordem de certos episódios) podem divergir das versões grega, copta ou de outras recensões latinas do mesmo apocalipse.