Olho por olho, dente por dente
Capítulos
Código de Hamurabi
Autoria e Data de Composição
O Código de Hamurabi é o mais extenso código de leis que sobreviveu da Mesopotâmia. Foi promulgado por Hamurabi, sexto rei da primeira dinastia da Babilônia, que reinou por volta de 1792 a 1750 a.C. segundo a cronologia média, a mais usada hoje. A datação absoluta é debatida porque depende da cronologia da Idade do Bronze mesopotâmica, com propostas que variam em algumas décadas.
O texto está gravado em acádio, em escrita cuneiforme, numa estela de pedra escura de mais de dois metros, em geral descrita como basalto ou diorito (a identificação exata ainda é discutida). No topo, um relevo mostra o rei diante de Shamash, o deus-sol da justiça, recebendo os símbolos do poder. O código tem três partes: um prólogo, cerca de 282 leis numeradas e um epílogo. A obra não tem autor no sentido moderno: ela é a voz oficial do rei, e boa parte das suas disposições retoma tradições jurídicas mais antigas da Suméria e de Akkad.
Conteúdo
- Anu, Bel e Marduk encarregam Hamurabi de fazer a justiça brilhar na terra e impedir que o forte oprima o fraco — (Código de Hamurabi 1:2)
- Hamurabi se proclama o sol da Babilônia, que lança luz sobre a Suméria e Akkad — (Código de Hamurabi 1:13)
- Quem acusa outro sem provar a acusação é condenado à morte — (Código de Hamurabi 2:1)
- O furto se paga em múltiplos do valor roubado, ou com a morte se o ladrão não puder pagar — (Código de Hamurabi 2:8)
- Quem se vende ou vende a família por dívida serve três anos e é libertado no quarto — (Código de Hamurabi 2:117)
- Adultério punido com a morte do casal, salvo perdão do marido e do rei — (Código de Hamurabi 2:129)
- Olho por olho entre homens livres, mas a pena muda conforme a classe da vítima — (Código de Hamurabi 2:196)
- Dente por dente, a fonte mesopotâmica da fórmula que reaparece em Êxodo e Levítico — (Código de Hamurabi 2:200)
- O cirurgião que mata o paciente em operação tem a mão decepada — (Código de Hamurabi 2:218)
- O construtor cuja casa desaba e mata o dono é condenado à morte — (Código de Hamurabi 2:229)
- O boi sabidamente perigoso que mata uma pessoa custa multa ao dono, como em Êxodo 21 — (Código de Hamurabi 2:251)
- Maldição contra quem apagar ou alterar as leis gravadas na estela — (Código de Hamurabi 3:10)
- Os grandes deuses são invocados, um a um, para arruinar quem desfizer a obra do rei — (Código de Hamurabi 3:14)
Prólogo: o rei nomeado pelos deuses
As leis: a vida cotidiana na Babilônia
Talião e penas corporais
Epílogo: bênçãos e maldições
Manuscritos e edições
A estela foi encontrada em 1901 e 1902 pela expedição francesa de Jacques de Morgan em Susa, no atual Irã, para onde havia sido levada como espólio de guerra pelo rei elamita Shutruk-Nahhunte por volta de 1158 a.C. Foi nessa pilhagem que cerca de sete colunas de leis foram raspadas da pedra, o que explica a lacuna entre as leis 65 e 100 no texto que temos. A estela está hoje no Museu do Louvre, em Paris.
A tradução em português deste site parte da versão inglesa de domínio público de Leonard W. King, de 1910, a mesma base usada pelo Avalon Project da Universidade Yale, modernizada para o leitor brasileiro. A numeração das leis segue a ordem clássica fixada por Vincent Scheil, que não usa o número 13.
Paralelos bíblicos
O ponto de contato mais famoso é a lei de talião. As leis 196, 197 e 200 estabelecem olho por olho, osso por osso e dente por dente, a mesma fórmula que aparece em Êxodo 21:23-25, Levítico 24:19-20 e Deuteronômio 19:21, e que Jesus cita em Mateus 5:38. Outros paralelos legais próximos incluem o boi que chifra e mata (leis 250 a 252 e Êxodo 21:28-32), o sequestro de uma pessoa (lei 14 e Êxodo 21:16), a escravidão por dívida com prazo de libertação (lei 117 e Êxodo 21:2) e a restituição múltipla por furto (lei 8 e Êxodo 22:1).
Há também uma diferença de fundo. Em Hamurabi a pena varia conforme a classe social: ferir um homem livre, um plebeu ou um escravo gera consequências diferentes, e em certos casos a punição recai sobre um inocente, como o filho do construtor ou a filha do agressor. A lei mosaica aplica o talião de forma igual entre as partes e proíbe punir o filho pelo crime do pai (Deuteronômio 24:16). Se Israel conheceu o código babilônico diretamente ou se ambos bebem de uma tradição jurídica comum do Antigo Oriente é uma questão debatida, sem consenso.
O fecho do código também tem paralelo de gênero. O epílogo encerra com bênçãos a quem honrar as leis e uma longa série de maldições contra quem as alterar, no mesmo molde das bênçãos e maldições que selam a aliança em Levítico 26 e Deuteronômio 28, e dos tratados de vassalagem do Antigo Oriente. A cláusula que proíbe modificar o texto lembra Deuteronômio 4:2 e Apocalipse 22:18-19. Aqui também o paralelo é de forma e de cultura jurídica compartilhada, não prova de empréstimo direto.
Comparativo com a Bíblia
A tabela abaixo alinha leis de Hamurabi com passagens bíblicas que tratam do mesmo tema, para o leitor comparar diretamente. O alinhamento é temático e jurídico, não uma afirmação de cópia.
O boi que chifra e mata uma pessoa
Escravidão por dívida com prazo para a libertação
Sequestrar um homem é crime capital
Quem bate no próprio pai é punido com severidade
Bênçãos e maldições fecham o código de leis