Pérola de Grande Valor
Sobre a Pérola de Grande Valor
A Pérola de Grande Valor é a menor das obras canônicas da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e a mais heterogênea. Foi reunida em Liverpool, na Inglaterra, em 1851, por Franklin D. Richards, então presidente da Missão Britânica e membro do Quórum dos Doze. Ele juntou num volume barato textos de Joseph Smith espalhados por periódicos e manuscritos, para atender aos conversos ingleses que pediam mais material. O conteúdo mudou nas edições seguintes e ganhou estatuto de escritura canônica em 10 de outubro de 1880, por voto da conferência geral em Salt Lake City. A edição atual tem cinco textos.
O que distingue esta coletânea é justamente não ter uma natureza única. O Livro de Mórmon se apresenta como tradução de um registro antigo, do começo ao fim. Aqui convivem cinco tipos diferentes de texto, e cada um levanta perguntas próprias: uma revelação declarada, uma tradução anunciada de papiros egípcios, uma revisão do texto bíblico, uma autobiografia e uma lista de declarações doutrinárias. Ler a Pérola como se fosse um livro só é o erro mais comum de quem chega nela pela primeira vez.
| Texto | Natureza declarada | Data de produção |
|---|---|---|
| Moisés | Revelação recebida durante a revisão da Bíblia | Junho de 1830 a fevereiro de 1831 |
| Abraão | Tradução anunciada de papiros egípcios | A partir de 1835, publicado em 1842 |
| Joseph Smith - Mateus | Revisão de um trecho do Evangelho de Mateus | 1831 |
| Joseph Smith - História | Relato autobiográfico | 1838, publicado a partir de 1842 |
| Regras de Fé | Declaração doutrinária resumida | 1842 |
Os cinco textos
O que cada texto traz
- Moisés: reescreve e expande Gênesis 1 a 6, com uma visão inicial de Moisés, o relato de Satanás e Caim e um longo trecho sobre Enoque e a cidade de Sião — (Moisés 1:39)
- Abraão: a fuga de Abraão de Ur e doutrinas sem paralelo bíblico sobre a preexistência das almas, um conselho de deuses e o astro Colobe — (Abraão 3:22)
- Joseph Smith - Mateus: revisão do discurso do monte das Oliveiras, com a ordem dos versículos alterada e material acrescentado — (Joseph Smith - Mateus 1:1)
- Joseph Smith - História: a Primeira Visão de 1820, as aparições do anjo Morôni e a obtenção das placas — (Joseph Smith - História 1:17)
- Regras de Fé: treze declarações extraídas da carta de 1842 a John Wentworth, editor do jornal Chicago Democrat — (Regras de Fé 1:1)
Moisés e Joseph Smith - Mateus: a revisão da Bíblia
Os dois textos nascem do mesmo projeto. Entre 1830 e 1833 Joseph Smith trabalhou numa revisão da Bíblia King James, hoje chamada Tradução de Joseph Smith, feita sem consulta a manuscritos hebraicos ou gregos e apresentada como restauração de material perdido, não como trabalho filológico. O livro de Moisés corresponde à parte inicial dessa revisão, sobre Gênesis, e Joseph Smith - Mateus corresponde ao trecho de Mateus 23:39 a 24:51. A Pérola preserva esses dois blocos como escritura à parte.
O interesse comparativo é direto para quem conhece o texto bíblico. Moisés acrescenta a Gênesis um prólogo onde Deus mostra a Moisés a criação de mundos sem fim, dá a Adão e Eva um evangelho pregado desde o princípio, atribui a Caim um pacto com Satanás e desenvolve Enoque, que em Gênesis ocupa quatro versículos, em uma cidade inteira arrebatada ao céu. Joseph Smith - Mateus reordena o discurso escatológico e insere material que não está nos manuscritos gregos conhecidos.
Onde comparar com a Bíblia
- A obra e a glória de Deus, num prólogo sem paralelo em Gênesis — (Moisés 1:39)
- A cidade de Enoque, sem pobres entre eles — (Moisés 7:18)
- Gênesis 5, onde Enoque ocupa poucos versículos — (Gn 5:21)
- O discurso do monte das Oliveiras reordenado — (Joseph Smith - Mateus 1:1)
- Mateus 24, o texto bíblico correspondente — (Mt 24:3)
Pois eis que esta é minha obra e minha glória: Levar a efeito a imortalidade e vida eterna do homem.
Abraão: o texto mais disputado do cânone mórmon
Em 1835 Joseph Smith comprou de um expositor itinerante quatro múmias e vários rolos de papiro egípcio, e anunciou que um deles continha escritos do próprio Abraão. O texto resultante foi publicado em 1842 no jornal Times and Seasons, com três fac-símiles reproduzidos em gravura e explicações de cada figura. Doutrinariamente, é a passagem mais influente da Pérola: dela vêm a preexistência dos espíritos, a ideia de que Deus organizou a matéria em vez de criar a partir do nada, e a linguagem de um conselho de deuses.
Os papiros eram tidos como perdidos no incêndio de Chicago de 1871 até que fragmentos foram identificados e entregues à Igreja pelo Metropolitan Museum of Art em novembro de 1967. Egiptólogos que os examinaram, dentro e fora da Igreja, concluíram que se trata de textos funerários egípcios comuns, sobretudo um Livro dos Respiros e cópias do Livro dos Mortos, datados entre o século III a.C. e o século I d.C., sem relação com Abraão. As explicações dos fac-símiles também não correspondem à leitura egiptológica das figuras.
A Igreja publicou em julho de 2014 o ensaio Tradução e historicidade do Livro de Abraão, que reconhece o problema e apresenta duas hipóteses sem escolher entre elas. A primeira é que o rolo com o texto de Abraão não está entre os fragmentos recuperados, que seriam parte pequena do acervo original. A segunda é a chamada teoria do catalisador: os papiros teriam servido de ocasião para uma revelação, e não de fonte traduzida no sentido usual. Críticos respondem que o próprio manuscrito de trabalho de Joseph Smith alinha caracteres do papiro recuperado com trechos do texto, o que dificulta a primeira hipótese, e que a segunda esvazia a palavra tradução usada na publicação de 1842. Os defensores apontam elementos do texto que teriam paralelo em tradições judaicas antigas sobre Abraão, inacessíveis a Joseph Smith. O debate permanece aberto.
Ora, o Senhor mostrara a mim, Abraão, as inteligências que foram organizadas antes de o mundo existir; e entre todas essas havia muitas das nobres e grandes.
E então o Senhor disse: Desçamos. E eles desceram no princípio; e eles, isto é, os Deuses, organizaram e formaram os céus e a Terra.
Joseph Smith - História: o texto fundador
O relato foi escrito em 1838 e narra em primeira pessoa a Primeira Visão de 1820, quando Joseph Smith, adolescente, diz ter visto dois personagens num bosque perto de sua casa, e depois as aparições do anjo Morôni e a obtenção das placas. É o texto que a Igreja usa como ponto de partida da sua história e o mais lido por quem investiga a fé.
Existem pelo menos quatro relatos da Primeira Visão escritos ou ditados por Joseph Smith entre 1832 e 1842, além de relatos de contemporâneos, e eles diferem em detalhes: o número e a identidade dos personagens, a idade do narrador e o motivo que o levou ao bosque. A Igreja tratou essas diferenças no ensaio Relatos da Primeira Visão, de 2013, argumentando que a variação é a esperada em narrativas feitas em momentos e para públicos diferentes, e que o núcleo se mantém. Críticos sustentam que a versão de 1832, a mais antiga, menciona um só personagem e um contexto de busca de perdão pessoal, e que o enquadramento das denominações rivais é posterior. As duas leituras trabalham sobre os mesmos documentos, hoje publicados na íntegra no projeto Joseph Smith Papers.
Os momentos do relato
- A aparição dos dois personagens no bosque — (Joseph Smith - História 1:17)
- O anjo fala do livro escrito em placas de ouro — (Joseph Smith - História 1:34)
- A passagem de Tiago que motivou a oração — (Tg 1:5)
Regras de Fé: o resumo doutrinário
As treze Regras de Fé saíram da carta que Joseph Smith escreveu em 1842 a John Wentworth, editor do jornal Chicago Democrat, que pedira um resumo das crenças do grupo. Não são um credo no sentido dos concílios antigos, nem pretendem cobrir toda a doutrina. Ainda assim, são o texto mais citado quando se compara o mormonismo com o cristianismo histórico, porque põem lado a lado os pontos de acordo e os de divergência. A oitava regra é a mais debatida em conversas entre cristãos e Santos dos Últimos Dias, porque condiciona a autoridade da Bíblia à correção da tradução e coloca o Livro de Mórmon no mesmo plano.
Cremos ser a Bíblia a palavra de Deus, desde que esteja traduzida corretamente; também cremos ser o Livro de Mórmon a palavra de Deus.
Recepção
A Pérola de Grande Valor é escritura canônica para os cerca de 17,88 milhões de membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias declarados ao fim de 2025. A Comunidade de Cristo, a segunda maior ramificação do movimento, nunca a canonizou. As demais tradições cristãs não a reconhecem como escritura, e é aqui, mais do que no Livro de Mórmon, que ficam as divergências doutrinárias de fundo com o cristianismo histórico: a pluralidade de deuses no relato da criação em Abraão, a preexistência dos espíritos e a organização da matéria em vez da criação a partir do nada.
Este site hospeda o texto integral da edição oficial em português para leitura e comparação, com as mesmas ferramentas usadas nas demais obras. Publicar não é endossar nem refutar: quem quer comparar precisa antes poder ler.
Volumes
- MoisésRevelação recebida entre junho de 1830 e fevereiro de 1831 durante a revisão que Joseph Smith fazia da Bíblia. Reescreve e expande Gênesis 1 a 6, acrescentando uma visão inicial de Moisés, o relato de Satanás e Caim e um longo trecho sobre Enoque e a cidade de Sião8 cap.
- AbraãoTexto que Joseph Smith apresentou como tradução de papiros egípcios adquiridos em 1835. Narra a fuga de Abraão de Ur e expõe doutrinas sem paralelo bíblico sobre a preexistência das almas, um conselho de deuses e uma cosmologia centrada no astro Kolobe. É a parte mais disputada do cânone mórmon5 cap.
- Joseph Smith - MateusRevisão de Mateus 23:39 a 24:51, o discurso de Jesus no monte das Oliveiras sobre a destruição de Jerusalém e os sinais do fim, com a ordem dos versículos alterada e material acrescentado em relação ao texto bíblico1 cap.
- Joseph Smith - HistóriaRelato autobiográfico escrito em 1838 e o texto fundador do mormonismo: a Primeira Visão de 1820, as aparições do anjo Morôni, a obtenção das placas de ouro e a restauração declarada do sacerdócio1 cap.
- Regras de FéTreze declarações extraídas da carta que Joseph Smith escreveu ao jornalista John Wentworth em 1842. É o resumo doutrinário mais citado do mormonismo e o ponto de partida usual para comparar suas afirmações com os credos cristãos históricos1 cap.