Capítulos

Um jovem ajoelhado num bosque, envolto em luz vinda do alto

Joseph Smith - História

Relato autobiográfico escrito em 1838 e o texto fundador do mormonismo: a Primeira Visão de 1820, as aparições do anjo Morôni, a obtenção das placas de ouro e a restauração declarada do sacerdócio

Sobre a obra

Joseph Smith - História é o texto fundador do mormonismo. Trata-se de um relato autobiográfico em que Joseph Smith (1805 a 1844) narra, em primeira pessoa, os acontecimentos que segundo ele deram origem a A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias: uma visão em 1820, as aparições de um anjo a partir de 1823, a obtenção e tradução de placas de ouro, e a restauração do sacerdócio em 1829.

O texto tem um único capítulo, com 75 versículos. É um extrato de uma história maior da Igreja que Smith começou a ditar em 1838, em Far West, no Missouri, com auxílio de escribas. Foi publicado em série no jornal Times and Seasons, em Nauvoo, a partir de 1842, incluído na coletânea Pérola de Grande Valor organizada por Franklin D. Richards em 1851 e aceito como escritura por voto de conferência geral em 10 de outubro de 1880.

Duas observações de enquadramento importam para o leitor. Primeira: o relato foi escrito dezoito anos depois do evento central que descreve, num momento em que Smith já liderava uma igreja sob perseguição, e o próprio texto declara esse propósito, responder a publicações hostis. Segunda: o extrato canonizado para em maio de 1829, com a restauração do Sacerdócio Aarônico; a organização da Igreja em abril de 1830, a restauração do Sacerdócio de Melquisedeque e os testemunhos das testemunhas das placas ficam fora dele, ainda que sejam mencionados de passagem ou apareçam em outros documentos.

Devido às muitas publicações que foram postas em circulação, por pessoas maldosas e insidiosas, com relação ao surgimento e progresso de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, todas elas dispostas a opor-se a ela como igreja.

Joseph Smith - História 1:1

O que o texto narra

Da agitação religiosa à Primeira Visão

Morôni, as placas e a tradução

A restauração do sacerdócio

A Primeira Visão e seus relatos múltiplos

O episódio de 1820 é o núcleo teológico do texto e o ponto mais estudado. Um dado historiográfico é hoje consensual e reconhecido pelas duas partes: existe mais de um relato da Primeira Visão feito por Joseph Smith, e eles diferem entre si.

São ao menos quatro relatos escritos ou ditados por ele, além de relatos de contemporâneos. O de 1832, o mais antigo, é o único que contém trechos da letra do próprio Smith; nele o motivo declarado é a consciência dos próprios pecados, a conclusão de que nenhuma igreja correspondia à do Novo Testamento já estaria formada antes da oração, e uma só personagem aparece, o Senhor, que perdoa seus pecados. O de 1835, contado a Robert Matthews em Kirtland, menciona um personagem seguido de outro, e ainda a presença de anjos, sem nomear as personagens. O de 1838, que é o canonizado e o que se lê aqui, organiza a narrativa em torno da pergunta sobre qual igreja é a verdadeira, traz duas personagens identificadas como o Pai e o Filho, e inclui a condenação dos credos. O de 1842, na carta a John Wentworth, resume o episódio para público externo.

As leituras divergem sobre o que essa variação significa. Para críticos, a progressão sugere que a narrativa foi desenvolvida com o tempo, ganhando elementos ausentes na versão mais antiga, o que enfraqueceria seu valor como registro de um evento de 1820. Para a apologética dos Santos dos Últimos Dias, relatos de uma mesma experiência contados a públicos diferentes e com propósitos diferentes divergem em ênfase sem se contradizerem, padrão que também se observa nos relatos da conversão de Paulo no livro de Atos.

A própria Igreja tratou o assunto publicamente. Em novembro de 2013 publicou o ensaio Relatos da Primeira Visão, na série Tópicos do Evangelho, que reconhece a existência dos vários relatos, descreve suas diferenças e sustenta que elas refletem circunstâncias de narração, não invenção. O ensaio é hoje o ponto de partida obrigatório da discussão, tanto para quem defende quanto para quem questiona.

Quando a luz pousou sobre mim, vi dois Personagens cujo esplendor e glória desafiam qualquer descrição, pairando no ar, acima de mim. Um deles falou-me, chamando-me pelo nome, e disse, apontando para o outro: Este é Meu Filho Amado. Ouve-O!

Joseph Smith - História 1:17

O debate sobre o avivamento de 1820

O relato de 1838 abre situando a visão num contexto: um alvoroço religioso incomum na região, com multidões unindo-se às diferentes denominações. Esse detalhe virou objeto de disputa histórica.

Em 1967, o pastor presbiteriano Wesley P. Walters publicou pesquisa em registros eclesiásticos e jornais da área argumentando que não houve avivamento em Palmyra em 1820. Segundo ele, houve atividade revivalista em 1816 e 1817 e novamente em 1824 e 1825, mas não no ano indicado, e a lembrança de Smith teria fundido eventos posteriores.

O professor de religião da Universidade Brigham Young Milton V. Backman Jr. respondeu apresentando registros de crescimento de congregações, notícias de imprensa e relatos de reuniões metodistas na região mais ampla em 1820, e argumentou que Smith fala de uma região e de um distrito, não apenas da vila de Palmyra. Pesquisas posteriores de historiadores dos Santos dos Últimos Dias apontam ainda reuniões campais metodistas nas imediações no período.

O núcleo da divergência é metodológico, e vale registrá-lo como tal: Walters delimita a busca à vila de Palmyra e ao ano de 1820; Backman amplia o recorte geográfico e cronológico. As duas leituras se apoiam em documentos reais, e a controvérsia segue aberta na literatura especializada.

O anjo chamado Néfi na primeira publicação

O mensageiro de 1823 é identificado no texto atual como Morôni. Não foi sempre assim na letra impressa. Quando a história de Smith foi publicada no Times and Seasons em 1842, o nome que apareceu foi Néfi, outro personagem do Livro de Mórmon. A leitura Néfi foi mantida na edição de 1851 da Pérola de Grande Valor, na Inglaterra, e alterada para Morôni por Orson Pratt na edição de 1878.

A discrepância é reconhecida pelos dois lados; o que se disputa é a explicação. A apologética dos Santos dos Últimos Dias observa que o mensageiro já havia sido chamado de Morôni em publicações anteriores a 1842, incluindo o Elders Journal de 1838, textos de Oliver Cowdery de 1835, e até a obra hostil Mormonism Unvailed, de 1834, e conclui que a forma Néfi foi erro de escriba ou de tipografia, não uma mudança de versão. Críticos respondem que o erro sobreviveu a sucessivas edições sem correção e sustentam que a identidade do anjo permaneceu instável no material inicial. O manuscrito e as edições estão publicados no projeto Joseph Smith Papers, e o leitor pode verificar as leituras diretamente.

O episódio Anthon, em 1828

No inverno de 1828, Martin Harris levou uma folha com caracteres copiados das placas a Nova York, procurando peritos. O relato incorporado ao texto é a versão que Harris contou a Smith na volta: o professor Charles Anthon, do Columbia College, teria certificado a autenticidade dos caracteres e a exatidão da tradução, e destruído o certificado ao saber que as placas vieram de um anjo, dizendo em seguida a frase que os Santos dos Últimos Dias leem como cumprimento de profecia.

Os dois lados do episódio

  • O relato de Martin Harris, tal como incorporado ao texto de Joseph Smith(Joseph Smith - História 1:64)
  • A resposta atribuída a Anthon, "não posso ler um livro selado", lida como cumprimento de Isaías(Is 29:11)

Anthon deixou duas cartas sobre o encontro, uma em 1834 a Eber D. Howe e outra em 1841 a T. W. Coit, ambas negando a versão de Harris e afirmando que dissera ao visitante que ele era vítima de fraude. As duas cartas, porém, divergem entre si quanto a ele ter ou não entregado uma opinião por escrito. A avaliação depende de qual testemunho se considere mais confiável: críticos privilegiam a negativa de Anthon, um filólogo clássico reconhecido; defensores apontam a contradição interna entre suas cartas e o interesse do professor em não ser associado ao caso depois de ele se tornar notório. Não há documento independente que resolva a questão, e os caracteres reproduzidos, conhecidos como transcrito de Anthon, nunca foram identificados com nenhuma escrita antiga conhecida.

As testemunhas das placas

O relato canonizado termina antes de junho de 1829, mas o episódio das testemunhas pertence à mesma sequência de eventos e é inseparável dele. Dois documentos são impressos até hoje nas páginas iniciais do Livro de Mórmon.

O Testemunho das Três Testemunhas, assinado por Oliver Cowdery, David Whitmer e Martin Harris, declara que um anjo lhes mostrou as placas e que ouviram a voz de Deus atestar a tradução. O Testemunho das Oito Testemunhas, assinado por Christian Whitmer, Jacob Whitmer, Peter Whitmer Jr., John Whitmer, Hiram Page, Joseph Smith Sr., Hyrum Smith e Samuel H. Smith, declara em linguagem deliberadamente material que viram e manusearam as placas e viram as gravações nelas.

A apologética dos Santos dos Últimos Dias sublinha um dado documentado: os três primeiros romperam com Smith entre dezembro de 1837 e abril de 1838, foram excomungados ou cortados da Igreja, tinham motivo para desmentir, e nenhum deles retratou publicamente o testemunho até a morte. Os críticos apontam declarações atribuídas a Martin Harris em que ele fala de ter visto as placas com olho espiritual ou com olhos da fé, incluindo o relato de Stephen Burnett em 1838, e argumentam que a experiência foi visionária e não física. Historiadores dos Santos dos Últimos Dias respondem que Harris também descreveu a experiência em termos sensoriais em outras ocasiões, e que a linguagem de visão indica caráter sagrado, não irrealidade. A questão de o que exatamente as testemunhas viram permanece disputada; a de que não se retrataram, não.

Por que este texto importa

Praticamente tudo o que distingue o mormonismo das tradições cristãs credais deriva das afirmações contidas aqui. A apostasia universal, a ideia de que todas as igrejas existentes haviam se afastado da verdade, justifica a necessidade de uma restauração e não de uma reforma. A revelação continuada e a existência de escritura além da Bíblia decorrem da história das placas. A autoridade do sacerdócio, conferida por mensageiros identificados como personagens do Novo Testamento, sustenta a estrutura da Igreja e a validade de suas ordenanças.

Por isso o texto é lido de dois modos irredutíveis. Para os Santos dos Últimos Dias, é testemunho de primeira mão de eventos históricos, e a sua veracidade é a base do sistema. Para historiadores que não partem desse pressuposto, é fonte primária sobre a religião popular do interior de Nova York na primeira metade do século XIX, região tão marcada por avivamentos que ficou conhecida como o Distrito Queimado, e sobre a construção de uma memória fundadora ao longo de duas décadas.

Este site hospeda o texto integral para leitura direta. As perguntas historiográficas ficam registradas acima com as posições que existem sobre cada uma, e o leitor as avalia por conta própria.

(Joseph Smith - História 1:1)