Capítulos

Uma figura contemplando um céu estrelado com um diagrama celeste

Abraão

Texto que Joseph Smith apresentou como tradução de papiros egípcios adquiridos em 1835. Narra a fuga de Abraão de Ur e expõe doutrinas sem paralelo bíblico sobre a preexistência das almas, um conselho de deuses e uma cosmologia centrada no astro Kolobe. É a parte mais disputada do cânone mórmon

Sobre o livro

O Livro de Abraão é um texto de cinco capítulos que integra a Pérola de Grande Valor, um dos volumes canônicos de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Ele se apresenta como escrito pelo próprio Abraão, em primeira pessoa, e narra sua fuga de Ur dos caldeus, a aliança que recebe de Deus, uma visão da ordem dos astros e do mundo pré-mortal, e um relato da criação.

O texto foi publicado pela primeira vez em três entregas do Times and Seasons, jornal da igreja em Nauvoo, Illinois, entre 1 de março e 16 de maio de 1842. Saiu acompanhado de três gravuras chamadas fac-símiles, com explicações atribuídas a Joseph Smith. Entrou na coletânea de 1851 organizada por Franklin D. Richards em Liverpool e foi canonizado com o restante da Pérola de Grande Valor em 10 de outubro de 1880. Fora do movimento dos Santos dos Últimos Dias nenhuma tradição religiosa o tem como escritura, e dentro do próprio movimento a recepção varia: a Comunidade de Cristo não o inclui em seu cânone, enquanto grupos fundamentalistas o mantêm.

A origem: os papiros de 1835

Em julho de 1835, Michael Chandler levou a Kirtland, Ohio, uma coleção de múmias egípcias e rolos de papiro que exibia em turnê. Membros da igreja compraram o lote. Joseph Smith declarou que um dos rolos continha escritos de Abraão e outro escritos de José do Egito, e passou a produzir o texto que veio a ser publicado em 1842.

Jean-François Champollion havia anunciado a decifração dos hieróglifos em 1822. O conhecimento ainda não circulava nos Estados Unidos em 1835, e não havia no país egiptólogos capazes de ler os papiros. Os documentos ligados ao trabalho, hoje chamados de Papéis Egípcios de Kirtland, incluem uma tentativa de gramática e alfabeto da língua egípcia. Estão publicados na edição acadêmica dos Joseph Smith Papers.

Acreditou-se por muito tempo que os papiros haviam sido destruídos no grande incêndio de Chicago em 1871. Em 1966 o professor Aziz S. Atiya identificou fragmentos deles no acervo do Metropolitan Museum of Art, em Nova York. Os onze fragmentos foram entregues à igreja em novembro de 1967.

O que dizem os egiptólogos

Os fragmentos recuperados foram examinados por egiptólogos dentro e fora da igreja, entre eles Klaus Baer, Richard Parker, John A. Wilson e, em trabalho mais recente, Robert K. Ritner. A identificação é consensual entre especialistas na área: trata-se de textos funerários egípcios comuns do período ptolomaico, notadamente o Livro das Respirações feito para um sacerdote tebano chamado Hor e trechos do Livro dos Mortos de uma mulher chamada Tshemmin. Esses documentos instruem o falecido sobre a passagem para a vida após a morte. Nenhum deles menciona Abraão, e a datação, entre os séculos 3 e 1 a.C., é muito posterior a qualquer datação proposta para o patriarca. A igreja não contesta essa identificação; o que se discute é a relação entre os fragmentos e o texto publicado.

A gravura reproduzida como Fac-símile 1 corresponde a uma cena de leito leonino, lida pela egiptologia como embalsamamento ou ressurreição de Osíris; ela está entre os fragmentos recuperados. O Fac-símile 2 é um hipocéfalo, disco colocado sob a cabeça do morto. O Fac-símile 3 é uma cena de apresentação diante de Osíris entronizado. As explicações publicadas em 1842 leem essas figuras como Abraão no altar, a ordem dos céus e Abraão ensinando astronomia na corte do faraó. As leituras egiptológicas padrão são funerárias e divergem das explicações nos elementos centrais. Há ainda o problema das lacunas: partes dos originais estavam danificadas e foram completadas na gravação, e o que foi restaurado é disputado. Objeções nesse sentido já haviam sido levantadas pelo egiptólogo francês Théodule Devéria, cuja análise, feita em 1859 sobre cópias das gravuras, saiu em 1860 no relato de viagem de Jules Remy, antes portanto da redescoberta dos fragmentos.

As respostas dentro da tradição SUD

A defesa do livro dentro da tradição SUD não é única, e vale apresentar as posições como elas são formuladas.

PosiçãoAfirmação centralObjeção que enfrenta
Rolo perdidoO rolo que continha o texto de Abraão não está entre os fragmentos recuperados e permanece perdidoEstimativas do comprimento original do rolo de Hor são disputadas; críticos sustentam que o material faltante seria pequeno demais
CatalisadorOs papiros funcionaram como estímulo para uma revelação, sem que o texto seja tradução do que está escrito nelesTensiona a linguagem de tradução usada na publicação de 1842 e as explicações item a item dos fac-símiles
Recepção tardiaO texto seria uma tradição sobre Abraão anexada a papiros do período ptolomaico por escribas posterioresDepende de paralelos externos cuja força é avaliada de modo diferente por especialistas de fora da tradição

Em julho de 2014 a igreja publicou, na série de ensaios de Tópicos do Evangelho, o texto Tradução e historicidade do livro de Abraão, que reconhece a identificação egiptológica dos fragmentos, apresenta as hipóteses do rolo perdido e do catalisador sem escolher entre elas, e sustenta que a verdade do livro não depende do resultado dessa investigação. Autores ligados à igreja também apontam pontos de contato entre o texto e literatura judaica extrabíblica sobre Abraão, como o Apocalipse de Abraão e o Livro dos Jubileus, que trazem o tema de Abraão contra a idolatria do pai e o interesse por astronomia. Autores críticos respondem que esses paralelos são temáticos, que várias dessas obras eram acessíveis em tradução no século 19, e que nenhum deles resolve a questão dos fac-símiles.

Este site não decide a disputa. O leitor tem diante de si um texto cujo conteúdo pode ser lido, e um conjunto de fatos documentais que são igualmente verificáveis: os fragmentos existem, foram identificados, e as explicações publicadas divergem das leituras egiptológicas. O que se conclui a partir disso depende de premissas sobre revelação que ficam fora do alcance da egiptologia. Sobre os Jubileus, ver:

(Livro dos Jubileus 11:16-17)

Conteúdo do livro

Ur, o sacrifício e a aliança

  • Abraão busca as bênçãos dos pais e o direito ao sacerdócio(Abraão 1:2)
  • Sacerdotes idólatras tentam sacrificá-lo sobre um altar(Abraão 1:12)
  • Um anjo o liberta e ele recebe a visão do Todo-Poderoso(Abraão 1:15)
  • Deus se identifica como Jeová e promete fazer dele uma grande nação(Abraão 2:8)
  • A promessa se estende ao sacerdócio e à descendência(Abraão 2:11)

Gênesis não narra tentativa de sacrifício de Abraão em Ur. Essa cena aparece em tradições judaicas posteriores, em midrash e em textos como o Apocalipse de Abraão, onde o patriarca se opõe à idolatria do pai. O capítulo 2 reformula a aliança de Gênesis 12 acrescentando o sacerdócio como parte explícita da promessa.

(Gn 12:1-3)

Astronomia, Colobe e o mundo pré-mortal

  • Abraão diz possuir o Urim e Tumim, recebido em Ur(Abraão 3:1)
  • Colobe é apresentada como o corpo mais próximo do trono de Deus(Abraão 3:3)
  • Um dia de Colobe equivale a mil anos segundo o cálculo do Senhor(Abraão 3:4)
  • As inteligências existiam organizadas antes de o mundo existir(Abraão 3:22)
  • Um conselho decide descer e formar uma terra(Abraão 3:24)
  • Dois se oferecem para ser enviados e o primeiro é escolhido(Abraão 3:27)

O capítulo 3 concentra o conteúdo doutrinário mais distintivo do livro dentro da tradição SUD: a preexistência das almas, a existência de um conselho de seres divinos antes da criação, e uma cosmologia hierárquica cujo centro é Colobe, grafado Kolob no original em inglês. Nenhum desses elementos aparece em Gênesis. A ideia de preexistência das almas tem paralelo em Platão e em Orígenes, cuja versão foi condenada no contexto das controvérsias origenistas do século 6, o que é um dado histórico relevante para o leitor que vem da tradição cristã majoritária.

Ora, o Senhor mostrara a mim, Abraão, as inteligências que foram organizadas antes de o mundo existir; e entre todas essas havia muitas das nobres e grandes.

Abraão 3:22

A criação no plural

Os capítulos 4 e 5 reescrevem Gênesis 1 e 2 substituindo o sujeito singular Deus por os Deuses, no plural, que deliberam entre si. O verbo é de organizar e formar, não de criar do nada. Isso apoia duas posições teológicas SUD que divergem do cristianismo credal: a rejeição da criação a partir do nada e uma leitura pluralista da divindade. Debate filológico existe sobre o plural hebraico elohim em Gênesis, que é morfologicamente plural mas rege verbo no singular no texto massorético, e a maioria dos hebraístas o lê como plural de majestade ou intensidade. Os defensores do Livro de Abraão apontam esse plural como sinal a favor da leitura do texto; os críticos respondem que a concordância verbal singular decide a questão.

(Gn 1:26)

1:21-27 e a restrição do sacerdócio

Um trecho do capítulo 1 associa a linhagem do faraó a Cam (grafado Cão na tradução usada aqui) e ao sangue dos cananeus, e afirma que, por essa descendência, ele não tinha direito ao sacerdócio. O mesmo trecho chama o faraó de homem justo. Entre o século 19 e 1978, esses versículos, junto de leituras da chamada maldição de Cam em Gênesis 9, foram usados por líderes e membros da igreja para justificar a restrição que impedia homens de ascendência africana de receber o sacerdócio e homens e mulheres negros de participar das ordenanças do templo. A restrição foi removida em junho de 1978, pela Declaração Oficial 2.

(Abraão 1:26-27)

Em dezembro de 2013 a igreja publicou o ensaio Raça e o sacerdócio, que registra que Joseph Smith ordenou homens negros ao sacerdócio, situa o início da restrição no período de Brigham Young, informa que não há registro de revelação que a tenha instituído, e repudia as explicações raciais oferecidas ao longo do tempo, incluindo a leitura da maldição de Cam. O ensaio não afirma que o texto de Abraão ensina a restrição. Historiadores fora da igreja divergem sobre o peso relativo desses versículos e das ideias raciais correntes na sociedade norte-americana do século 19 na formação da política, e a discussão continua.

(Gn 9:20-27)

Como avaliar o texto

O Livro de Abraão é, do ponto de vista documental, o texto mais testável do cânone SUD, porque a fonte material que ele alega traduzir foi parcialmente recuperada e pode ser lida por qualquer egiptólogo. É também por isso o mais disputado. O leitor deste site encontra aqui o texto integral em português e as duas frentes de argumento identificadas, e pode formar seu juízo lendo a fonte em vez de resumos de terceiros.