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Uma mão inscrevendo marcas douradas abstratas num tablete de pedra, com treze selos ao redor

Regras de Fé

Treze declarações extraídas da carta que Joseph Smith escreveu ao jornalista John Wentworth em 1842. É o resumo doutrinário mais citado do mormonismo e o ponto de partida usual para comparar suas afirmações com os credos cristãos históricos

Sobre a obra

As Regras de Fé são treze declarações curtas escritas por Joseph Smith em 1842. Funcionam como resumo doutrinário de uso corrente entre os Santos dos Últimos Dias: são memorizadas por crianças, impressas em material missionário e usadas como primeira apresentação da fé a quem vem de fora.

Nasceram de um pedido concreto. John Wentworth, editor do jornal Chicago Democrat, pediu a Smith um panorama da história e das crenças de sua igreja. A resposta, conhecida como Carta de Wentworth, saiu no Times and Seasons de Nauvoo em 1 de março de 1842 e terminava com a lista de treze itens. Os treze itens entraram na coletânea Pérola de Grande Valor, organizada por Franklin D. Richards em 1851 para a missão britânica. A coletânea foi canonizada em 10 de outubro de 1880, por voto de conferência geral. A canonização vale para A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias; outras denominações saídas do mesmo movimento, como a Comunidade de Cristo, não adotam a Pérola de Grande Valor como escritura.

Formalmente, o gênero é reconhecível: uma sequência de afirmações iniciadas por Cremos, no mesmo formato dos credos e confissões cristãs. É por isso que o texto funciona como o ponto natural de comparação entre o mormonismo e o cristianismo histórico. As seções abaixo descrevem onde as formulações coincidem e onde divergem, sem avaliar qual posição é correta.

As treze declarações

Conteúdo, artigo por artigo

  • Deus Pai, Jesus Cristo e o Espírito Santo(Regras de Fé 1:1)
  • Punição pelos próprios pecados, não pela transgressão de Adão(Regras de Fé 1:2)
  • Salvação de toda a humanidade pela Expiação, mediante obediência às leis e ordenanças(Regras de Fé 1:3)
  • Os quatro primeiros princípios: fé, arrependimento, batismo por imersão e imposição de mãos(Regras de Fé 1:4)
  • Chamado por profecia e imposição de mãos por quem tenha autoridade(Regras de Fé 1:5)
  • A mesma organização da Igreja primitiva: apóstolos, profetas, pastores, mestres, evangelistas(Regras de Fé 1:6)
  • A lista de ofícios espelha uma passagem paulina(Ef 4:11)
  • Dons espirituais: línguas, profecia, revelação, visões, cura, interpretação(Regras de Fé 1:7)
  • A Bíblia como palavra de Deus, desde que traduzida corretamente, e o Livro de Mórmon como palavra de Deus(Regras de Fé 1:8)
  • Revelação passada, presente e futura(Regras de Fé 1:9)
  • Coligação de Israel, Sião no continente americano, reinado pessoal de Cristo e renovação da Terra(Regras de Fé 1:10)
  • Liberdade de consciência, reivindicada para si e concedida a todos(Regras de Fé 1:11)
  • Submissão a governantes e obediência à lei civil(Regras de Fé 1:12)
  • Honestidade, castidade, benevolência, com citação livre de uma admoestação de Paulo(Regras de Fé 1:13)
  • A passagem paulina ecoada no artigo 13(Fp 4:8)

Os artigos 11 e 12 refletem o momento histórico. Escritos por um grupo que havia sido expulso do Missouri por decreto do governador em 1838, afirmam ao mesmo tempo o direito de adorar segundo a própria consciência, o mesmo direito para todos os outros, e a lealdade civil às autoridades constituídas.

Onde divergem dos credos cristãos históricos

A comparação abaixo descreve as diferenças de formulação. Ela não julga nenhuma das posições, e também não sugere que o cristianismo histórico seja monolítico: em vários pontos as tradições católica, ortodoxa e protestante divergem entre si tanto quanto do texto mórmon.

ArtigoFormulação mórmonFormulação cristã histórica
1Deus Pai, seu Filho Jesus Cristo e o Espírito Santo, entendidos na teologia dos Santos dos Últimos Dias como três seres distintos, unidos em propósito, o Pai e o Filho com corpos de carne e ossos.O credo de Niceia e Constantinopla define o Filho como consubstancial (homoousios) ao Pai: três pessoas em uma só essência divina, e Deus como espírito sem corpo.
2A pessoa é punida pelos próprios pecados, não pela transgressão de Adão.A doutrina agostiniana do pecado original, afirmada em Cartago, Orange, Trento e nas confissões reformadas, sustenta que a culpa e a corrupção de Adão são transmitidas. A ortodoxia oriental fala de pecado ancestral e recusa a transmissão da culpa, aproximando-se em parte, sem coincidir.
3 e 4Toda a humanidade pode ser salva pela Expiação, mediante obediência às leis e ordenanças do Evangelho, elencadas em fé, arrependimento, batismo por imersão e imposição de mãos.A Reforma protestante afirma a justificação somente pela fé (sola fide), com as obras como fruto e não condição. Catolicismo e ortodoxia articulam fé, graça e sacramentos, mas com uma teologia sacramental e uma noção de autoridade distintas das enunciadas aqui.
8A Bíblia é palavra de Deus desde que esteja traduzida corretamente; o Livro de Mórmon também é palavra de Deus.As confissões protestantes afirmam a suficiência e a autoridade da Escritura, e a corrente evangélica moderna acrescenta a inerrância. Catolicismo e ortodoxia colocam Escritura e Tradição lado a lado, e as três famílias divergem sobre a extensão do cânone (deuterocanônicos). Nenhuma delas, porém, condiciona a autoridade bíblica a uma ressalva de tradução nem reconhece um segundo livro como escritura do mesmo estatuto.
9Deus revelou, revela agora e ainda revelará muitas coisas grandiosas e importantes.As tradições históricas tratam o cânone como encerrado. Roma situa o fim da revelação pública na morte do último apóstolo (Dei Verbum 4) e mantém espaço para revelação privada; a ortodoxia raciocina de modo próximo pela via da Tradição; o protestantismo divide-se entre cessacionistas e continuístas quanto aos dons proféticos. Mesmo os continuístas pentecostais e carismáticos, contudo, não preveem acréscimo de escritura.
10Coligação literal de Israel, restauração das Dez Tribos, Sião ou Nova Jerusalém construída no continente americano, reinado pessoal de Cristo e Terra renovada.O milenarismo tem defensores em várias correntes protestantes, e a Nova Jerusalém aparece no Apocalipse. A localização geográfica de Sião nas Américas não tem paralelo em credo, concílio ou confissão histórica.

Uma nuance sobre o artigo 1: a redação isolada não colide com a linguagem trinitária, pois nomeia as três pessoas sem definir a relação entre elas. A divergência aparece quando se lê o artigo à luz do restante do corpus, sobretudo de textos posteriores de Joseph Smith que descrevem o Pai e o Filho como seres corpóreos e separados. Historiadores registram que a fórmula, lida isoladamente em 1842, não destoava do vocabulário cristão corrente; as leituras sobre a intenção do autor divergem.

Cremos em Deus, o Pai Eterno, e em Seu Filho, Jesus Cristo, e no Espírito Santo.

Regras de Fé 1:1

O que o texto não é

As Regras de Fé não são um credo no sentido técnico. Não foram produzidas por um concílio, não definem doutrina contra uma heresia nomeada e não pretendem ser exaustivas: temas centrais da teologia mórmon posterior, como o casamento eterno, o batismo pelos mortos e o templo, não aparecem. São um resumo redigido por um autor, para um destinatário específico, num momento específico.

O destinatário ajuda a explicar as ausências e as ênfases. O texto foi escrito em 1842 para um editor de jornal não mórmon, num ambiente americano majoritariamente protestante. Se as omissões refletem só a brevidade do gênero ou também um cálculo de comunicação é ponto em que os intérpretes divergem. A elevação ao estatuto de escritura, em 1880, deu peso normativo a um texto que nasceu com função de apresentação.

O texto integral está disponível para leitura aqui, nas treze declarações originais.

(Regras de Fé 1:1)