Capítulos

Moisés
Revelação recebida entre junho de 1830 e fevereiro de 1831 durante a revisão que Joseph Smith fazia da Bíblia. Reescreve e expande Gênesis 1 a 6, acrescentando uma visão inicial de Moisés, o relato de Satanás e Caim e um longo trecho sobre Enoque e a cidade de Sião
Sobre o livro
O Livro de Moisés é um texto de oito capítulos que integra a Pérola de Grande Valor, um dos quatro volumes canônicos de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Ele corresponde à parte inicial da chamada Tradução de Joseph Smith da Bíblia, relativa a Gênesis 1 a 6, produzida entre junho de 1830 e fevereiro de 1831. Serviram de escribas Oliver Cowdery, John Whitmer, Emma Smith e, a partir de dezembro de 1830, Sidney Rigdon.
O material circulou primeiro em periódicos da igreja na década de 1830. Franklin D. Richards reuniu esses textos em um panfleto publicado em Liverpool em 1851 sob o título Pearl of Great Price, e a coletânea foi votada como escritura por unanimidade na conferência geral de 10 de outubro de 1880. Fora do movimento dos Santos dos Últimos Dias, nenhuma tradição cristã ou judaica reconhece o livro como escritura.
O que é a Tradução de Joseph Smith
O termo tradução aqui não tem o sentido usual. Joseph Smith não trabalhou com manuscritos hebraicos ou gregos e não comparou variantes textuais. Ele não sabia hebraico quando começou o projeto: só foi estudar a língua em 1835 e 1836, em Kirtland. Ele trabalhou sobre um exemplar impresso da King James em inglês, ditando alterações, cortes e acréscimos que apresentava como restauração por revelação de conteúdo perdido do texto original.
A diferença de método em relação à crítica textual é grande, e vale registrá-la sem julgamento de valor. A crítica textual reconstrói a leitura mais antiga comparando manuscritos, papiros, versões antigas e citações patrísticas. Cada decisão pode ser conferida por qualquer pesquisador que examine os mesmos documentos. O procedimento de Joseph Smith não produz aparato crítico nem apela a testemunho manuscrito: a autoridade do resultado repousa na afirmação de revelação. Para quem aceita essa premissa, o texto recupera o que os copistas perderam. Para quem não a aceita, ele é uma composição do século 19. Não existe teste documental capaz de decidir entre as duas leituras, porque nenhum manuscrito antigo com esse conteúdo foi encontrado.
Os manuscritos do projeto foram preservados pela Comunidade de Cristo, antiga Igreja Reorganizada. Em 2004, com acesso concedido por ela, Scott Faulring, Kent Jackson e Robert Matthews publicaram pelo Religious Studies Center da Universidade Brigham Young a transcrição diplomática completa, que reproduz grafia, rasuras e inserções linha a linha e traz fotografias de algumas páginas. Eles permitem acompanhar a ordem das revisões e as camadas de correção, o que é um dado histórico firme mesmo para quem discorda da natureza do texto.
O que este livro acrescenta a Gênesis
Quem chega a este texto vindo de Gênesis vem justamente comparar. O quadro abaixo resume os quatro blocos de material que não têm paralelo no texto hebraico de Gênesis, seguido das seções que os detalham.
| Bloco | Onde está | Paralelo em Gênesis |
|---|---|---|
| Visão introdutória de Moisés e diálogo com Satanás | Moisés 1 | Nenhum |
| Concílio nos céus e identificação da serpente com Satanás | Moisés 4 | Gênesis 3 traz a serpente sem nomeá-la |
| Pregação, genealogia e livro de memórias de Enoque | Moisés 6 | Gênesis 5:21-24, quatro versículos |
| Visão de Enoque, cidade de Sião e sua translação | Moisés 7 | Nenhum |
A visão introdutória de Moisés
- Moisés é arrebatado a um monte e fala com Deus face a face — (Moisés 1:1)
- Satanás aparece e exige adoração; Moisés o expulsa — (Moisés 1:12)
- Deus mostra a Moisés mundos sem conta criados pelo Filho — (Moisés 1:33)
- A declaração sobre a obra e a glória de Deus — (Moisés 1:39)
O capítulo 1 é inteiramente novo. Gênesis começa direto na criação; aqui, um prólogo narrativo situa Moisés recebendo a visão que introduz o relato. O versículo 39 é o texto mais citado do livro dentro da tradição SUD e resume sua teologia da finalidade humana.
Pois eis que esta é minha obra e minha glória: Levar a efeito a imortalidade e vida eterna do homem.
O concílio nos céus e a queda
- Satanás se oferece para redimir toda a humanidade e pede a honra de Deus — (Moisés 4:1)
- O Filho Amado responde submetendo-se à vontade do Pai — (Moisés 4:2)
- Satanás é expulso por procurar destruir o arbítrio do homem — (Moisés 4:3)
- Satanás fala pela boca da serpente no Éden — (Moisés 4:6)
Gênesis 3 apresenta a serpente como o mais astuto dos animais do campo e não a identifica com nenhum ser espiritual. A associação entre a serpente e o diabo aparece na literatura judaica do período do Segundo Templo e em textos cristãos, e o Apocalipse a formula explicitamente. O Livro de Moisés faz essa identificação dentro do próprio relato do Éden e a antecede com uma cena de concílio pré-mortal, que não tem paralelo em Gênesis. Sobre a leitura do Apocalipse, ver:
Enoque e a cidade de Sião
- Registro de que os filhos de Adão escreveram um livro de memórias — (Moisés 6:5)
- O Espírito desce sobre Enoque e ele é chamado a profetizar — (Moisés 6:26)
- Enoque prega o arrependimento e o batismo — (Moisés 6:52)
- O povo de Sião é chamado uno de coração, sem pobres entre eles — (Moisés 7:18)
- Enoque vê Deus chorar diante do sofrimento humano — (Moisés 7:28)
- Sião é recebida no céu e a expressão Sião Fugiu se estabelece — (Moisés 7:69)
Este é o maior acréscimo do livro em volume. Gênesis dedica quatro versículos a Enoque e diz apenas que ele andou com Deus e não mais foi visto, porque Deus o tomou. Os capítulos 6 e 7 do Livro de Moisés desenvolvem uma narrativa longa: pregação, oposição, guerras, uma cidade inteira levada ao céu e uma visão do futuro da terra até os últimos dias. A imagem de um Deus que chora é frequentemente apontada por leitores SUD como o traço teológico mais distintivo do texto.
E o Senhor chamou seu povo Sião, porque eram unos de coração e vontade e viviam em retidão; e não havia pobres entre eles.
O diálogo com 1 Enoque
O Livro de 1 Enoque, texto judaico pseudoepigráfico preservado integralmente em etíope e parcialmente em aramaico entre os manuscritos do Mar Morto, também expande a figura de Enoque muito além de Gênesis. Fragmentos aramaicos das seções mais antigas datam dos séculos 3 a 2 a.C. Há pontos de contato temático entre os dois textos: Enoque como profeta e vidente, uma visão dos ímpios e do julgamento, e a preocupação com a corrupção que precede o dilúvio.
A cronologia é o ponto disputado. A primeira tradução completa de 1 Enoque para uma língua moderna saiu em inglês em 1821, feita por Richard Laurence, professor régio de hebraico em Oxford, com edições revistas em 1833, 1838 e 1842. Trechos e resumos da obra já circulavam em inglês desde o século 18, em traduções parciais, artigos de revista e comentários bíblicos.
O quanto disso chegou a Joseph Smith é o que se discute, e a leitura do mesmo material é oposta nos dois lados. Colby Townsend, em artigo na Dialogue (2020), cataloga mais de cinquenta publicações sobre 1 Enoque entre 1715 e 1830 e conclui que o assunto era acessível a um leitor anglófono comum, o que dispensaria qualquer explicação sobrenatural para o interesse por Enoque em 1830. Autores ligados à tradição SUD, na linha de Hugh Nibley, respondem que não há evidência documental de que Smith tenha lido Laurence ou qualquer desses textos, que os pontos de contato são temáticos e não verbais, e que o Livro de Moisés traz elementos, como a cidade de Sião e a translação coletiva, que não estão em 1 Enoque. Nenhum dos lados apresenta prova direta de acesso ou de ausência de acesso, e a questão permanece em aberto. Para comparar, ver:
Como avaliar o texto
Não existe manuscrito antigo, citação patrística ou testemunho independente que ateste a existência de um texto de Enoque com o conteúdo dos capítulos 6 e 7, nem de um prólogo como o do capítulo 1. Isso é um fato documental, e vale registrá-lo sem transformá-lo em veredito: a ausência de manuscrito é o que se esperaria tanto de uma composição do século 19 quanto de um texto que, segundo a própria afirmação do livro, foi perdido na transmissão. A escolha entre as duas explicações depende de premissas sobre revelação que ficam fora do alcance do método histórico.
Para o leitor deste site, a utilidade do texto é comparativa. Lê-lo ao lado de Gênesis mostra onde a narrativa foi expandida e quais temas dominam os acréscimos: arbítrio humano, ordem comunitária de bens e restauração de conteúdo perdido. Os três eram debates correntes no protestantismo norte-americano do século 19. Quem lê o livro como composição da época vê aí a sua origem; quem o lê como restauração vê aí o motivo de ele ter sido revelado naquele momento.