Capítulos

Sócrates ensinando dois jovens atenienses

A República - Livro VIII

A degeneração das cidades e das almas: timocracia, oligarquia, democracia e o nascimento da tirania

Sobre a obra

A República é um diálogo de Platão (cerca de 380 a.C.) conduzido por Sócrates. O Livro VIII retoma a cidade ideal descrita antes e examina como ela e a alma humana decaem. É uma das partes mais influentes da obra na teoria política, porque descreve uma sequência de regimes que se degeneram um no outro.

A numeração de versículos usada aqui é uma divisão do texto feita por este site para facilitar a leitura. Não corresponde à paginação tradicional de Stephanus.

O que este livro discute

Sócrates classifica cinco formas de governo e mostra que cada uma decai na seguinte. A primeira é a aristocracia, o governo dos melhores, que corresponde à cidade ideal. Quando os governantes se enganam na seleção dos sucessores, ela cai na timocracia, o governo dos ambiciosos de honra e vitória militar.

(A República - Livro VIII 1:1)

(A República - Livro VIII 2:1)

A timocracia decai na oligarquia, o governo dos ricos, em que o desejo de riqueza domina. A oligarquia gera a democracia, quando os pobres se revoltam e instauram a liberdade e a igualdade. Por fim, o excesso de liberdade na democracia abre caminho para a tirania, o pior dos regimes, em que um líder popular se torna senhor absoluto pelo medo e pela força.

(A República - Livro VIII 3:1)

(A República - Livro VIII 4:1)

(A República - Livro VIII 5:1)

A cada regime Sócrates faz corresponder um tipo de homem, cuja alma tem a mesma estrutura da cidade. O ponto central é uma crítica à liberdade democrática sem limite, que ele apresenta como a porta para a tirania. A alma sadia é a governada pela razão. A alma que decai é a tomada pelos apetites e desejos sem medida.

(A República - Livro VIII 6:1)

Relevância para a fé cristã

A análise da alma desordenada, governada pelos apetites em vez da razão, ecoou na reflexão cristã sobre o pecado entendido como desordem interior, em que as paixões dominam o que deveria obedecer. A descrição da decadência dos regimes alimentou a desconfiança cristã quanto à estabilidade das ordens políticas humanas, vistas como mutáveis e frágeis.

Agostinho, em A Cidade de Deus, contrasta as cidades terrenas, sujeitas à mudança e à corrupção, com a Cidade de Deus, fundada no amor a Deus. Ele conhecia bem Platão e dialogou com a tradição platônica ao distinguir as duas cidades pelo objeto do seu amor. A descrição platônica das comunidades humanas que se corrompem serviu de pano de fundo para essa contraposição.

Esta é uma análise política pagã, e a apropriação cristã é uma releitura. Platão não tem a categoria de pecado como ofensa a um Deus pessoal, nem a de redenção. Para ele a desordem da alma é tratada pela educação e pela filosofia, não pela graça. A decadência dos regimes faz parte de um ciclo natural, não de uma história de salvação.