Capítulos

A República - Livro II
O desafio de Gláucon e Adimanto (o anel de Giges) e a fundação da cidade justa a partir do zero
Sobre a obra
A República é um diálogo de Platão (c. 428 a 348 a.C.), filósofo ateniense discípulo de Sócrates. A obra investiga o que é a justiça e desenha uma cidade ideal como modelo. A maioria dos estudiosos data a composição entre cerca de 380 e 370 a.C., na maturidade de Platão.
A obra completa tem dez livros. Este é o Livro II, onde a investigação deixada em aberto no Livro I ganha um novo fôlego e um método próprio. É aqui que começa a construção da cidade ideal.
O que este livro discute
Gláucon e Adimanto, irmãos de Platão, não se contentam com a refutação de Trasímaco. Gláucon propõe um experimento: o anel de Giges, que torna invisível quem o usa. Se ninguém visse, pergunta ele, por que alguém continuaria justo? O desafio é mostrar que a justiça vale por si mesma, e não só pela reputação que traz. Adimanto reforça, observando que até os elogios à justiça costumam apelar para recompensas externas.
Sócrates responde com uma estratégia indireta. Como a justiça no indivíduo é difícil de enxergar, ele propõe procurá-la primeiro na cidade, onde estaria escrita em letras maiores. Funda então uma cidade do zero, partindo das necessidades básicas. Distingue a cidade simples e saudável da cidade do luxo, que cresce, cria excedentes e precisa de defensores.
Surgem assim os guardiões, e com eles a questão da educação. Sócrates discute como as crianças devem ser formadas, e estabelece regras sobre como se deve falar dos deuses nas histórias contadas aos jovens. Essa seção, conhecida como a teologia da República, fixa princípios sobre a natureza do divino que terão longa influência.
Relevância para a fé cristã
A parte teológica do Livro II está entre as mais influentes de toda a obra. Platão afirma dois pontos que ressoam com a teologia cristã. Primeiro, que o deus é bom e só pode ser causa do bem, nunca do mal; os males devem ter outra origem. Segundo, que o divino não muda de forma nem engana, pois é perfeito e não teria motivo para se disfarçar ou mentir.
Deus, por ser bom, não é causa de todas as coisas, como se costuma dizer, mas causa apenas de poucas, e não causa da maioria das coisas que acontecem aos homens; pois os bens são muito menos numerosos que os males.Platão, A República, Livro II
Padres e teólogos cristãos ecoaram essas teses ao formular a imutabilidade e a simplicidade divinas, e ao tratar o problema do mal afirmando que Deus não é autor do mal. Clemente de Alexandria e Orígenes, em Alexandria, e mais tarde Agostinho, recorreram ao instrumental platônico nessas discussões, ainda que reorientado pela Escritura. O anel de Giges antecipa, em chave filosófica, a pergunta sobre por que agir bem quando ninguém vê, tema que a moral cristã enfrenta a partir da consciência e da presença de Deus.
Cabe a ressalva honesta. O deus de Platão neste livro é impessoal, e o contexto é politeísta: a discussão é sobre como falar dos deuses dos poetas, não sobre o Deus único e pessoal da Bíblia. Não há criação a partir do nada nem providência pessoal. Além disso, parte do programa de Sócrates não é doutrina cristã: a censura da poesia e a defesa de uma mentira útil em proveito da cidade contrariam a tradição cristã sobre a verdade. A convergência está em pontos específicos da doutrina de Deus, não na religião de Platão como um todo.
Para o desafio de Gláucon e o anel de Giges, ver: