Capítulos

Imitação de Cristo - Livro I

Livro I: admoestações úteis para a vida espiritual

Autoria e Data de Composição

A Imitação de Cristo (De Imitatione Christi) é um manual de devoção cristã em quatro livros, um dos textos de espiritualidade mais reproduzidos da história. O texto foi composto em latim nos Países Baixos, provavelmente entre cerca de 1418 e 1427, no ambiente da Devotio Moderna, o movimento de reforma da piedade iniciado por Geert Grote e pelos Irmãos da Vida Comum, que pregava interioridade, leitura meditativa e renúncia ao saber ostentoso.

A obra circulou anonimamente e, até o século XVII, era atribuída sem grande disputa a Tomás de Kempis (Thomas a Kempis, c.1380-1471), cônego agostiniano do mosteiro do Monte Santa Inês, perto de Zwolle. Pesa a seu favor o manuscrito autógrafo de 1441, preservado na Biblioteca Real de Bruxelas, em sua letra. A autoria, porém, já foi contestada por mais de quarenta candidatos. Os dois rivais mais lembrados são Jean Gerson, chanceler da Universidade de Paris, defendido sobretudo por eruditos franceses, e Giovanni Gersen, suposto abade beneditino italiano do século XIII, sustentado por beneditinos. Contra Gerson observa-se que seu próprio irmão, ao reunir suas obras, não lhe atribuiu o livro; contra Gersen, que sua existência histórica é duvidosa, e que o nome parece um eco do de Gerson. A tradição majoritária e o consenso atual apontam para Kempis, mas reconhecem que a questão nunca foi encerrada de modo definitivo. O que não se disputa é a origem do texto na Devotio Moderna.

O Livro I na obra

Os quatro livros têm focos distintos: o I e o II tratam da vida interior e da renúncia ao mundo; o III, o mais longo, é construído como um diálogo entre Cristo e o discípulo sobre a consolação interior; o IV trata da sagrada comunhão. O Livro I reúne admoestações úteis para a vida espiritual e abre o arco da obra. Seus vinte e cinco capítulos curtos partem do desprezo das vaidades do mundo e do conhecimento de si mesmo, passam pelo combate aos afetos desordenados e às tentações, e chegam à compunção do coração, à meditação sobre a morte e à emenda da vida.

O tom é ascético e voltado à vida monástica, mas foi adotado também por leigos. O argumento específico deste livro é a desconfiança do saber sem virtude. Logo no capítulo de abertura, a obra contrapõe o conhecimento à prática, afirmando que erudição não santifica:

De que te aproveita disputar coisas elevadas sobre a Trindade, se te falta a humildade pela qual desagradas à Trindade? Em verdade, palavras elevadas não fazem o homem santo e justo, mas a vida virtuosa o torna caro a Deus.

Tomás de Kempis, Imitação de Cristo - Livro I 1:3

Essa polêmica contra o estudo desligado da conduta atravessa os primeiros capítulos: o conhecimento de si vale mais que a investigação da ciência profunda, e no juízo final, segundo o livro, não se perguntará o que lemos, mas o que fizemos. A partir daí o texto desenha uma psicologia prática da tentação, descrevendo como o mau pensamento avança do consentimento por etapas e exortando a resistir já no limiar, e fecha com a solidão da cela, a compunção, a memória da morte e o chamado constante à emenda. Ele estabelece o tom prático que o Livro II aprofunda na vida interior, antes do diálogo do Livro III.

Conteúdo do Livro

Fundamentos da vida interior

O combate às paixões

Provações e progresso espiritual

A vida religiosa

Compunção e fim último

Texto e Tradução

Texto em português a partir do latim original (De Imitatione Christi, domínio público). A citação segue a divisão por livro, capítulo e versículo adotada no site.