Capítulos

4 Esdras
O Problema dos Nomes: 2, 3, 4, 5 e 6 Esdras
Antes de tudo, é preciso desfazer a confusão de nomes, porque há vários livros disputando o nome de Esdras e cada tradição numera de um jeito. O texto apresentado aqui é o apocalipse judaico das sete visões, conhecido na academia como 4 Ezra. Na Vulgata latina ele é o 4 Esdras; nas Bíblias protestantes e na King James ele é o 2 Esdras, impresso entre os apócrifos. O cruzamento de numeração é a fonte do tropeço: o que a Vulgata chama de 1 e 2 Esdras são os livros canônicos de Esdras e Neemias; o que a Vulgata chama de 3 Esdras (um livro deuterocanônico grego, presente na Septuaginta) é o 1 Esdras da King James. A tabela abaixo resume o cruzamento.
| Esta obra / conteúdo | Vulgata latina | King James (apócrifos) | Academia |
|---|---|---|---|
| Esdras canônico | 1 Esdras | Esdras | Esdras-Neemias |
| Neemias canônico | 2 Esdras | Neemias | Esdras-Neemias |
| Esdras grego (Septuaginta) | 3 Esdras | 1 Esdras | 1 Esdras / Esdras A |
| Este apocalipse (as sete visões) | 4 Esdras | 2 Esdras | 4 Ezra |
Os estudiosos ainda dividem este texto em três camadas, escritas por mãos diferentes. O núcleo judaico são os capítulos 3 a 14, as sete visões. Os dois primeiros capítulos são um acréscimo cristão posterior, chamado 5 Esdras, e os dois últimos são outro acréscimo cristão, chamado 6 Esdras. No eslavônico antigo o livro circula com numeração própria, às vezes citado como 3 Esdras. Some-se a isso o detalhe de que esta obra não deve ser confundida com o Apocalipse Grego de Esdras, que o site também hospeda. Aquele é uma refundição cristã derivada deste 4 Esdras, reescrita séculos depois em grego, com material abertamente cristão e numeração de capítulos independente. São parentes, mas obras distintas.
Autoria e Data de Composição
A obra é atribuída de forma pseudoepigráfica ao profeta Esdras, o escriba do pós-exílio. A atribuição é literária: no texto ele aparece como Salatiel, ambientado trinta anos após a destruição de Jerusalém, mas a moldura é uma ficção que projeta a queda de 587 a.C. sobre uma crise muito posterior. O consenso crítico data o núcleo judaico (caps. 3 a 14) por volta de 95 a 100 d.C., na geração seguinte à destruição do Segundo Templo pelos romanos em 70 d.C. O texto é uma resposta a esse trauma: por que Deus deixou Roma, mais ímpia que Israel, esmagar o seu povo?
A baliza mais usada para a datação é o próprio código da águia. As três cabeças costumam ser lidas como os imperadores da dinastia flaviana, Vespasiano, Tito e Domiciano, o que situa a redação no final do reinado de Domiciano, em torno de 96 d.C. A leitura é razoável e amplamente aceita, mas convém o hedge honesto: a decifração da alegoria não é unânime, e propostas alternativas deslocam a obra por algumas décadas. Os dois acréscimos cristãos são mais tardios. O 5 Esdras (caps. 1 a 2) costuma ser datado do século II, e o 6 Esdras (caps. 15 a 16) do século III.
Estrutura: as Sete Visões

O coração do livro é uma sequência de sete revelações recebidas por Esdras, intercaladas por jejuns. As três primeiras são diálogos tensos com o anjo Uriel sobre a justiça de Deus, o pecado de Adão e o destino dos poucos que se salvam. A quarta é a visão de uma mulher em luto que de repente se transforma numa cidade edificada, figura da Jerusalém celeste. A quinta é a visão da águia. A sexta é a visão do homem que sobe do mar. A sétima é o episódio em que Esdras dita de novo as Escrituras perdidas. A obra caminha de uma teodiceia amarga, em que o profeta praticamente acusa Deus, para uma esperança escatológica firme.
“Mas a entrada dela é estreita e fica num lugar perigoso, onde se pode cair, com fogo à direita e água profunda à esquerda. E há um único caminho entre os dois, entre o fogo e a água, tão estreito que só um homem por vez poderia passar por ali.”
Conteúdo Principal
- Deus rejeita Israel e anuncia que dará o seu nome a outras nações — (4 Esdras 1:24)
- A imagem da galinha que reúne os pintinhos debaixo das asas, eco de Mateus 23 — (4 Esdras 1:30)
- Esdras vê no monte Sião uma multidão coroada pelo Filho de Deus — (4 Esdras 2:42)
- Salatiel, que também é Esdras, lamenta na Babilônia a desolação de Sião — (4 Esdras 3:1)
- O coração mau herdado de Adão, transmitido a toda a sua descendência — (4 Esdras 3:21)
- Beemote e Leviatã, as duas criaturas separadas na obra dos seis dias — (4 Esdras 6:49)
- A parábola da cidade de entrada estreita entre o fogo e a água — (4 Esdras 7:6)
- O filho de Deus revelado, que reinará quatrocentos anos e depois morrerá — (4 Esdras 7:28)
- Esdras vê uma mulher em luto, que chora pelo único filho morto — (4 Esdras 9:38)
- A mulher desaparece e em seu lugar surge uma cidade edificada, figura de Sião — (4 Esdras 10:27)
- Sobe do mar uma águia com doze asas e três cabeças — (4 Esdras 11:1)
- Um leão sai da floresta e dirige à águia a sentença do Altíssimo — (4 Esdras 11:37)
- A águia é identificada como o quarto reino que apareceu a Daniel — (4 Esdras 12:11)
- O leão é o ungido que brotará da descendência de Davi — (4 Esdras 12:32)
- Do mar sobe a figura de um homem que voa com as nuvens do céu — (4 Esdras 13:3)
- Ele destrói o exército inimigo só com uma torrente de fogo da sua boca — (4 Esdras 13:10)
- A multidão pacífica são as dez tribos perdidas, levadas por Salmanasar — (4 Esdras 13:40)
- Esdras bebe a taça de fogo e o seu coração transborda de entendimento — (4 Esdras 14:38)
- Em quarenta dias são escritos noventa e quatro livros — (4 Esdras 14:44)
- Vinte e quatro são publicados, mas os setenta últimos ficam para os sábios — (4 Esdras 14:46)
- Oráculos de espada, fome, morte e destruição sobre toda a terra — (4 Esdras 15:5)
- A prova dos eleitos, como o ouro provado no fogo — (4 Esdras 16:73)
O Prefácio Cristão (5 Esdras, caps. 1 a 2)
As Três Primeiras Visões: o Diálogo com o Anjo (caps. 3 a 9)
A Visão da Mulher que se Torna Cidade (caps. 9 a 10)
A Visão da Águia: o Quarto Reino (caps. 11 a 12)
A Visão do Homem que Sobe do Mar (cap. 13)
Esdras Reescreve as Escrituras (cap. 14)
O Apêndice Cristão (6 Esdras, caps. 15 a 16)
A Visão da Águia e o Quarto Reino de Daniel
A quinta visão é a passagem que dá nome à obra na imaginação popular. Esdras vê subir do mar uma águia com doze asas e três cabeças, que estende as asas sobre toda a terra e governa com opressão. Um leão sai da floresta e pronuncia a sentença do Altíssimo contra ela. O anjo é explícito ao interpretar: a águia é Roma, identificada com a quarta besta da visão de Daniel 7. O texto faz isso em primeira pessoa, dizendo que a águia é "o quarto reino que apareceu em visão ao teu irmão Daniel" e que "não lhe foi explicado, como agora eu te explico". É uma releitura deliberada de Daniel, em que o quarto império, que Daniel não nomeara, agora é Roma. A águia, símbolo das legiões, é a escolha óbvia.
O Homem que Sobe do Mar

A sexta visão mostra a figura de um homem que sobe do meio do mar, voa com as nuvens do céu e derrota uma multidão inimiga sem arma alguma, apenas com uma torrente de fogo que sai da sua boca. O anjo o chama de "o meu Filho". A cena combina o filho do homem de Daniel 7, que vem com as nuvens, com o sopro destruidor do Messias de Isaías 11. A multidão pacífica que ele reúne são as dez tribos perdidas, deportadas pelo rei assírio Salmanasar e levadas, segundo o texto, a uma terra distante chamada Arzaré. É um dos retratos messiânicos mais desenvolvidos da literatura apocalíptica judaica do período.
O Fragmento Perdido do Capítulo 7
Um dos episódios mais interessantes da história do texto está no capítulo 7. Por séculos, os manuscritos latinos que circulavam na Europa traziam um buraco nesse capítulo: a passagem que vai de 7:36 a 7:105 simplesmente não estava lá. Hoje se sabe por quê. O trecho ausente fala da impossibilidade de interceder pelos mortos no dia do juízo, ensino incompatível com a doutrina católica do purgatório e das orações pelos falecidos. Tudo indica que um copista medieval cortou a folha ofensiva de um manuscrito ancestral, e a lacuna se propagou para quase toda a tradição latina, inclusive as primeiras edições impressas da Vulgata.
O trecho foi restaurado em 1875 pelo estudioso Robert Lubbock Bensly, que encontrou o texto completo num manuscrito latino em Amiens e o publicou. As versões em siríaco, etíope, árabe, armênio e o fragmento grego sempre tinham conservado a passagem, o que confirmou que o corte fora um acidente da transmissão latina, não parte do original. A tradução em português aqui disponibilizada já inclui esse fragmento restaurado, de modo que o capítulo 7 aparece completo, com os seus 140 versos.
Manuscritos
O original semítico e a tradução grega que dele saiu estão ambos perdidos, salvo um pequeno fragmento grego. A obra sobreviveu inteira apenas em traduções secundárias, todas feitas a partir do grego. A latina, base da Vulgata, é a mais conhecida no Ocidente. Há também versões em siríaco, etíope, árabe (em duas formas), armênio, georgiano e fragmentos coptas. A comparação entre essas versões é o que permite reconstruir o texto, e foi a divergência entre a tradição latina mutilada e as orientais completas que entregou o caso do fragmento perdido.
Status Canônico
Este 4 Esdras não é canônico para nenhuma das principais tradições. Os judeus não o incluem na Bíblia hebraica. Os protestantes o colocam entre os apócrifos sob o nome de 2 Esdras, sem valor canônico. A Igreja Católica também não o reconhece como inspirado: o Concílio de Trento, ao fixar o cânon em 1546, deixou de fora 3 e 4 Esdras (na numeração da Vulgata). Por causa de sua longa presença e do prestígio devocional de algumas passagens, ele acabou impresso em apêndice de várias edições da Vulgata, depois do Novo Testamento, junto da Oração de Manassés, como leitura útil mas não canônica. A Igreja Ortodoxa Etíope é a que lhe dá mais status, contando-o entre os livros do seu cânon ampliado. Na tradição eslavônica circula numerado como 3 Esdras.
Apesar de fora do cânon, o livro deixou marca. O verso latino "Requiem aeternam dona eis, Domine", da liturgia católica dos mortos, vem de 4 Esdras 2:34 a 35, justamente da camada cristã da obra. E a frase sobre as águas que recuam para o povo passar, no episódio das dez tribos, alimentou séculos de especulação sobre o paradeiro de Israel perdido.
Sobre Esta Tradução
O texto em português disponibilizado aqui foi traduzido a partir da English Revised Version Apocrypha de 1895, de domínio público, que verteu o livro completo dos seus dezesseis capítulos e já incorpora o fragmento do capítulo 7 restaurado por Bensly em 1875. As reticências e lacunas que aparecem em alguns versos refletem passagens danificadas ou obscuras nas testemunhas manuscritas, não cortes da tradução.