Capítulos

Metafísica - Livro XIV

Autoria e Composição

A Metafísica de Aristóteles (384 a 322 a.C.) é uma coleção de tratados sobre a filosofia primeira, reunidos e ordenados por editores posteriores. A tradição atribui essa organização a Andrônico de Rodes, no século I a.C., e diz que o título reflete a posição dos tratados na edição das obras, depois da Física, e não uma escolha do autor. A datação dessa edição e o papel de Andrônico são debatidos. O Livro XIV, designado pela letra grega Ni, é o último da coleção. As referências seguem a citação padrão de Bekker e o texto adotado é a tradução inglesa de W. D. Ross, de 1908.

O Tema do Livro XIV

O Livro XIV fecha o par Mi e Ni e, com ele, toda a Metafísica. Dá continuidade à crítica iniciada no Livro XIII contra a tese de que números e Ideias são as substâncias e os princípios primeiros das coisas. Aristóteles concentra o ataque nos princípios que a Academia platônica propunha como geradores dos números: o Uno e a chamada díade indefinida do grande e pequeno, um par de contrários do qual derivariam todas as coisas. Aristóteles argumenta que contrários não podem ser os princípios primeiros, que o Uno não é uma substância mas uma medida, e que o eterno não pode ser composto de elementos.

Conteúdo do Livro

    Os princípios contrários

  • Por que os contrários, o Uno e o par grande-pequeno, não podem ser os princípios primeiros, e por que o Uno é só uma medida(Metafísica - Livro XIV 1)
  • Por que o eterno não pode ter elementos, e por que existem muitas coisas e não só o Ser uno(Metafísica - Livro XIV 2)
  • Por que os números não podem ser as causas das coisas nem existir separados: a crítica aos pitagóricos e aos platônicos(Metafísica - Livro XIV 3)
  • O bem, o belo e os números

  • O bem e o belo estão entre os princípios primeiros? Crítica a quem identifica o Uno com o Bem(Metafísica - Livro XIV 4)
  • Por que o número não pode ser o princípio nem a causa das coisas(Metafísica - Livro XIV 5)
  • Por que os números não são causas das coisas: padrões numéricos na natureza são só coincidências, e nem os números nem as Formas são substâncias ou princípios das coisas(Metafísica - Livro XIV 6)

Por que os Números Não São Causas

O núcleo do livro é a tese de que os números não são causas das coisas. Aristóteles examina e rejeita as diversas formas de fazer dos números princípios, tanto a versão pitagórica, que punha os números nas próprias coisas, quanto a platônica, que os separava. Discute ainda a identificação do Uno com o Bem e a presença do bem e do belo entre os primeiros princípios. No capítulo final, observa que as correspondências numéricas que se apontam na natureza, como proporções e ciclos, são em larga medida coincidências a que se atribui significado depois, e conclui que nem os números nem as Formas são substâncias ou causas das coisas. A obra termina sem uma conclusão solene: o último livro encerra a discussão da ontologia matemática, não a totalidade dos temas da coleção.

Sobreposição com o Livro I

Convém registrar uma característica notada pelos estudiosos: o Livro XIII, capítulos 4 e 5, repete quase palavra por palavra a crítica à teoria das Formas que já está no Livro I, capítulo 9, e o Livro XIV retoma o mesmo terreno, embora com argumentos próprios de feitio mais ontológico. Essa duplicação é um dos indícios de que a Metafísica reúne materiais de origens e momentos distintos, depois agrupados pelos editores antigos, e não um texto redigido de uma só vez. Some-se a isso que os Livros XIII e XIV estão entre os mais densos e difíceis da obra, e que parte das doutrinas atacadas, ligadas às chamadas doutrinas não escritas de Platão, não se encontra nos diálogos preservados. Por isso a identificação precisa dos alvos da crítica e a reconstrução dos argumentos permanecem objeto de discussão.

Influência no Pensamento Cristão

Tal como o Livro XIII, com o qual forma par, o Livro XIV teve sobre a tradição cristã uma influência mais indireta que a do célebre Livro XII e seu argumento do Motor Imóvel. Seu peso está em consolidar a recusa aristotélica de que números e Formas separadas sejam as substâncias e os princípios primeiros das coisas. Essa recusa reforçou, na herança medieval, o realismo moderado que Tomás de Aquino adotaria: as formas e as estruturas das coisas existem nelas mesmas e na mente de quem as concebe, não num domínio de entidades autônomas à parte do mundo e à parte de Deus. Ao desmontar a tentativa platônica e pitagórica de fazer dos números a causa última da realidade, Aristóteles ofereceu à teologia natural um terreno em que a causa primeira é um princípio vivo e em ato, e não uma estrutura matemática abstrata. Convém notar, com imparcialidade, que se trata de uma diferença dentro do debate filosófico cristão, e não de uma doutrina de fé.

Relevância para o Cristão de Hoje

Para o cristão de hoje, o Livro XIV interessa menos pelo detalhe da polêmica antiga sobre os números ideais e mais pela atitude de fundo que ele exemplifica: a recusa de tomar abstrações, por mais elegantes que sejam, como a causa última do mundo. A observação final de Aristóteles, de que muitas correspondências numéricas apontadas na natureza são coincidências às quais se atribui sentido depois, guarda uma sobriedade útil contra todo misticismo do número. Quem busca um fundamento para o real é remetido, ao fim, não a uma fórmula, mas a um primeiro princípio que age. Esse é o limite do livro e também sua serventia para a fé: ele afasta um falso absoluto e deixa o lugar do verdadeiro a ser ocupado pelo Deus que a Revelação anuncia.