Metafísica - Livro XIV 3
Livro XIV (Ni): a crítica final aos princípios dos números e às Ideias platônicas
Por que os números não podem ser as causas das coisas nem existir separados: a crítica aos pitagóricos e aos platônicos
Quanto àqueles que supõem que as Ideias existem e que são números, ao isolarem cada termo geral à parte dos casos particulares, e ao tomarem a unidade de cada termo geral, eles ao menos tentam de algum modo explicar por que o número tem de existir. Mas, como suas razões não são conclusivas nem em si mesmas possíveis, não se deve, ao menos por essas razões, afirmar que o número exista.
Já os pitagóricos, porque viam muitas propriedades dos números presentes nos corpos perceptíveis pelos sentidos, supuseram que as coisas reais fossem números, não números separados, mas números de que as coisas reais são feitas. E por quê? Porque as propriedades dos números estão presentes numa escala musical, no céu e em muitas outras coisas.
Já os que dizem que existe apenas o número matemático não podem, dentro de suas hipóteses, afirmar nada desse tipo. Por isso costumava-se objetar que essas coisas sensíveis não poderiam ser objeto das ciências. Mas nós sustentamos que são, como já dissemos antes.
E é evidente que os objetos da matemática não existem separados, pois, se existissem separados, suas propriedades não estariam presentes nos corpos. Nesse ponto, os pitagóricos não merecem reparo. Mas, ao construírem os corpos naturais a partir de números, ao fazerem coisas que têm leveza e peso a partir de coisas que não têm peso nem leveza, parecem estar falando de outro céu e de outros corpos, não dos que percebemos pelos sentidos.
Já os que tornam o número separado supõem que ele existe e que é separado porque os axiomas não valeriam para as coisas sensíveis, ao passo que os enunciados da matemática são verdadeiros e 'agradam à alma'. O mesmo dizem das grandezas espaciais da matemática. É evidente, então, que a teoria rival vai sustentar o contrário disso, e que a dificuldade que acabamos de levantar, por que, se os números de modo algum estão presentes nas coisas sensíveis, suas propriedades estão presentes nelas, tem de ser resolvida por quem defende essas posições.
Há alguns que, porque o ponto é o limite e a extremidade da linha, a linha do plano, e o plano do sólido, julgam que devem existir coisas reais desse tipo. Precisamos, portanto, examinar também esse argumento, e ver se ele não é notavelmente frágil.
Pois, em primeiro lugar, as extremidades não são substâncias; antes, todas essas coisas são limites. Até mesmo o caminhar, e o movimento em geral, tem um limite. Pela teoria deles, então, esse limite seria um 'isto' e uma substância. Mas isso é absurdo.
E, em segundo lugar, mesmo que fossem substâncias, seriam todas as substâncias das coisas sensíveis deste mundo, pois era a estas que o argumento se aplicava. Por que, então, deveriam ser capazes de existir separadas?
Além disso, se não nos contentamos com pouco, podemos, a respeito de todo número e de todos os objetos da matemática, levantar esta dificuldade: que eles em nada contribuem uns para os outros, os anteriores para os posteriores. Pois, se o número não existisse, ainda assim as grandezas espaciais existiriam para os que sustentam apenas a existência dos objetos da matemática; e, se as grandezas espaciais não existissem, ainda assim existiriam a alma e os corpos sensíveis. Mas os fatos observados mostram que a natureza não é uma série de episódios soltos, como uma tragédia malfeita.
Quanto aos que acreditam nas Ideias, essa dificuldade não os atinge, pois eles constroem as grandezas espaciais a partir da matéria e do número: as linhas a partir do número dois, os planos talvez a partir do três, os sólidos a partir do quatro, ou usam outros números, o que não faz diferença. Mas essas grandezas serão Ideias? Ou qual é o modo de existência delas, e o que contribuem para as coisas? Não contribuem nada, assim como os objetos da matemática nada contribuem.
E nem sequer há algum teorema verdadeiro a respeito delas, a menos que queiramos alterar os objetos da matemática e inventar doutrinas nossas. Mas não é difícil assumir hipóteses quaisquer e fiar delas uma longa série de conclusões. Esses pensadores, portanto, erram nisto: em querer unir os objetos da matemática às Ideias.
E os que primeiro propuseram dois tipos de número, o das Formas e o que é matemático, nem disseram nem podem dizer como o número matemático há de existir e de que é feito. Pois o colocam entre o número ideal e o número sensível. Se ele consiste no grande e no pequeno, será o mesmo que o outro número, o ideal. E, se nomeiam algum outro elemento, estarão tornando seus elementos numerosos demais.
E, se o princípio de cada um dos dois tipos de número é um 1, a unidade será algo comum a ambos, e teremos de investigar como o um pode ser essas muitas coisas, sendo que, segundo ele, o número não pode ser gerado senão a partir do um e de uma díade indefinida.
Tudo isso é absurdo, e entra em conflito tanto consigo mesmo quanto com o que é provável, e parece que vemos nele a 'ladainha sem fim' de Simônides, pois a ladainha sem fim entra em cena, como a dos escravos, quando os homens não têm nada de sólido a dizer. E os próprios elementos, o grande e o pequeno, parecem gritar contra a violência que se faz contra eles, pois eles não podem de modo algum gerar outros números além daqueles obtidos do 1 por duplicação.
É estranho também atribuir geração a coisas que são eternas; ou melhor, isso é uma das coisas impossíveis. Não há por que duvidar se os pitagóricos atribuem geração a elas ou não, pois eles dizem com clareza que, quando o um foi construído, seja a partir de planos, de superfície, de semente, ou de elementos que não conseguem expressar, imediatamente a parte mais próxima do ilimitado começou a ser constrangida e limitada pelo limite.
Mas, já que eles estão construindo um mundo e querem falar a linguagem da ciência natural, é justo fazer algum exame de suas teorias físicas, mas dispensá-las da investigação presente. Pois estamos investigando os princípios que atuam nas coisas imutáveis, de modo que é a geração de números desse tipo que devemos estudar.