Metafísica - Livro XIV 1
Livro XIV (Ni): a crítica final aos princípios dos números e às Ideias platônicas
Por que os contrários (o Uno e o par grande-pequeno) não podem ser os princípios primeiros, e por que o Uno é só uma medida
Sobre esse tipo de substância, o que já dissemos basta. Todos os filósofos fazem dos princípios primeiros pares de contrários, tanto nas coisas da natureza quanto no caso das substâncias que não mudam.
Mas, como não pode existir nada antes do princípio primeiro de tudo, esse princípio não pode ser ao mesmo tempo o princípio e uma propriedade de outra coisa. Sugerir isso é como dizer que o branco é um princípio primeiro, não enquanto outra coisa qualquer, mas enquanto branco, e ainda assim que ele se afirma de um sujeito, ou seja, que seu ser branco pressupõe ele já ser alguma outra coisa. Isso é absurdo, pois então esse sujeito seria anterior ao princípio.
Mas tudo o que é gerado a partir de seus contrários envolve um sujeito que está por baixo. Logo, se há um sujeito em algum caso, há de existir um no caso dos contrários. Todos os contrários, então, sempre se afirmam de um sujeito, e nenhum pode existir separado. E, assim como as aparências sugerem que nada é contrário à substância, o raciocínio confirma isso. Nenhum contrário, portanto, é o princípio primeiro de tudo no sentido pleno: o princípio primeiro é algo diferente.
Mas esses pensadores fazem de um dos contrários a matéria. Alguns tomam o desigual como matéria para o Uno, vendo nele a essência da pluralidade; outros tomam a própria pluralidade como matéria para o Uno. Os primeiros geram os números a partir da díade do desigual, isto é, do grande e do pequeno; o outro pensador a que nos referimos gera os números a partir da pluralidade. Mas, para ambos, os números são gerados pela essência do Uno.
Pois mesmo o filósofo que diz que o desigual e o Uno são os elementos, e que o desigual é uma díade composta do grande e do pequeno, trata o desigual, ou o grande e o pequeno, como sendo uma coisa só, e não faz a distinção de que eles são um na definição, mas não no número.
Esses pensadores também não descrevem corretamente os princípios que chamam de elementos. Alguns nomeiam o grande e o pequeno junto com o Uno, e tratam esses três como elementos dos números: dois são a matéria, um é a forma. Outros nomeiam o muito e o pouco, porque o grande e o pequeno se ajustam melhor, por natureza, à grandeza do que ao número. E outros nomeiam o traço mais geral comum a esses pares: 'aquilo que excede e aquilo que é excedido'.
Nenhuma dessas variantes de opinião faz diferença que valha mencionar, levando em conta algumas das consequências. Elas afetam apenas as objeções abstratas, que esses pensadores tomam o cuidado de evitar, já que as demonstrações que eles mesmos oferecem são abstratas. A única exceção é esta: se os princípios forem o que excede e o que é excedido, e não o grande e o pequeno, a coerência exigiria que o número viesse desses elementos antes do dois, pois o número é mais universal do que o dois, assim como o que excede e o que é excedido é mais universal do que o grande e o pequeno. Mas, do jeito que está, eles afirmam uma dessas coisas sem afirmar a outra.
Outros opõem o diferente e o outro ao Uno; outros opõem a pluralidade ao Uno. Mas, se as coisas são feitas de contrários, como eles pretendem, e se ao Uno ou nada é contrário, ou, se algo é, essa é a pluralidade; e se o desigual é contrário ao igual, o diferente ao mesmo, e o outro à própria coisa, então quem opõe o Uno à pluralidade tem a posição mais plausível. Mesmo assim, essa visão é insuficiente, pois nela o Uno seria um pouco: a pluralidade se opõe à pouquidade, e o muito ao pouco.
'O uno' claramente significa uma medida. E, em cada caso, existe alguma coisa que está por baixo, com uma natureza própria distinta: na escala musical, o quarto de tom; na grandeza espacial, um dedo ou um pé ou algo do tipo; nos ritmos, uma batida ou uma sílaba; e, do mesmo modo, no peso é uma quantidade definida de carga. Assim acontece em todos os casos: nas qualidades, uma qualidade; nas quantidades, uma quantidade. E a medida é indivisível: no primeiro caso quanto ao tipo, no segundo quanto à percepção dos sentidos. Isso implica que o uno não é, em si mesmo, a substância de coisa alguma.
E isso é razoável, pois 'o uno' significa a medida de alguma pluralidade, e 'número' significa uma pluralidade já medida e uma pluralidade de medidas. Por isso é natural que o uno não seja um número: a medida não é várias medidas, e tanto a medida quanto o uno são pontos de partida, não coisas medidas.
A medida tem de ser sempre alguma coisa idêntica que se afirme de tudo aquilo que ela mede. Por exemplo, se as coisas são cavalos, a medida é 'cavalo'; se são homens, é 'homem'. Se as coisas são um homem, um cavalo e um deus, a medida talvez seja 'ser vivo', e o número delas será um número de seres vivos. Se as coisas são 'homem', 'pálido' e 'andando', dificilmente terão um número, porque todas pertencem a um sujeito que é um só e o mesmo em número; ainda assim, o número delas será um número de 'tipos' ou de algum termo parecido.
Aqueles que tratam o desigual como uma coisa só, e a díade como um composto indefinido de grande e pequeno, dizem algo muito longe de ser provável ou possível. Em primeiro lugar, esses pares são modificações e acidentes dos números e das grandezas, não aquilo que está por baixo deles: o muito e o pouco são do número, o grande e o pequeno são da grandeza, do mesmo modo que par e ímpar, liso e rugoso, reto e curvo.
Além desse erro, o grande e o pequeno, e os pares desse tipo, têm de ser relativos a alguma coisa. Mas o que é relativo é, de todas as coisas, a que menos chega a ser uma realidade ou substância, e vem depois da qualidade e da quantidade. O relativo é um acidente da quantidade, como foi dito, e não a sua matéria, pois algo com natureza própria distinta tem de servir de matéria tanto para o relativo em geral quanto para suas partes e tipos. Não existe nada grande ou pequeno, muito ou pouco, ou, em geral, relativo a outra coisa, que seja muito ou pouco, grande ou pequeno, ou relativo a algo, sem ter uma natureza própria.
Um sinal de que o relativo é, de tudo, o que menos é substância e coisa real é o fato de que só ele não tem geração, destruição ou movimento próprios. Quanto à quantidade há aumento e diminuição; quanto à qualidade, alteração; quanto ao lugar, deslocamento; quanto à substância, geração e destruição simples. Mas, quanto à relação, não há mudança própria: sem que ele próprio mude, um objeto será ora maior, ora menor, ora igual, se aquilo com que se compara mudou de quantidade.
Além disso, a matéria de cada coisa, e portanto da substância, tem de ser aquilo que é, em potência, da natureza em questão. Mas o relativo não é substância nem em potência nem em ato. É estranho, então, ou melhor, impossível, fazer do que não é substância um elemento da substância e algo anterior a ela, pois todas as categorias vêm depois da substância.
Por fim, os elementos não se afirmam daquilo de que são elementos. Mas 'muito' e 'pouco' se afirmam do número, tanto separados quanto juntos; 'longo' e 'curto', da linha; e 'largo' e 'estreito' se aplicam ao plano. Ora, se há uma pluralidade da qual um dos termos, a saber 'pouco', sempre se afirma, como o 2 (que não pode ser muito, pois, se o fosse, o 1 seria pouco), tem de haver também uma que seja muito de modo absoluto, como o 10 (se não houver número maior que 10), ou o 10.000. Diante disso, como pode o número ser feito de pouco e muito? Ou ambos deveriam se afirmar dele, ou nenhum; mas, de fato, só um ou o outro se afirma.