Metafísica - Livro XIV 2

Livro XIV (Ni): a crítica final aos princípios dos números e às Ideias platônicas

Por que o eterno não pode ter elementos, e por que existem muitas coisas e não só o Ser uno

Precisamos investigar, de modo geral, se as coisas eternas podem ser feitas de elementos. Se forem, terão matéria; pois tudo que é feito de elementos é composto. Ora, mesmo uma coisa que exista para sempre teria, caso tivesse vindo a existir, surgido daquilo de que ela é feita. E tudo que vem a ser, vem a ser a partir daquilo que ela é em potência (pois não poderia ter surgido daquilo que não tivesse essa capacidade, nem poderia ser feita de tais elementos).
Mas o que está em potência pode tanto se realizar em ato quanto não se realizar. Sendo assim, por mais perpétuo que seja um número, ou qualquer outra coisa que tenha matéria, ele tem que ser capaz de não existir, tal como aquilo que tem qualquer número de anos é tão capaz de não existir quanto aquilo que tem um dia de idade. E se algo é capaz de não existir, então também é capaz disso aquilo que durou por um tempo tão longo que não tem limite.
Logo, essas coisas não podem ser eternas, que aquilo que é capaz de não existir não é eterno, como tivemos ocasião de mostrar em outro lugar. Se é verdade, de modo universal, o que estamos dizendo agora, que nenhuma substância é eterna a menos que seja ato puro, e se os elementos são a matéria que está por baixo da substância e a sustenta, então nenhuma substância eterna pode ter elementos dentro de si, dos quais ela seria feita.
alguns que descrevem o elemento que atua junto com o Uno como uma dupla indefinida (díade indefinida), e fazem bem em rejeitar a noção do 'desigual', por causa das dificuldades que ela traz. Mas eles se livraram das objeções que surgem inevitavelmente quando se trata o desigual, ou seja, o relativo, como um elemento. As demais objeções, as que surgem independentemente dessa opinião, continuam a confrontá-los, seja o número que eles constroem com esses elementos o número ideal, seja o número matemático.
Muitas causas os levaram a essas explicações, sobretudo o fato de terem formulado a dificuldade de um modo antiquado. Pois pensaram que todas as coisas que existem seriam uma (a saber, o próprio Ser), se ninguém enfrentasse e refutasse o dito de Parmênides:
'Pois jamais se de provar isto, que as coisas que não são, são.'
Acharam necessário provar que aquilo que não é, é. Pois assim, a partir do que é e de mais alguma coisa, é que as coisas que existem poderiam ser compostas, caso sejam muitas.
Mas, em primeiro lugar, se 'ser' tem muitos sentidos (pois às vezes significa substância, às vezes que algo é de certa qualidade, às vezes que é de certa quantidade, e outras vezes as demais categorias), então que tipo de 'um' seriam todas as coisas que existem, supondo que o não-ser não exista? São as substâncias que seriam uma só? Ou as qualidades e do mesmo modo as outras categorias? Ou tudo junto, de forma que o 'isto', o 'tal qualidade', o 'tanta quantidade' e as outras categorias, cada uma indicando uma classe distinta de ser, fossem todas uma coisa só? Mas é estranho, ou melhor, impossível, que o aparecer de uma única coisa faça com que uma parte do que existe seja um 'isto', outra parte um 'tal', outra parte um 'tanto', outra parte um 'aqui'.
Em segundo lugar, de que tipo de não-ser e de ser são feitas as coisas que existem? Pois 'não-ser' também tem muitos sentidos, que 'ser' os tem. E 'não ser um homem' significa não ser uma certa substância; 'não ser reto', não ser de uma certa qualidade; 'não ter três côvados de comprimento', não ser de uma certa quantidade. Que tipo de ser e de não-ser, então, multiplicam as coisas que existem ao se unirem?
Esse pensador entende por não-ser, cuja união com o ser multiplica as coisas que existem, o falso e o caráter da falsidade. Por isso também costumava-se dizer que devemos supor algo falso, do mesmo modo que quem estuda geometria supõe que a linha que não tem um de comprimento tem um pé. Mas isso não pode ser assim. Pois nem quem estuda geometria supõe algo falso (a afirmação fica de fora do raciocínio), nem é nesse sentido de não-ser que as coisas que existem são geradas a partir dele ou se desfazem nele.
Mas como 'não-ser', tomado em seus vários casos, tem tantos sentidos quantas são as categorias, e além disso o falso é dito não ser, e o que está em potência também é dito não ser, é a partir deste último que a geração acontece: o homem surge daquilo que não é homem mas é homem em potência, e o branco surge daquilo que não é branco mas é branco em potência, valha isso para o caso de se gerar uma única coisa ou muitas.
A questão, claramente, é como o ser, no sentido das substâncias, é múltiplo. Pois as coisas que são geradas são números, linhas e corpos. Ora, é estranho perguntar como o ser no sentido do 'o que a coisa é' é múltiplo, e não perguntar como as qualidades ou as quantidades são múltiplas. Pois com certeza a dupla indefinida, ou 'o grande e o pequeno', não é a razão de haver dois tipos de branco, ou muitas cores, sabores ou figuras; se fosse, também essas seriam números e unidades.
Mas se eles tivessem atacado também essas outras categorias, teriam enxergado a causa da multiplicidade nas substâncias igualmente. Pois a causa é a mesma coisa, ou algo análogo. Esse desvio é também a razão pela qual, ao buscarem o oposto do ser e do Uno, a partir do qual, junto com o ser e o Uno, as coisas que existem procedem, eles propuseram o termo relativo (ou seja, o desigual), que não é nem o contrário nem a contradição do ser e do Uno, e que é apenas um tipo de ser, assim como o são o 'o que a coisa é' e a qualidade.
Eles deveriam ter feito também esta pergunta: como os termos relativos são muitos e não um só? Em vez disso, perguntam como muitas unidades além do primeiro 1, mas não vão adiante para perguntar como muitos desiguais além do desigual. No entanto, eles os usam e falam de grande e pequeno, muito e pouco (dos quais procedem os números), longo e curto (do qual procede a linha), largo e estreito (do qual procede o plano), profundo e raso (dos quais procedem os sólidos). E falam ainda de outros tipos de termo relativo. Qual é, então, a razão de haver uma multiplicidade desses termos?
É necessário, portanto, como dizemos, pressupor para cada coisa aquilo que ela é em potência. E o defensor dessas opiniões declarou ainda o que é aquilo que, sendo em potência um 'isto' e uma substância, não é por si mesmo um ser: disse que é o relativo (como se tivesse dito 'o qualitativo'), que não é nem o Uno nem o ser em potência, nem a negação do Uno ou do ser, mas é um entre os seres.
E era muito mais necessário, como dissemos, que ele, ao investigar como os seres são muitos, não perguntasse sobre os que estão dentro de uma mesma categoria (como muitas substâncias ou muitas qualidades), mas sim como os seres em sua totalidade são muitos; pois alguns são substâncias, alguns afecções, alguns relações.
Nas categorias diferentes da substância ainda outro problema envolvido na existência da multiplicidade. Como elas não são separáveis das substâncias, as qualidades e as quantidades são muitas justamente porque aquilo que está por baixo delas e as sustenta passa a ser e é múltiplo. Ainda assim, deveria haver uma matéria para cada categoria, que ela não pode ser separável das substâncias. Mas no caso dos 'istos', é possível explicar como o 'isto' é muitas coisas, a menos que a coisa seja tratada ao mesmo tempo como um 'isto' e como um caráter geral. A dificuldade que vem dos fatos sobre as substâncias é, antes, esta: como de fato muitas substâncias e não uma só.
E mais: se o 'isto' e o quantitativo não são a mesma coisa, então não nos dizem como e por que as coisas que existem são muitas, mas apenas como as quantidades são muitas. Pois todo 'número' significa uma quantidade, e o mesmo vale para a 'unidade', a menos que ela signifique uma medida ou aquilo que é indivisível em quantidade. Logo, se o quantitativo e o 'o que a coisa é' são diferentes, não nos dizem de onde nem como o 'o que a coisa é' é múltiplo. Mas se alguém disser que são a mesma coisa, terá de enfrentar muitas incoerências.
Pode-se também voltar a atenção para a questão, a respeito dos números, do que justifica a crença de que eles existem. Para quem acredita nas Ideias, os números oferecem algum tipo de causa para as coisas existentes, que cada número é uma Ideia, e a Ideia é, de um modo ou de outro, a causa do ser das outras coisas; concedamos a eles essa suposição.
Mas quanto àquele que não sustenta essa opinião, porque enxerga as objeções próprias da teoria das Ideias (de modo que não é por essa razão que ele propõe os números), e que mesmo assim propõe o número matemático, por que devemos acreditar na sua afirmação de que tal número existe, e de que serventia é tal número para as outras coisas? Quem diz que ele existe não sustenta que ele seja a causa de algo (diz antes que é uma coisa que existe por si mesma), nem se observa que ele seja a causa de algo. Pois os teoremas dos que fazem aritmética serão todos verdadeiros também das coisas sensíveis, como foi dito antes.