Metafísica - Livro XIV 5
Livro XIV (Ni): a crítica final aos princípios dos números e às Ideias platônicas
Por que o número não pode ser o princípio nem a causa das coisas
Já que é impossível tanto deixar o Bem de fora dos princípios primeiros quanto colocá-lo entre eles deste modo, fica claro que esses pensadores não descrevem corretamente nem os princípios nem as substâncias primeiras. E também não pensa direito quem compara os princípios do universo com os princípios dos animais e das plantas, supondo que o mais completo sempre nasce do que é indefinido e incompleto. É esse raciocínio que leva esse pensador a dizer que o mesmo vale para os princípios primeiros da realidade, de modo que o próprio Uno nem sequer seria uma coisa que existe. Isso está errado, porque mesmo neste mundo dos animais e das plantas os princípios de que eles vêm são completos: é um homem que gera um homem, e a semente não vem primeiro.
É também sem cabimento gerar o lugar ao mesmo tempo que os sólidos da matemática. O lugar é próprio das coisas individuais, e por isso elas estão separadas no espaço; mas os objetos matemáticos não estão em parte nenhuma. Dizer que eles têm de estar em algum lugar, sem dizer que tipo de lugar é esse, não resolve nada.
Quem afirma que as coisas existentes vêm de elementos e que as primeiras dessas coisas são os números deveria, antes de tudo, ter distinguido os vários sentidos em que uma coisa pode vir de outra, e só então dizer em qual desses sentidos o número vem dos seus princípios primeiros.
Será por mistura? Mas, primeiro, nem tudo pode se misturar; e, segundo, aquilo que resulta da mistura é diferente dos seus elementos. Nesse caso, o um não permaneceria separado, como uma coisa distinta; e eles querem que ele permaneça assim.
Será por justaposição, como acontece numa sílaba? Mas então, primeiro, os elementos teriam de ter uma posição; e, segundo, quem pensa o número conseguiria pensar a unidade e a pluralidade separadamente. O número seria, então, isto: uma unidade mais pluralidade, ou o um mais o desigual.
Outra coisa: dizer que algo vem de certas coisas significa, num sentido, que essas coisas ainda continuam presentes no produto, e, noutro sentido, que elas não continuam. Em qual desses sentidos o número vem desses elementos? Só pode vir de elementos que estão presentes nele aquilo que é gerado.
Então o número vem dos seus elementos como vem de uma semente? Mas nada pode ser expelido daquilo que não tem partes. Ou o número vem do seu contrário, sem que esse contrário continue existindo? Mas tudo o que surge desse modo surge também de algo a mais, que permanece. Ora, um pensador coloca o 1 como contrário da pluralidade, e outro o coloca como contrário do desigual, tratando o 1 como o igual; em ambos os casos o número estaria vindo de contrários. Logo, existe ainda uma terceira coisa, que permanece, e é dela mais de um dos contrários que o composto é ou veio a ser.
E mais: por que diabos todas as outras coisas que vêm de contrários, ou que têm um contrário, perecem (mesmo quando se usa todo o contrário para produzi-las), enquanto o número não perece? Sobre isso não se diz nada. E no entanto o contrário destrói o composto esteja ele presente ou não: a discórdia, por exemplo, destrói a mistura (embora não devesse destruí-la, porque a discórdia não é o contrário da mistura).
Há ainda outro ponto que esses pensadores não decidiram de jeito nenhum: de que modo os números são causas das substâncias e do ser. Será como limites, do jeito que os pontos são limites das grandezas no espaço? Foi assim que Eurito definia qual era o número de cada coisa (por exemplo, um número para o homem, outro para o cavalo): ele imitava as figuras dos seres vivos com pedrinhas, do mesmo modo que algumas pessoas reduzem os números às formas do triângulo e do quadrado.
Ou será que os números são causas porque a harmonia é uma razão entre números, e assim também seriam o homem e tudo o mais? Mas como é que as qualidades, o branco, o doce, o quente, poderiam ser números? Fica claro que não são os números que são a essência ou as causas da forma; quem é a essência é a razão, ao passo que o número é a matéria.
Por exemplo, a essência da carne ou do osso é número apenas neste sentido: três partes de fogo e duas de terra. E um número, qualquer que ele seja, é sempre número de certas coisas: ou de partes de fogo, ou de terra, ou de unidades. Mas a essência está em haver tanto de uma coisa para tanto de outra na mistura; e isso já não é um número, e sim uma razão de mistura entre números, sejam eles corpóreos ou de qualquer outro tipo.
O número, portanto, seja o número em geral, seja o número feito de unidades abstratas, não é nem a causa que age, nem a matéria, nem a razão e forma das coisas. E, claro, também não é a causa final.