Capítulos

Sócrates ensinando dois jovens atenienses

A República - Livro VII

A alegoria da caverna e o currículo (número, geometria, astronomia, dialética) que liberta a alma

Sobre a obra

A República é um diálogo de Platão (cerca de 380 a.C.) em que Sócrates é o personagem principal. O Livro VII abre com a passagem mais famosa de toda a obra: a alegoria da caverna. Ela continua a discussão sobre a justiça e sobre a educação dos governantes, traçada nos livros anteriores. Como o resto da obra, o livro é uma conversa entre Sócrates e os interlocutores Glauco e Adimanto.

A numeração de versículos usada aqui é uma divisão do texto feita por este site para facilitar a leitura. Não corresponde à paginação tradicional de Stephanus.

O que este livro discute

Sócrates pede que se imaginem prisioneiros acorrentados no fundo de uma caverna desde a infância. Eles só veem sombras projetadas numa parede por objetos que passam diante de uma fogueira atrás deles. Tomam as sombras pela realidade. Um prisioneiro é solto, vira-se, sobe com dificuldade até a luz do sol e enxerga as coisas como são. Ao voltar para os antigos companheiros, é desacreditado.

(A República - Livro VII 1:1)

Sócrates explica o sentido da imagem. A caverna é o mundo visível, o fogo é o sol, e a subida é a ascensão da alma ao mundo inteligível. No alto desse mundo está a ideia do bem, comparada ao sol, fonte da verdade e do conhecimento. A educação, diz ele, não é despejar saber numa alma vazia, mas virar a alma inteira da escuridão para a luz. Esse giro do olhar interior é chamado de periagoge, a conversão da alma.

(A República - Livro VII 2:2)

Em seguida Sócrates descreve um currículo de estudos que prepara a alma para essa virada. A sequência começa pelo número e pelo cálculo, passa pela geometria, pela astronomia e pela harmonia, e culmina na dialética, o estudo que busca a razão de cada coisa e leva ao conhecimento do bem. O livro termina fixando as idades em que os futuros governantes devem passar por cada etapa da formação.

(A República - Livro VII 3:1)

(A República - Livro VII 5:1)

Relevância para a fé cristã

A alegoria da caverna foi lida por toda a tradição cristã de inspiração platônica como imagem da ascensão da alma das sombras à luz da verdade, e por extensão a Deus. A subida ao sol, identificado com o bem, foi associada à contemplação de Deus como fonte de toda verdade. Gregório de Nissa, entre os Padres gregos, retomou a imagem da caverna em sua leitura espiritual.

A periagoge, o giro da alma em direção à luz, foi comparada à conversão cristã. Agostinho, nas Confissões, narra a própria ascensão da mente desde as sombras até a luz divina, e diz que a leitura dos livros dos platônicos o ajudou a corrigir suas ideias sobre Deus e a alma antes de chegar à fé. A ordem dos estudos proposta no Livro VII, número, geometria, astronomia e harmonia, está na origem do quadrívio, o grupo das quatro artes matemáticas que, ao lado do trívio, formou o currículo das artes liberais nas escolas cristãs medievais.

A apropriação cristã da alegoria é uma releitura, não o sentido original do texto. Platão fala da reminiscência, a ideia de que aprender é lembrar o que a alma já viu antes de nascer, e de um bem impessoal, não da graça nem de um Deus pessoal e criador. A leitura que identifica o bem de Platão com o Deus cristão é uma adaptação feita depois, em outro horizonte de fé.