Capítulos

Sócrates ensinando dois jovens atenienses

A República - Livro V

As três ondas: as mulheres guardiãs, a comunhão de bens e filhos, e o rei filósofo

Sobre a obra

A República é o diálogo mais extenso de Platão, escrito por volta do século 4 a.C. Sócrates é o personagem principal e conduz a conversa. A obra investiga o que é a justiça e descreve uma cidade ideal como meio de enxergar a justiça em escala maior. O Livro V dá sequência à construção dessa cidade iniciada nos livros anteriores.

Esta edição divide A República em volumes. Este é o Livro V, com seis capítulos. Ele introduz três propostas que Platão chama de ondas, por serem difíceis de defender, e prepara a distinção entre conhecimento e opinião que os livros seguintes desenvolvem.

O que este livro discute

Sócrates apresenta três paradoxos, as chamadas três ondas. A primeira onda defende que as mulheres da classe dos guardiões recebam a mesma educação dos homens e exerçam as mesmas funções, inclusive a guerra. O argumento é que a diferença entre os sexos não impede que ambos sirvam à cidade.

(A República - Livro V 1:1)

A segunda onda propõe a comunhão de mulheres, filhos e bens entre os guardiões. Não haveria família privada nem propriedade própria nessa classe. As uniões seriam organizadas pela cidade, com seleção dos pais segundo critérios de aptidão, uma forma de eugenia controlada, e as crianças seriam criadas em comum, sem saber quem são seus pais.

(A República - Livro V 2:1)

A terceira onda é a mais célebre. Sócrates afirma que a cidade justa só é possível quando os filósofos se tornarem reis, ou quando os reis se tornarem filósofos. A frase resume a tese central: enquanto o poder e a filosofia estiverem separados, as cidades não terão fim para os seus males.

(A República - Livro V 5:1)

Para justificar o rei filósofo, Platão distingue conhecimento e opinião. O filósofo ama o que sempre permanece igual e busca a verdade. Os que se contentam com as muitas coisas belas, sem buscar o belo em si, são chamados amantes das aparências. Só quem conhece o que é imutável está apto a governar.

(A República - Livro V 6:1)

Relevância para a fé cristã

A figura do filósofo como aquele que ama a verdade e contempla o que é imutável foi lida por autores cristãos como uma prefiguração do sábio que busca a Deus. A separação entre o mundo das aparências e a realidade estável foi aproximada da distinção cristã entre o que passa e o que permanece.

A comunhão de bens proposta no livro foi comparada, com cautela, à vida em comum dos primeiros cristãos descrita em Atos e, mais tarde, ao monasticismo. Agostinho discute Platão e os platônicos na Cidade de Deus, reconhecendo neles a maior aproximação pagã à verdade, sem deixar de marcar as diferenças.

Há tensão forte com a ética cristã. A abolição da família, a comunhão de esposas e a seleção controlada dos nascimentos chocam-se com a santidade do casamento e da família afirmada pela tradição cristã. Esses pontos são rejeitados, não absorvidos.

Vale lembrar que A República é uma obra pagã e anterior ao cristianismo. Sua cidade ideal é elitista, reservada a uma classe de guardiões, e não pressupõe revelação nem um Deus pessoal e criador. As leituras cristãs são apropriações posteriores, não a intenção do texto.