Capítulos

Sócrates ensinando dois jovens atenienses

A República - Livro III

A educação dos guardiões: que histórias, música e ginástica formam a alma, e o mito dos metais

Sobre a obra

A República é um diálogo de Platão (c. 428 a 348 a.C.), filósofo ateniense discípulo de Sócrates. A obra investiga o que é a justiça e desenha uma cidade ideal como modelo. A maioria dos estudiosos data a composição entre cerca de 380 e 370 a.C., na maturidade de Platão.

A obra completa tem dez livros. Este é o Livro III, que continua o programa de educação dos guardiões iniciado no Livro II e o estende da poesia para a música, a ginástica e a seleção dos governantes.

O que este livro discute

A primeira parte segue a discussão sobre as histórias permitidas na cidade. Sócrates decide quais relatos sobre a morte e sobre os heróis podem ser contados aos jovens. Quer evitar versos que façam temer a morte ou que mostrem heróis em lamentos e descontrole, para não amolecer o caráter dos futuros defensores.

Em seguida, Sócrates examina os estilos de narração. Distingue a narrativa simples da imitação, em que o poeta fala como se fosse o personagem. Restringe a imitação, admitindo que os guardiões imitem apenas modelos bons. Passa então à música, à harmonia e ao ritmo, aceitando só os modos que formam coragem e ordem, e rejeitando os que afrouxam a alma.

Depois vêm a ginástica e a medicina, voltadas a formar o corpo a serviço da alma. O livro fecha com a seleção dos governantes entre os guardiões e com a chamada mentira nobre, o mito dos metais: a história de que o deus misturou ouro nas almas dos governantes, prata nos auxiliares, e bronze e ferro nos agricultores e artesãos. O propósito declarado é fazer os cidadãos cuidarem da cidade e uns dos outros.

Cidadãos, diremos a eles em nossa história, vocês são irmãos, mas o deus os formou de modo diferente. Alguns de vocês têm o poder de comandar, e na composição deles ele misturou ouro, e por isso são os de maior honra. Outros ele fez de prata, para serem auxiliares. E outros, que serão agricultores e artesãos, ele compôs de bronze e ferro.

Platão, A República, Livro III

Relevância para a fé cristã

A tese de que a educação forma a alma, e de que a beleza e a harmonia educam o caráter, teve longa influência na pedagogia cristã. Para Sócrates, ritmo e harmonia chegam aos lugares mais internos da alma e a tornam graciosa ou desgraciosa conforme a formação recebida. Essa ideia de que a ordem sensível modela o interior reaparece em Agostinho, que dedicou um tratado inteiro ao tema, o De Musica, ligando número, proporção e a ascensão da alma a Deus.

E por isso, eu disse, Glauco, a educação musical é um instrumento mais poderoso que qualquer outro, porque o ritmo e a harmonia encontram o caminho até os lugares mais internos da alma, onde se fixam com força, dando-lhe graça.

Platão, A República, Livro III

Há, porém, um ponto de tensão direta. A mentira nobre é uma falsidade fundadora, contada de propósito para manter a coesão da cidade. A tradição cristã condena a mentira como contrária à verdade, e teólogos que admiraram Platão criticaram esse expediente. Agostinho escreveu obras inteiras contra toda mentira, De Mendacio e Contra Mendacium, sustentando que nem mesmo um fim bom justifica enganar. Onde Platão vê um mito útil, a moral cristã vê um defeito.

Cabe a ressalva honesta. Platão é anterior ao cristianismo e o contexto do diálogo é pagão e politeísta: o mito atribui a formação dos homens a um deus impessoal, não ao Deus pessoal e criador da Bíblia. Além disso, dois traços centrais deste livro não são cristãos. A censura estatal das artes, que expulsa poetas e modos musicais da cidade, e o mito fundador fabricado, criado para governar pela crença, contrariam tanto a liberdade quanto o compromisso cristão com a verdade. A convergência está na ideia de que a formação molda a alma, não no programa político de Sócrates como um todo.

Para o mito dos metais e a mentira nobre, ver:

(A República - Livro III 6:18)

Para a formação da alma pela música e pela harmonia, ver:

(A República - Livro III 3:32)